Isabel Montes: «O Alentejo é uma presença viva na minha poesia»

Professora de Português no Agrupamento n.º 1 de Beja e residente em Ferreira do Alentejo, Isabel Montes acaba de publicar «Poemas da Terra e da Alma», livro onde a memória, os afetos e a ligação à terra ocupam lugar central.

Ana Luísa Delgado (texto)

«O Alentejo é muito mais do que um cenário na minha poesia; é uma presença viva que inspira o meu olhar sobre o mundo», confessa a autora, para quem Ferreira do Alentejo é fonte permanente de inspiração.

Em entrevista à Alentejo Ilustrado, Isabel Montes fala sobre o novo livro, a relação entre escrita e ensino, e o que procura despertar em leitores e alunos.

Em «Poemas da Terra e da Alma», a memória, os afetos e a ligação à terra ocupam um lugar central. De que forma o Alentejo e, em particular, Ferreira do Alentejo influenciam a sua escrita?

Embora tenha nascido em Lisboa, acredito que nem sempre é o lugar onde nascemos que define a nossa identidade. Ferreira do Alentejo é a terra que verdadeiramente me pertence e onde criei as minhas raízes afetivas. É aqui que encontro a família, amizades, as memórias, as ruas que conheço desde sempre, as casas que guardam histórias e os campos que marcaram a minha infância e a minha vida. Vi a paisagem transformar-se: os vastos trigais deram lugar aos extensos olivais, mas a essência desta terra permanece intacta.

E de que forma essa paisagem e essas pessoas se refletem na sua poesia?

O Alentejo é muito mais do que um cenário na minha poesia; é uma presença viva que inspira o meu olhar sobre o mundo. A serenidade das planícies, a força da natureza, o ritmo das estações e a simplicidade das pessoas refletem-se nos meus versos. As pessoas com quem cresci e aquelas que continuam a fazer parte da minha vida alimentam o meu imaginário e habitam, de diferentes formas, os meus textos.

«Poemas da Terra e da Alma» insere-se num projeto editorial diferente do habitual. Pode explicar-nos essa proposta?

Este livro, sob a chancela da Grant de Vasconcelos, faz parte de um projeto diferente, onde a literatura, a imagem e o som se cruzam para criar livros-cartas com intenção, identidade e presença. A memória, os afetos e a ligação à terra surgem como pilares fundamentais porque acredito que somos feitos dos lugares que nos acolhem e das pessoas que deixam marcas no nosso percurso. Ferreira do Alentejo é, por isso, muito mais do que o espaço onde vivo: é uma fonte permanente de inspiração, o lugar onde a minha escrita encontra voz, emoção e autenticidade.

Como concilia a atividade docente com o percurso literário?

Ser professora é, para mim, uma missão de vida. Ensinar, acompanhar o crescimento dos meus alunos e vê-los descobrir o conhecimento é uma das maiores recompensas que a profissão me oferece. Saber que, de alguma forma, faço parte do seu percurso humano e académico é profundamente gratificante.

Tem-se dedicado particularmente ao ensino do Português como língua não materna. Como tem sido essa experiência?

Nos últimos anos, tenho dedicado grande parte da minha atividade ao ensino do Português Língua Não Materna, trabalhando com alunos do 1.º ciclo ao 12.º ano. É um desafio permanente ensinar uma língua nova a jovens provenientes de diferentes países, com culturas, línguas maternas e formas de estar muito distintas. No entanto, assistir ao momento em que começam a comunicar em português com confiança, a integrar-se na escola, na sociedade e a acompanhar o currículo das restantes disciplinas é uma sensação única e uma das maiores recompensas da minha profissão.

Essa ligação à literatura vem de longe. Quando começou a escrever?

A minha formação assenta na Didática do Português, mas também na Literatura, duas áreas que sempre caminharam lado a lado na minha vida. Escrevo desde criança e a minha primeira publicação foi o poema «Sinto que sou», divulgado num jornal de âmbito nacional quando ainda era adolescente. Esse momento reforçou a convicção de que as palavras poderiam acompanhar-me para sempre.

Sente que a docência e a escrita se influenciam mutuamente?

A docência e a escrita alimentam-se mutuamente. O contacto diário com os alunos recorda-me que a língua é um organismo vivo, em constante transformação, capaz de construir pontes entre pessoas e culturas. Por sua vez, a literatura oferece-me um espaço de liberdade, reflexão e criação. Sempre que encontro tempo para me recolher e escutar o mundo que me rodeia, as palavras acabam por ganhar voz e transformam-se, naturalmente, em poemas ou textos em prosa. Mais do que conciliar estas duas dimensões, sinto que elas se completam: ensino porque acredito no poder transformador da palavra e escrevo porque encontro nela a forma mais profunda de compreender, preservar e partilhar a experiência humana.

