Joaquim Varela do Nascimento: «O vinho alentejano é muito melhor do que a sua atual campanha de promoção»

O vinho do Alentejo é um luxo acessível com uma notoriedade consolidada mas, passada a efémera atenção que esta espécie pimba de publicidade sempre chama, tenho algum receio por futuros danos reputacionais na marca causados pela atual campanha.

Joaquim Varela do Nascimento, agricultor

Diz o slogan do presente anúncio aplicado ao vinho que um alentejano «cai sempre bem» e eu não resisto a perguntar: apesar de quê? É como os enfermos aos quais, apesar da moléstia, uma canja sempre cai bem? É como os fatos que também caem bem, apesar de certos corpos? No limite, será que este vinho cai sempre bem, apesar de alentejano?

Mesmo com esforço, alguém consegue imaginar uma campanha a apregoar que um Bordeaux cai sempre bem?

Para um certo diletantismo, a metáfora do alentejano pastor desta campanha é bem capaz de ser uma ajuda à simplificação a que o seu imaginário coletivo precisa de recorrer para se diferenciar de uma ruralidade que lhe é estranha. No entanto, devia ser evidente que, para ser promovido o vinho alentejano, ajuda pouco utilizar o deslumbramento com a tecnologia para caricaturar o meio milhão de habitantes que ainda por cá resistem.

Era um avião em dificuldades e o piloto foi distribuindo paraquedas pelos passageiros até não chegarem para si. Por fim, acabou também por se atirar do avião já em chamas e, a grande velocidade, foi passando em queda livre pelos paraquedas abertos, sendo um deles de um alentejano. Enquanto se livrava dos cabos que o levavam suspenso, diz-lhe o alentejano: «Ah tu queres corrida? Espera que já te apanho!».

Sei bem que o nosso sentido de humor aqui no Alentejo nos faz estar à vontade até quando nos rimos de nós próprios mas quem me diria que, passadas três décadas de ter ouvido esta anedota, veria reeditada a versão do alentejano «aéreo» a descer à Terra com estrondo?

Acontece que, desta vez, a piada é contada numa campanha publicitária estreada no início de junho e, nela, apesar de guiado por inteligência artificial, um míssil em forma de alentejano falha completamente o sentido do alvo num quadro de total ausência de racional estratégico na mensagem. Observando o anúncio, com muito boa vontade, podemos até imaginar que, desde o Olimpo, os Deuses nos enviam, com estrépito, um dos seus néctares. Podemos também vislumbrar uma tentativa de ligação do vinho ao peixe do rio e às carnes do nosso gado. Embora o epílogo seja à mesa, a coisa acaba por resultar mal-amanhada com um modesto «cai sempre bem» que fica a anos-luz do grande potencial do produto.

Já aconteceu um senhor ministro ter que se demitir por causa do extremo mau gosto de uma sua piada acerca de alumínio e morte de alentejanos e eu não desconheço que o oportunismo pode vender. No entanto, numa altura em que, por ação de mísseis que não estarão a «cair mal», também há gente a morrer no Médio Oriente e na Ucrânia, é obsceno, atentatório da nossa dignidade e, assim, completamente inadequado colocar a «cair bem» um alentejano com o seu pacífico cajado fazendo de míssil para, com essa piadola, promover seja lá o que for.

Depois, calçarem-lhe umas galochas num cenário de pasto seco é só amadorismo, abuso do estereótipo ou quererá significar que nas latitudes de onde há alentejanos a ser «disparados» está agora a entrar o inverno?! Não ignoro que a linguagem atual se vem caracterizando pelo abuso da literalidade mas utilizar uma versão datada de alentejano só porque a sua rusticidade o ajuda a «cair bem» o mais certo é tratar-se apenas de publicidade parva a fazer-se notar apenas pelo evidente despropósito.

O vinho alentejano assegura mais de 21 mil postos de trabalho e gera quase 1,5 mil milhões de euros para a economia portuguesa com mais de um terço dos seus produtores a verem certificadas as suas práticas como sustentáveis. Com o nosso inegociável caráter, nesta terra e debaixo deste sol, somos nós quem lhe confere a identidade e, quando o damos a beber depois de lhe ser retirada a rolha de cortiça que também é nossa, é a paisagem alentejana física mas também a humana que vão em cada garrafa.

Por isso, quem se der ao trabalho de observar com cuidado o seu conteúdo ao prová-lo, há já bastante tempo que, vendo autenticidade e tradição, não poderá ignorar a modernidade dos nossos vinhos. Há já uns anos o meu pai foi à inauguração da nova adega de um seu amigo aqui no Alentejo. Contou-me depois que acorreram à cerimónia o então ministro da Agricultura e outras luminárias de luz mais difusa que foram proferindo discursos de circunstância acerca da importância da viticultura, mais o interior, o desenvolvimento e etc.

No fim, o anfitrião tomou a palavra para agradecer às autoridades e imprensa que se tinham dignado comparecer à cerimónia e, dirigindo-se aos seus inúmeros amigos presentes, disse apenas: «Bem sei que isto hoje está aqui muita gente de fora, mas não se preocupem porque só será para vender o vinho que nós não conseguirmos beber».

Para um vinho ser mais comercial deve isso acontecer por conta de se tornar menos de terroir? Os vinhos do Alentejo conseguiram posicionar-se como vinhos sérios, vinhos de verdade e, em muitos casos, mesmo vinhos com classe e eu tenho grandes dúvidas que os custos para este património de credibilidade sejam menores do que os benefícios derivados de um suposto alargamento do seu mercado se ele for conseguido com recurso a uma narrativa desajustada e incoerente com aquela imagem de marca.

Seja porque confunde ao desalinhar os valores percebidos, seja pela sua mensagem básica e pouco ambiciosa. Se a consciência conseguir ser prévia a inteligências como aquelas que produziram e aprovaram a presente campanha publicitária, talvez com aquele exemplo da inauguração da adega a agência Wengorovius & Bidarra e o senhor Presidente da Comissão Vitivinícola da nossa região possam descortinar algumas pistas que os ajudem a entender como devem ser comunicados o Alentejo e os seus produtos.

2 Responses

  1. «Um Alentejano cai sempre bem» é o que se espera que seja dito, quando um grupo de amigos tem que escolher um vinho num restaurante.
    «Um alentejano cai sempre bem», é o pedido de uma qualquer pessoa a outra, que tem que ir ao supermercado fazer compras, e entre elas, vinho.
    «Um alentejano cai sempre bem», é o que um qq diretor de compras, quando tem que decidir que vinhos adquirir, para as ofertas de Natal da sua empresa.
    «Um alentejano cai sempre bem» é o que 40% dos portugueses dizem todos os anos, ao elegerem os Vinhos do Alentejo como os preferidos para consumirem no seu dia-a-dia….

  2. Uma canjinha cai sempre bem também é o que se diz a um familiar acamado e eu não disse que o vinho alentejano cai mal.
    Mas se o vinho cai bem, já o alentejano não prescinde nunca de se levantar ainda melhor sempre que é preciso defender a sua própria dignidade.

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