Como surgiu a Apormor?
A ideia começou em 1987/88 na sequência do fim da Reforma Agrária, quando começou a haver um forte entusiasmo dos proprietários que recuperaram as terras motivados pelos estímulos que surgiram com a entra- da na antiga CEE em 1986. A Apormor nasceu em 11 de julho de 1990 como uma associação de produtores de ovinos, porque as ovelhas foram as primeiras a terem ajudas ligadas… tudo isto contribuiu para um grande entusiasmo dos produtores de ovinos em terem uma organização que enquadrasse a sua atividade. Um ano depois houve uma alteração estatutária para enquadrar também a produção de bovinos e de caprinos e, aí, passou a ser uma associação de produtores de ovinos, bovinos e caprinos. Em 2019 fizemos uma nova alteração estatutária para passar o nome para Associação de Produtores do Mundo Rural da Região de Montemor-o-Novo onde todas as atividades relacionadas com o campo se ligam e interagem e creio que é desta forma, mais holística, que devemos olhar para o mundo rural.
Quais são os serviços prestados aos seus associados?
O serviço mais importante é proporcionar o escoamento dos seus produtos animais ao melhor preço através do leilão. Fazemos também as candidaturas às ajudas da Política Agrícola Comum (PAC), e os licenciamentos agrícolas. Prestamos todo o tipo de serviços que um produtor pecuário necessita na sua exploração. Temos agora um serviço, em parceria com a Universidade de Évora, que consiste em prestar assistência técnica à medida “Gestão do Montado por Resultados”, uma nova ajuda do quadro comunitário que está em vigor. Contratámos dois técnicos para assistirem no campo a esta medida.
Um ecossistema importante?
Os montados precisam de ser recuperados porque a sua gestão foi mal feita, principalmente a partir da Reforma Agrária, quando deixaram de existir regras que não estavam escritas, mas que eram cumpridas por todos os envolvidos no negócio do montado. Por exemplo, não havia o sobre-pastoreio e as podas eram feitas por gente especializada. Só subia para uma árvore o trabalhador no qual o proprietário tinha confiança de que sabia fazer um bom trabalho, até porque o negócio das lenhas era feito pelos proprietários. Isto é muito diferente de contratar equipas que levam a lenha em troca do serviço, pois isso conduz a que as pessoas queiram podar o máximo para terem mais lenha e não apenas o que a árvore precisa. O pastoreio excessivo dos bovinos foi um dos grandes males dos nossos montados. Recordo-me do tempo em que era criança, no monte onde morava, os proprietários só permitirem que os bovinos entrassem no montado em abril, maio e junho quando havia muita erva no campo e as vacas não atacavam o renovo.
Isso quer dizer que os bovinos não destroem o montado se o pastorearem durante a primavera?
Os bovinos podem andar no montadomediante uma gestão adequada que implica entrarem num determinado período, porque podem prejudicar noutras alturas. O montado é, segundo o Dr. António Barreto, a maior riqueza do Alentejo. É um facto que há outras áreas agrícolas de alto rendimento que se foram implementando, sobretudo devido à grande obra do Alqueva, mas sabemos que quando se produz muito mais do que aquilo que se consome as explorações sofrem um retrocesso na sua rentabilidade. O montado que foi conduzido, ao longo de séculos, pelo homem é um ecossistema que só não foi de alto rendimento ao longo dos últimos 20 anos porque a produção pecuária e os sistemas forrageiros extensivosforam muito mal vistos em Bruxelas e em Portugal. Até se dizia que os bovinos e os ovinos eram os causadores das alterações climáticas, pois ao darem um arroto emitiam metano para a atmosfera, um gás com efeito de estufa muito responsável pelo aquecimento global. Ora, sabemos que os incêndios que tivemos nos últimos anos vêm trazer opiniões que antes não eram ouvidas, alertando para a importância dos animais no pastoreio extensivo como uma das soluções para evitar que a floresta arda todos os anos e, ciclicamente, a cada quatro anos. Os finos que estãono subcoberto da floresta têm de ser consumidos e a melhor máquina para os cortar e reaproveitar é o animal do pastoreio.