A recente menção honrosa internacional e a escolha de um dos seus haikus como finalista representam que importância no seu percurso?

Receber, em junho de 2026, uma menção honrosa no XXII Concurso Literário – Poesias Sem Fronteiras, com o poema inédito «Saber viver/Ser em nós» — iniciativa internacional organizada pelo escritor brasileiro Marcelo de Oliveira Souza —, e, no mês seguinte, ver o meu haiku «Amanecer del Alma» ser distinguido como finalista no Concurso Internacional de Minipoemas, Senryus y Haikus, promovido pelas Ediciones Caleidoscopio, constituiu um momento de grande alegria e significado no meu percurso literário.

Que significado atribui a este tipo de reconhecimento?

Estas distinções representam muito mais do que um prémio. São um reconhecimento do valor da minha escrita por júris e leitores que não me conhecem pessoalmente e que avaliam apenas a força e a qualidade dos textos. Isso dá-me confiança para continuar a escrever e a acreditar que a poesia tem a capacidade de tocar pessoas para lá de qualquer fronteira.

Sente que hoje é mais fácil divulgar o trabalho literário do que há uns anos?

Escrevo desde criança e a literatura sempre fez parte da minha vida. Contudo, a dedicação à docência e aos projetos educativos ocupou, durante muitos anos, um lugar central, deixando menos tempo para divulgar o meu trabalho literário. Hoje, as redes sociais e os meios digitais permitem que os textos cheguem a um público muito mais vasto, criando novas oportunidades de partilha e de encontro entre autores e leitores.

Que estímulo lhe trazem estas conquistas para continuar a escrever?

Estas conquistas internacionais aquecem-me o coração e renovam a responsabilidade de continuar a escrever com autenticidade, procurando que cada poema seja um espaço de emoção, reflexão e beleza. São, acima de tudo, um incentivo para prosseguir este caminho, consciente de que a literatura continua a ser uma forma privilegiada de comunicar com o mundo e de criar pontes entre diferentes culturas e sensibilidades.

Além da poesia, escreve para o público infantojuvenil. O que procura despertar nos leitores dessas obras?

Acredito profundamente que a literatura tem o poder de educar, sensibilizar e transformar. Nos meus livros infantojuvenis procuro aliar a aventura, a imaginação e o prazer da leitura a valores educativos e cívicos. Cada história pretende contribuir para a formação de crianças e jovens mais conscientes, mais solidários e mais atentos ao mundo que os rodeia, porque acredito que os livros ajudam a formar cidadãos e cidadãs capazes de construir uma sociedade mais humana e mais justa.

E nas oficinas de escrita criativa que dinamiza, qual o principal objetivo?

Nas oficinas e formações de escrita criativa, o meu principal objetivo é despertar o gosto pela escrita e mostrar que escrever é uma competência que pode ser desenvolvida através de técnicas, da leitura e da prática. Procuro fornecer ferramentas que permitam aos participantes aperfeiçoar a sua expressão escrita nos mais diversos géneros literários, mas também criar um espaço de partilha, criatividade e liberdade.

Que retorno tem recebido dos participantes dessas oficinas?

Há um aspeto que considero particularmente gratificante. Muitos participantes partilham comigo que determinados exercícios de escrita os ajudaram a organizar pensamentos, a expressar emoções que tinham dificuldade em verbalizar e a olhar para algumas experiências de vida sob uma nova perspetiva. A escrita pode ter um efeito profundamente terapêutico, porque oferece um espaço seguro de reflexão, favorece o autoconhecimento e permite transformar emoções em palavras, sem julgamentos.

Em suma, o que procura despertar em quem lê ou participa nestas iniciativas?

No fundo, quer escreva poesia, literatura infantojuvenil ou dinamize oficinas de escrita criativa, procuro sempre despertar nos leitores e participantes o prazer de ler, a confiança para escrever e a convicção de que as palavras têm o poder de criar conhecimento, aproximar pessoas e transformar vidas.

«Poemas da Terra e da Alma»

Isabel Montes

Editora: Grant de Vasconcelos 

PVP: 9,90 euros

Uma resposta

  1. Parabéns, colega Isabel Montes ! É um orgulho ver o teu talento, a tua sensibilidade e o teu amor pela escrita reconhecidos além-fronteiras. Quem dedicou tanto da vida à educação continua agora, através das palavras, a ensinar, a inspirar e a tocar corações. Que venham muitas mais conquistas!

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