No discurso que proferiu após a imposição das insígnias doutorais, a artista lançou um aviso sobre os perigos das inteligências artificiais generativas e defendeu a insubstituibilidade da pedagogia viva, enquanto o Reitor António Candeias e a professora Ana Telles celebraram a dimensão humana e ética de uma carreira com mais de sete décadas.
Nascida em Lisboa em 1944 e considerada uma das mais notáveis pianistas da sua geração, Maria João Pires centrou o seu discurso na relação entre o corpo, a música e a transmissão do conhecimento. «A partitura é apenas informação potenciada. Só a energia física, emocional, temporal e interpretativa do músico a transformam em experiência viva», afirmou, sublinhando que essa energia «deveria ser cultivada, alimentada e, sobretudo, guiada, gerida».
A pianista defendeu com veemência o papel das instituições de ensino. «Ensinar e ser ensinado, aprender e transmitir é, sem dúvida, uma das experiências humanas mais ricas que nos é dado viver», disse, alertando que tentar substituí-las por meios técnicos seria «a destruição combativa da escola, da universidade, da pedagogia viva e da transmissão, no seu sentido mais profundo». Para Maria João Pires, «a imaginação, a procura e a descoberta em campo aberto são fenómenos da pedagogia não só insubstituíveis, mas geradores de todas as grandes obras da humanidade».
Foi, porém, o alerta sobre a inteligência artificial que mais marcou a intervenção. A artista chamou a atenção para «o crescimento das inteligências artificiais generativas e os enormes interesses económicos que os acompanham», manifestando preocupação com «o risco que a concentração de poder tecnológico e económico venha a enfraquecer princípios fundamentais das democracias, a liberdade de expressão, a diversidade de pensamento e o direito à escolha».
E acrescentou que está também em causa «o direito de cada indivíduo a desenvolver e afirmar o próprio talento, sem condicionamento e sem formatação», reconhecendo que «na realidade, é algo que já está a acontecer».
Nesse sentido, disse observar que a influência tecnológica «começa também a manifestar-se na forma como muitos aspirantes artistas se afastam com uma rapidez preocupante da realidade profunda da criação, da verdade e da dignidade». Mas clarificou que a sua posição não é de recusa: «Não se trata de recusar a tecnologia nem do seu avanço. Trata-se de não abdicar da consciência, a presença consciente de dar-nos a possibilidade de continuar a desenvolver tecnologia de formas mais positivas».
Ao encerrar o seu discurso, Maria João Pires agradeceu a distinção e assumiu-a como um compromisso: «Recebo esta distinção não apenas como um reconhecimento do percurso realizado, mas também como uma responsabilidade perante a cultura, o pensamento e a consciência humana».
António Candeias abriu a cerimónia enquadrando o significado do título. Ao conferir o Doutoramento Honoris Causa a Maria João Pires, a UÉ «presta homenagem não apenas a uma das maiores pianistas do nosso tempo, mas a uma personalidade que transformou a música numa forma rara de escuta, de exigência, de humanidade e de responsabilidade», afirmou o novo reitor da Universidade.
Candeias destacou a coerência que atravessa toda a carreira da pianista: «O que verdadeiramente impressiona é a coerência humana da sua relação com a música. Porque Maria João Pires nunca separou a excelência artística da responsabilidade ética.» Foi precisamente essa coerência que a universidade quis reconhecer, porque «uma universidade deve saber distinguir não apenas o talento, mas a forma como esse talento é colocado ao serviço dos outros».
O reitor evocou também os projetos pedagógicos e comunitários da pianista para reforçar a afinidade de valores com a instituição. «Ao longo dos anos, Maria João Pires insistiu numa ideia profundamente importante para o nosso tempo: a de que a educação artística não pode ser um luxo reservado a alguns. A música, a arte, a cultura não são um adorno. Não podem ser um privilégio social. São uma forma de construção humana, de relação».
No discurso apelou ainda a uma visão de universidade que «forme pessoas inteiras e íntegras – capazes de pensar criticamente, de dialogar com quem não pensa como nós, de criar e de assumir responsabilidade perante os outros». E concluiu com uma nota dirigida aos estudantes: «O futuro não se constrói apenas com tecnologia e eficiência. O futuro precisa de sensibilidade, de imaginação, de memória. Enfim, de cultura».



Ana Telles: uma arte «fundamentalmente livre»
A Laudatio coube a Ana Telles, professora do Departamento de Música da Escola de Artes da UÉ e ela própria pianista. Numa intervenção de tom pessoal, Ana Telles começou por confessar que as interpretações de Maria João Pires «contribuíram em muito para que o piano viesse a tornar-se o meio mais eficaz de que disponho para comunicar comigo mesma e com o mundo que me rodeia».
A professora sublinhou o modo como a artista contestou discretamente os formatos estabelecidos: dá aulas a amadores quando se espera que receba apenas virtuosos; ensina à distância quando se acredita ser impossível; recusa masterclasses e propõe em vez disso «encontros de troca de conhecimentos». Tudo isso, incluindo sessões realizadas na própria Universidade de Évora.
Para Ana Telles, a arte de Maria João Pires é «verdadeira como só a mais aprofundada busca interior poderia gerar; depurada, como só a profundidade da reflexão de uma vida lograria alcançar; despojada, como a sua desarmante simplicidade». E, acima de tudo, «fundamentalmente livre, como a Maria João tem sido, ao piano e na vida».
A cerimónia contou com momentos musicais da Escola de Artes e do Coro da Universidade de Évora, e encerrou com uma sessão de cumprimentos no Claustro Maior, com a presença de inúmeras individualidades nacionais e regionais, estudantes e admiradores da homenageada.












