Incúria e abandono ameaçam património histórico no Alentejo

Há séculos de história espalhados pelo Alentejo que estão a desaparecer perante a falta de fiscalização e o desinteresse de quem tem a responsabilidade de proteger o património. Especialistas alertam para uma perda contínua e muitas vezes irreversível de vestígios arqueológicos e arquitetónicos, num território cada vez mais despovoado, onde a ausência de estratégia e de intervenção eficaz agrava o abandono.

José Bento Amaro (texto)

Há milhares de anos de património histórico e cultural espalhados pelo Alentejo, de norte a sul, da raia ao litoral, em risco de desaparecerem. Monumentos das mais diversas eras desmoronam-se ao ritmo da aparente modorra e incúria das diversas entidades locais e centrais. As práticas agrícolas, mas também o desinteresse de quem tem a obrigação de zelar, estão a levar à extinção do edificado e também da memória de um legado que, praticamente, só já é apreciado por visitantes estrangeiros. O despovoamento da região, dizem os especialistas, fomenta o abandono.

«Resumidamente, direi que não há controlo. Há cada vez mais regras e leis que não são cumpridas, porque não existe a fiscalização devida e também porque parece não existir consciência de quem tem obrigações. Há menos atividades que valorizam o edificado histórico do Alentejo e há um desinteresse enorme por parte de quem tem obrigatoriamente de fazer alguma coisa, mas não faz. Mesmo que atualmente exista muito dinheiro para promover as ações de preservação de todo o património». Quem o diz é o arqueólogo Luís Lobato Faria que, depois de muitos anos a trabalhar em escavações de toda a região, é agora proprietário de uma empresa turística que semanalmente mostra aos interessados os monumentos ou meros vestígios que ainda subsistem.

Este sentimento de desinteresse progressivo pelo património arqueológico é também partilhado pelo arqueólogo e docente da Universidade de Évora, Jorge Oliveira. «O abandono é transversal a todo o país, embora no Alentejo possa acentuar-se. Porquê? Porque a região está cada vez mais despovoada e também porque os atuais donos da terra não têm pela mesma o mesmo apego que os antecessores».

«Hoje» — acrescenta — «há novos proprietários das terras que não sentem pelas mesmas as preocupações dos antigos donos. Muitas vezes nem sequer conhecem o património que possuem nos seus terrenos. Dantes chegava a um qualquer terreno e a preocupação das pessoas era virem mostrar-me uma pedra de que tinham ouvido dizer que era necessário preservar. Havia uma preocupação séria».

Jorge Oliveira dá como exemplo o menir de Meadas, em Castelo de Vide. «Trata-se de um monumento com quase sete mil anos que corre o risco de cair. Está a abrir fissuras. Está localizado num terreno onde pessoas vão, de mota e de jipe, fazer peões em seu redor. É só, dentro do género, o maior e mais importante monumento da Península Ibérica, mas está praticamente votado ao abandono».

Conhecedor de todos os palmos do território alentejano, Luís Lobato Faria também justifica o futuro negro que ameaça o património arquitetónico local com um exemplo concreto. «No concelho de Reguengos de Monsaraz desapareceram, nos últimos 70 anos, pelo menos 40 por cento dos vestígios megalíticos que eram conhecidos. As perdas serão, certamente, muito maiores, se tivermos em conta que muitas outras estruturas que não estavam referenciadas acabaram igualmente por sucumbir a um vasto leque de práticas, sobretudo a agricultura».

Entre o muito que já se perdeu contam-se antas, antigas villae romanas, túmulos escavados nas rochas e uma quantidade apreciável de vestígios que terão surgido ainda na Idade do Ferro. «Quando hoje olhamos para uma ermida no meio do campo temos de ter em conta que antes já ali existiu uma cuba árabe que, por sua vez, terá sido edificada sobre um templo romano e que este, por seu turno, terá surgido onde antes se venerava uma outra divindade de uma época muito mais antiga».

