O cronista começa por assumir o tom de exasperação: “Já não aguento mais o pop alentejano da moda. Já não consigo ouvir mais musiquinhas alentejanas ou pseudo alentejanas feitas num algoritmo que tem o seguinte código: Pá, mete aí um sotaquezinho alentejano pra agradar aos lisboetas.”
Na sua perspetiva, trata-se de uma construção artificial pensada para o mercado urbano.
Raposo cita uma das letras que critica — “Se achas Lisboa grande/ o Alentejo ainda é maior” — para interrogar: “Maior no quê?” E responde em sequência: “Maior na pobreza e depressão que não aparecem nestas músicas? Sim. Maior no abismo entre a elite (agrobeta) e o povo? Sim. Maior no abismo entre a economia global que passa por ali sem deixar riqueza para os locais, até porque se limita a importar mão de obra quase escrava? Sim. Maior nos índices de depressão e suicídio? Sim. Maior no abismo entre a realidade e as narrativas escolhidas pelos lisboetas? Sim.”
O texto de opinião rejeita o que considera ser uma representação edulcorada da região: “Estou farto desta ficção que se inventa sobre o Alentejo; esta ficção bucólica, solar e positiva que esconde os problemas sentidos pelos alentejanos reais.” E acrescenta que não se refere “nem os bangladeshi da fruta nem o caseiro búlgaro da herdade do lisboeta que só vai ali de mês a mês ou nem isso e que nem sabe o que é um chaparro”.
No artigo do Expresso, Henrique Raposo evoca ainda “o desespero do dia-a-dia bem apanhado pela recém falecida Clara Pinto Correia”, falando “do desespero do trabalho sazonal, dos nem nem que se arrastam pelos cafés e tabernas, que se matam nas motas ou nas árvores com uma corda”. Menciona também o “desespero” dos alentejanos “terem as piores escolas e uma cultura – em casa – que despreza os livros” e “o desespero que é ter sempre o hospital a léguas e léguas”.
O cronista questiona: “Porque é que este Alentejo real, duro, pobre e soturno nunca aparece nestes cartões postais que enchem as rádios com uma ideia de Alentejo completamente fictícia?” E conclui que “não há território tão propenso a narrativas deslocadas da realidade”.
Se “no passado tínhamos as narrativas neorrealistas”, escreve, “agora temos umas narrativas yuppies feitas a pensar numa imagem idílica e turística”. O contraste, sustenta, é profundo: “O abismo é total e, para mim, sufocante: nas rádios, ouvimos estas musiquinhas alentejanas que são postais fictícios de um Alentejo irreal, fofo e bucólico; na realidade social e política, os alentejanos enterram-se na pobreza, no suicídio, no racismo e o no radicalismo político”.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: D.R.













14 Responses
Nem sequer discordo completamente do conteúdo, mas discordo profundamente do contexto e da forma. Senhor cronista, em primeiro lugar só quem vive no Alentejo pode ter uma opinião baseada em algo que se vivência, não um descendente que vive do empírico e não da experiência. Em segundo lugar. Sou do Alentejo e do Cante, do cante até com esta roupagem consumista do turismo, mas o texto parece mais o velho típico sentimento “tão alentejano” de bater só porque sim. Só porque o vizinho está com um pequeno e efémero sucesso. Não gosta não ouve, quer defender defende mas com fundamento que não seja oculto. Obrigado, mas não obrigado.
O Raposo já te viste ao espelho no Alentejo se estás assim tão cansado dos cantes e dos alentejanos nunca venhas ao Alentejo porque cá á muitos Raposos e raposas melhores que tu o Alentejo respira ar puro e cardápio do melhor do mundo pode haver alguma miséria mas os alentejanos são felizes na própria terra eu estive vários anos em Lisboa e voltei para o Alentejo e pelo que vejo vocês em Lisboa estão cheios de vícios vícios esses que devem ser do ar de Lisboa eu quando vou a Lisboa tento não estar aí muito tempo porque é contaminante
Havias de andar a lavrar a terra com os cornos com 50 graus de calor seu cabrão!!!!!! Com todo o respeito pelos lisboetas , e pessoal do norte nao tenho nada contra vocês , respeito muito norte centro e sul de portugal, quando falas mal do alentejo nao te esqueças , do que comes nem do que bebes……
Mas se o incomoda tanto essa música, pergunto eu: porque a ouve? Mude de canal de emissora, faça o pino, vá arejar as ideias e não ouça. Isso é ser inteligente. Ou Então é masoquista… Por favor. O lugar onde nasceu deve ser muito maior do que tudo o resto… Calculo!!!