Em relação à Apormor, houve um aumento significativo de sócios. Passou de 110, em 2008, para 351. Isto é um sinal de que o associativismo está a vingar?
Existe aquela regra básica que todos conhecemos: “Juntos somos mais fortes”. Mas, em Portugal, tem sido difícil o associativismo vingar. Aliás, a agricultura em Portugal esteve sempre muito dependente do Estado. Só no final do século XIX é que se começou a produzir trigo e o Estado pagava uma ajuda à produção. Isso teve altos e baixos, mas o que é certo é que os agricultores viviam sempre sob a dependência do Estado. Antes do 25 de Abril, a Junta Nacional de Produtores Pecuários garantia um preço. Era lá que se entregavam os produtos, os borregos, os bovinos quando deixaram de servir de animais de trabalho, após a mecanização agrícola. Também existia a Junta Nacional de Produtores de Trigo, onde o cereal era entregue a um preço fixo. Como se o Estado fosse uma grande cooperativa que estipulava os preços. Os agricultores, por força destas circunstâncias, viveram sempre à sombra do Estado e creio que esta é uma das causas para o associativismo custar a vingar em Portugal.
Mas a Apormor é um dos casos de sucesso?
Sim, a Apormor nasceu quando as terras foram entregues aos proprietários e no período das ajudas comunitárias que até 1992 tinham como objetivo incentivar a produção. A partir de 1992 para gerir os excedentes, entretanto gerados, a PAC pagava ao agricultor para não produzir. Quem não se recorda do “giracídio” que era uma maneira de incentivar o agricultor a deixar de produzir aquilo que estava habituado a fazer? Depois, em 1996, veio a história das vacas loucas, outra situação que não favoreceu o associativismo. Se não fossem as candidaturas para a ajuda da PAC os agricultores não sentiam qualquer necessidade em estarem associados numa organização que os defendesse. Esta situação prolongou-se até 2013/2014 quando a reforma da PAC foi revista e começou novamente a fomentar-se a produção. Até aqui, bastava uma vaca ter parido uma vez na vida e o subsídio era pago e, a partir de 2014, começou a exigir-se que parisse num intervalo de 18 meses para ser elegível. Portanto, começaram a surgir alguns sinais de que o associativismo poderia voltar a ser uma mais-valia na vida dos produtores.
Já tinham perdido associados?
Em 2008 tínhamos 110 associados, quando no início da Associação tínhamos perto de 400. Foram-se perdendo porque as pessoas foram deixando de procurar a Apormor, pois não tinham necessidade de o fazer. Não era a produção de carne e a consequente venda que tinha interesse porque o preço estava muito baixo. A ajuda é que era importante e, nessa ótica, as associações não tinham grande valor acrescentado. Bastava preencher uma candidatura e esperar que a ajuda fosse paga.
Em 2014 houve uma mudança de paradigma. Começou a apoiar-se novamente a produção e o número de sócios aumentou?
A Apormor começou a crescer acentuadamente a partir de 2014 quando começou a dar estímulos aos produtores para se juntarem a nós. Começou por leilões de reprodutores em que se subvencionavam os associados para terem os melhores reprodutores que houvesse no mercado, no sentido de melhorar a genética. Isto teve um impacto enorme porque as genéticas mudaram e os animais que começa- ram a aparecer aqui no leilão eram os melhores quando comparados com os de outros leilões. A partir de certa altura a associação começou a ter rentabilidade. Isso permitiu-nos dar outros estímulos para as pessoas vi- rem associar-se, como, por exemplo, uma ajuda no valor do saneamento, que é um custo anual significativo num efetivo pecuário. Passámos a dar aos nossos associados uma ajuda por vaca aleitante e também para os ovinos. Mas isto sempre com uma contrapartida: venderem os animais no nosso leilão. São estímulos que visam combater a falta de espírito de associativismo. Temos 351 associados de momento, por isso acredito que estes incentivos estejam a dar resultado.
Quais são os requisitos para ser sócio da Apormor?
