João da Silva sobreviveu a três cancros: «convido-o a sair sem declarar guerra»

Não é, mas podia ser. João da Silva não quer ser herói, mas é fascinante no que escreve e diz, numa história de vida que nos coloca de frente para o cancro. Ele encarou-o três vezes, e continua a vê-lo com nobreza, sem belicismos ou revoltas inconsequentes. A sua experiência acumulada tem muito para nos ensinar, a sua história traz a motivação da superação, mas é a naturalidade do que diz e pensa que mais nos apaixona.

Carlos Leitão (texto)

Olhar o cancro de frente e lidar com ele sem a presunção da vitória. Racional, é assim que João da Silva encara a patologia que, aos 51 anos, já o visitou três vezes. A experiência de hospitais, tratamentos, desilusões e recuperações confere-lhe sabedoria para a pergunta «Porque não eu?» em lugar da clássica «Porquê eu?».

João foi jornalista durante 22 anos; com os problemas de saúde, a escrita de livros, as crónicas no Público e as palestras ocuparam um espaço maior nos seus dias. Como se encara tudo isto? «Uma muito íntima que ninguém conhece, onde guardo os infernos mais terríveis que vivi. Ninguém merece conhecer esses lugares, é algo que nunca esqueço; o cancro marcou a minha vida de forma definitiva, embora não passe os dias a pensar nisso. Depois, há a forma pública, profissional, embora mantendo a genuinidade e honestidade, onde partilho algumas das coisas que vivi e os ensinamentos que recolhi. Em resumo, encaro a doença com respeito de quem a teve e sofreu com ela, e de quem acha que não venceu rigorosamente nada. Tenho medo que se repita. Não vivo amedrontado com isso, mas é algo presente».

Não faz sentido tratar o cancro com a repugnância de um invasor, mas antes como algo que faz, fez ou fará parte do organismo, logo temos de aprender a olhá-lo com a seriedade de um adversário, não tanto de um inimigo: «Lidar. Aceitar a condição e gerir. Olho para o cancro como algo que não correu bem dentro do meu corpo, ninguém o colocou lá, foi gerado dentro de mim, é meu. Por isso, prefiro levar as coisas de forma mais diplomática, convidando-o a sair sem declarar guerra. E isso passa por conhecimento da doença, colaboração com o tratamento e escuta; ouvir o corpo, ouvir os médicos, ajustar a vida ao que é possível em cada fase, de forma realista e sem querer controlar, porque na verdade controlamos muito pouco».

João da Silva transformou a aprendizagem em livros e palestras, mas a ideia não é ser guru ou ‘coacher’, nada disso, o objetivo é bem mais nobre: «Sinto-o como uma missão. O cancro apareceu-me aos 31 anos, com um filho de um ano e meio, e a quantidade de vezes que vivi é incomum. Não é habitual alguém passar por uma doença oncológica e duas recidivas em três anos, realizar dois autotransplantes de medula e, depois disso, já aos 40 anos, fazer hemodiálise durante um ano e meio e um transplante renal». 

Não é uma história normal, e as pessoas olham para o João que conhecem dos livros e das palestras com respeito, admiração e como um símbolo de esperança: «A esperança de que os seus sobrevivam se tiverem de lidar com o cancro e de que elas próprias sobrevivam se tiverem de lidar com o cancro». Falar-se do problema com racionalidade é, então, primordial: «Tenho o cuidado de falar do fator sorte e de explicar que não sou um herói: limitei-me a tentar fazer a minha vida enquanto estava doente e tive a sorte de sobreviver. Hoje tenho 51 anos e sinto-me como se tivesse 35. Acho que muita gente se esquece de viver quando está doente e também se esquece de viver quando não está doente».

Livros ou palestras: são públicos diferentes? «O ‘feedback’ dos livros é mais profundo, resulta da interpretação da minha história de vida e dos respetivos ensinamentos ao longo de dias ou semanas, dependendo do tempo que a pessoa demora a ler. Cria-se uma relação. A pessoa fala como se me conhecesse, e, de certa forma, conhece. Aí aprendo muito sobre como os meus raciocínios tocam nas pessoas. Nas palestras, é tudo muito mais espontâneo: as pessoas ouvem uma história contada na primeira pessoa, por um tipo sorridente a falar de coisas muito duras. Ficam maravilhadas e chocadas, mas a lição é a mesma dos livros. Os abraços frequentes no fim das palestras mostram-me como há por aí muita gente perdida».