Triste de Merda sabes lá tu o que é o Alentejo , se não gostas das musiquinhas é fácil ouve outra , se não gostas do Alentejo não venhas até cá , ou se vieres possivelmente depois destes tristes comentários não serás lá muito bem recebido , estás habituado a viver só entre 4 paredes sem sol, sem lua, sem frio, sem felicidade ,sem ar puro , sem amigos na rua para dizer bom dia ou um simples estás bom ? não estás habituado a nada que seja Puro , possivelmente nem sabes que Raposas como tu vivem nas tocas . Calado e pensares antes deste tipo de crónicas eras um artista , por isto é que o jornalixo está como está .
Caro Henrique, 10 anos depois de ter gerado uma onda de protesto, pelas criticas feitas aos hábitos e vivências do povo Alentejano no seu livro(Alentejo prometido) mais uma vez a mesma polémica: a entrar nos sentimentos sensíveis dos Alentejanos! Parece não ter aprendido em2016. Tenho alguma admiração por textos que escreve: mas queira aceitar um conselho de um Alentejano de 67 anos: modifique a sua forma de escrever! Até pode ter razão em alguns argumentos: o povo alentejano já não é ingénuo, nem campestre!
Mas quem é este energúmeno? Sabes o que é o Alentejo? És ridículo, faz como eu, quando te vejo falar mudo de canal. Pobre de espírito e insignificante és tu. Tu é que te devias suicidar e ter vergonha de ti.
Mais um texto de opinião do Henrique… Pronto, Quique… Pode voltar para o seu cantinho e adormecer por mais um tempo que já apareceu e sabemos que está vivo. Entretanto, que tal atualizar parte do conhecimento que acha que tem do Alentejo dos bisavós? É só para não dar opiniões tão… sei lá… do tempo de vida dos meus avós que viveram até aos 90 e, se fossem vivos, teriam ultrapassado os 100 há uma vintena de anos. Eles sim, viveram num Alentejo de senhores feudais que exploravam os pobres até ao tutano, eram protegidos pelo regime de então, também iam à missa ao domingo e deprimiam o país. Vá… Volte lá para o anonimato da cidade grande… o Alentejo é bem maior que a sua memória. E a dos governantes que só se lembram do Alentejo em tempos de eleições, porque nem sequer querem refletir sobre o resuitado das mesmas, sobre o isolamento regional a que votam este Alentejo maior e este povo enorme. Que continuam cá, muito depois que o menino se foi e que se mostra em muito do que por cá se faz, contra vontades políticas centralizadas, se reconstroi e sobrevive. E estará cá muito depois que o menino se for e todos nós nos formos. Desejamos nós que o Alentejo não volte a outros tempos, que ainda há e haja quem lute contra essas alarvidades, que resista à gentrificação mas também à desertificação humana e, sobretudo, seja sempre hospitaleiro e resista à tentação de submeter quem vem trabalhar ao feudo dos senhores saudosos.
Alentejo é uma provincia cheia de gente analfabeta e animalesca.
Também vieste cá conhecer o teu Pai … não ?…por esse teu discurso não me devo de enganar !… ” Deus tenha piedade de ti e te deia a morte de um grilo ! “
Senhor José Pires, falta um assento na palavra província, desculpe ser um alentejano analfabeto a corrigi-lo.
Bem haja
Caro cronista! Focando-me apenas num dos aspetos da sua interessante crónica, não podia estar mais de acordo consigo no que toca à preponderância daquilo que classifico como lobby ou cartel alentejano, que parece, ultimamente, dominar o panorama mediático deste querido país! É a rádio, a televisão e agora até o Festival da Canção… . Claro que respeito o povo alentejano e a sua cultura, mas Portugal não tem apenas uma região e, na minha perspetiva, existe parcialidade no que toca à divulgação dos valores culturais das diferentes latitudes. Somos um país plural, sejamo-lo também nos centros de decisão!
As outras latitudes a quem se refere que se afirmem….
Há aqui alguma clareza e realista sobre alguns aspetos reais no que se passa no Alentejo… agora não há que confundir decisões erradas e acima de tudo “políticas” com a grandeza a cultura e os valores do Alentejo e dos Alentejanos….acho que misturar ” alhos com bugalhos” dá asneira , e ninguém se revê neste discurso .