O único requisito para ser sócio é ter algum espírito associativo. Temos três categorias de sócios. Os ordinários, com direito de voto, que são produtores de bovinos, ovinos e caprinos. Depois temos os sócios extraordinários, que desenvolvem uma atividade económica fora da produção pecuária mais ligada à produção de vinhos, hortícolas, turismo rural e não têm direito de voto. E, ainda, temos os sócios amigos da Apormor que fazem uma vida mais urbana, mas gostam do nosso trabalho, vêm à nossa feira, partilham connosco o gosto da vida no campo e acham que é muito útil o que fazemos ao longo do ano no apoio a escolas, à equipa de rugby de Montemor-o-Novo. Podem vir às assembleias-gerais apresentar novas ideias e, quem sabe, um dia mais tarde, terem a sua própria exploração agropecuária.

Um produtor de gado que não seja sócio pode vender os animais no leilão da Apormor?
O leilão está aberto a qualquer criador de gado. Os sócios pagam 1,50 euros de taxa de leilão e os não sócios pagam 2,30 euros. Têm de fazer os tes- tes de pré-movimentação, sendo que para os animais poderem seguir para a Espanha têm de ter sido feitos 30 dias antes da movimentação. É aconselhável terem os animais preparados para serem vendidos a compradores espanhóis porque aumenta o universo dos compradores. O processo é muito simples. Basta ligar para a Apormor e levar os animais na véspera. O leilão de bovinos é semanal e, por isso, os animais entram na Apormor na segunda-feira e são leiloados no dia seguinte. As guias são dirigidas à associação e esta trata da documentação que dá garantia de pagamento ao fornecedor e garante o pagamento do comprador. Os compradores têm de ser credíveis e os animais só saem após o dinheiro estar na conta.
Considera que compensa criar bovinos de raças autóctones?
Isto tem tudo a ver com a questão do associativismo. Os técnicos da raça alentejana e da raça mertolenga queixam-se de que não fazem o melhor pela raça e pela sua rentabilidade. Penso que no norte do país as raças autóctones têm sido muito bem trabalhadas com a ajuda da PEC Nordeste, promotora da marca Carne da Montanha. Também porque lá as dificuldades têm sido maiores, uma vez que as explorações são de pequena dimensão. As pessoas têm uma certa idade e há ali uma necessidade de as manter no território. Aqui, no Alentejo, dormimos algum tempo à sombra da bananeira, a carne era barata, mas a ajuda era elevada. Agora, com a subida do preço da carne, as pessoas fazem os cruzamentos na expectativa de terem mais carne. Esta questão da diferenciação da carne por raças exige um trabalho muito mais intenso das associações de criadores. Sabemos que as raças autóctones cruzadas com as não autóctones aumentam muito a capacidade de produzir carne. Mas a linha pura também tem uma qualidade excelente e todo esse marketing tem de ser feito para que o consumidor valorize o produto.
O preço da carne duplicou face a 2022. A que se deve este aumento e em que medida pode contribuir para atrair pessoas para o sector?
Creio que isto aconteceu por duas razões. A redução dos efetivos na Europa, motivada pela falta de apoios com medidas contra a produção de carne e a favor do ambiente, e também com a abertura em 2013, pela então ministra da Agricultura, Assunção Cristas, dos mercados de Israel e do norte de África. Até essa data parecia que o circuito estava bloqueado, apenas dis- ponível para a grande distribuição que fixava os preços, ganhava o dinheiro que entendia e o produtor era sempre aquele que ficava pior. Neste primeiro semestre já foram comercializados cerca de 22.500 animais, mais 3.300 que no mesmo período do ano passado. É aqui que estão os animais top.
E o preço mais elevado.
A carne agora atingiu um preço que talvez comece a chamar os mais jovens para este sector. Tenho esperança de que exista um aumento da rentabilidade das explorações agrosilvopastoris e que isso atraia pessoas para o sector. Uma exploração diversificada onde se produz carne e, por outro lado, se tenha rentabilidade da parte florestal pode ser atraente. Costumo dizer que há cursos que se tiram na universidade que são muito específicos. A agricultura consegue absorvê-los. Para nós, uma formação superior é uma ferramenta de uso geral. As pessoas podem vir se tiverem rentabilidade. Creio que uma vida ao ar livre pode ser melhor que estar fechado num gabinete.