Lembra o arqueólogo que «as terras sagradas não são de uma era ou de um povo específico. Muitas vezes encontramos as rochas da fertilidade, onde as mulheres se esfregavam para terem filhos». E, depois, «há também locais onde se faziam sacrifícios e outros, ainda hoje utilizados em determinados locais, que funcionavam como sítios onde se faziam desejos, por norma associados à fertilidade».

Jorge Oliveira explica que a salvação de todo o património, mas sobretudo daquele que «está ao cimo da terra, porque o que está soterrado ainda está preservado», passa pela elaboração de projetos de investigação submetidos a um zelo rigoroso. «Veja, por exemplo, o caso dos dolmens ou antas. Estão protegidos por lei, mas na prática essa proteção só existe no papel. Vem um tonto qualquer com a ideia de plantar oliveiras ou vinha, e lá se vai tudo. Ninguém fiscaliza ou acompanha com rigor».

Há dinheiro, falta quem o queira utilizar

Por vezes a delapidação do património arquitetónico é explicada com a falta de verbas suficientes para o manter. Luís Lobato Faria entende que esse não pode ser um argumento utilizado nos tempos que correm. Diz que existem verbas comunitárias disponíveis para este tipo de projetos, mas que, no entanto, não parecem despertar a atenção de entidades estatais e particulares.

«Está tudo a desaparecer a um ritmo alucinante. Até os moinhos, que dantes eram imensos junto aos cursos de água do Alentejo, estão agora quase todos em ruínas ou já totalmente arrasados. Não se justifica que tal aconteça, porque existem fundos comunitários que podem ser requeridos para a conservação de todo o tipo de edifícios. No megalitismo, por exemplo, seria importante que os proprietários dos terrenos utilizassem as verbas ao dispor para cercarem os caminhos de acesso aos monumentos ou vestígios», refere.

Na ótica do arqueólogo, cada proprietário «deveria utilizar um subsídio anual» para o efeito. «Evitava-se a destruição por parte dos animais, das vacas e até de pessoas e criavam-se condições para os visitantes. Muita gente não faz a mais pequena ideia do valor patrimonial que tem dentro dos seus terrenos».

Segundo Luís Lobato Faria, «os estrangeiros que nos visitam são os que parecem mais conscientes da realidade. Sabem que Portugal e o Alentejo, em especial, é um dos poucos locais na Europa onde ainda subsiste alguma autenticidade. Temos muitos que nos falam do exemplo espanhol, onde grande parte de todo o património que existia nos campos desapareceu por ação da agricultura, do plantio desmedido de olival».

A formação é defendida pelo mesmo especialista como sendo fundamental para a preservação do que ainda resta. «Há muita gente, nomeadamente aqueles que trabalham no campo, que não sabem o suficiente para não estragar o que existe. Para esses o mais importante é arranjar espaço para plantar oliveiras. Seria bom que lhes dessem formação, até porque não é possível termos um arqueólogo atrás de cada máquina».

Esta posição é secundada por Jorge Oliveira, que defende a sensibilização de quem possui terras e de quem nelas trabalha, mas que entende igualmente que é importante explicar aos proprietários o valor do que os seus terrenos ainda guardam. «Há inúmeras ermidas espalhadas por todo o Alentejo. Muitas delas são do século XVI. De ano para ano vão desaparecendo. Já foram todas saqueadas e agora caem em grande número. Os donos desses terrenos começaram a aramá-los, a impedir a entrada de pessoas que ali praticavam atos de culto e, em simultâneo, iam preservando o edificado. Agora não há acesso aos terrenos e nem sequer há gente. O despovoamento é uma realidade. O Alentejo está sangrado de gente», conclui.

Uma resposta

  1. Onde andam os responsáveis !!?? Organismos públicos e seus funcionários o que andam a fazer!!??
    Quem devia ter feito o seu trabalho nãofez !!!
    Tanta incompetência… tanta falta de educação!!!
    É muito triste ver este País a “saque”

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