As origens de João da Silva moram no Alentejo, e não é difícil explicar que ensinamentos desta terra bendita casam com a forma simples com que se encara a vida e todas as suas vicissitudes: «As pessoas com quem privei e privo nas Alcáçovas são calmas, e gente boa, honesta e fiel. É gente que gosta de fazer as coisas no seu tempo, conversar com calma, apreciar o silêncio e os tempos mortos, vivendo o tempo que está a viver, sem prejudicar ninguém. Isto, pelo menos, é a referência que tenho do meu pai e de familiares e conhecidos alentejanos. É o Alentejo que conheço».

A história começou em gaiato, e João fala-nos dela com carinho: «O Alentejo está-me no sangue e em termos gastronómicos é a minha maior referência. Os meus pais mantêm uma pequena fazenda no Alentejo e isso consolida tudo: há um lugar físico que é casa, mas é mais do que isso, o Alentejo é casa, nunca me sinto deslocado. Recentemente voltei a percorrer a região e a conhecer cidades onde nunca tinha estado, e essa ligação aprofundou-se. Nasci em Cascais, mas não tenho com Cascais essa relação. Para mim, ‘terra’ é o Alentejo. Não há estradas como as do Alentejo. Para quem gosta de pensar na vida enquanto conduz, é algo que recomendo quando me procuram com dúvidas existenciais — pega no carro e percorre o Alentejo».

A família é, pois, um muro de suporte, mas há caminhos que se fazem sozinhos: «Lidar com o cancro a meio de um divórcio, perante a perda de um ente querido ou sem dinheiro para dar de comer aos filhos são realidades que existem e considero-me um felizardo por ter tido tudo isso. Todavia, mesmo com uma família que acompanha e apoia, e por muitos e bons amigos que se tenha, o cancro está dentro de um indivíduo e é ele, em última instância, que tem de lidar com isso. Ninguém pode ir caminhar ou comer por ele nos dias em que a vontade ou a força não existem». 

As memórias têm papel importante na construção dos tais muros de suporte: «Conheci o meu avô paterno, cuja calma, paciência e interesse pelas minhas coisas me marcam até hoje. Essa memória cola-me às Alcáçovas e ao Alentejo. Vivo em São Domingos de Rana, mas o pão que como diariamente é alentejano, as ervas aromáticas de eleição são o orégão e o poejo, o bolo de mel que a minha mãe faz segundo uma receita alentejana é o meu preferido. Quando tinha 13 anos, passei uma semana num monte em Viana do Alentejo a guardar vacas com um primo um pouco mais velho do que eu. Saíamos de manhã e voltávamos ao fim da tarde. Aprendi muito sobre como o lugar onde nascemos pode definir o que somos, sobre o silêncio e sobre a arte de preencher o tempo com observação».

Que João da Silva é este aos 51 anos? «Uso uma frase que escrevi recentemente numa crónica: um ser inconstante, às vezes ridículo, às vezes inteiro, sempre inacabado. Ando a fazer uma série de coisas — cuidar de mim e dos meus, trabalhar, ler, falar para gente que quer ouvir. Não tenho uma definição fechada para dar, mas sinto-me bem neste inacabado. Estou a trabalhar num novo livro e escrevo crónicas, esses futuros vão acontecendo. No capítulo da motivação, tenho algumas palestras agendadas até ao final do ano e um projeto um bocado maluco, ainda em segredo, que vou desvendar e realizar daqui a alguns meses».

Feitas as contas à meia-idade, é fácil ressalvar o que realmente conta neste percurso: «Adormecer rápido e em paz, comigo e com os outros, e acordar leve e em paz, comigo e com os outros». Afinal não anda longe das tantas definições de Alentejo, às quais João da Silva acrescenta: «pão, pai, amor, casa, paz».

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