Jorge Araújo: «A ciência ao serviço da sustentabilidade agrícola»

A adoção de certificações e selos de boas práticas, sobretudo por grandes empresas orientadas para os mercados internacionais, tem vindo a elevar os padrões de exigência e, de forma indireta, a pressionar todo o setor do regadio a evoluir.

Jorge Araújo, professor emérito da Universidade de Évora

O filet mignon dos solos corresponde àqueles que equilibram fertilidade, disponibilidade de água, boa estrutura e intensa atividade biológica. No Alentejo, porém, isso é quase uma miragem. As exceções são raras: predominam solos pouco profundos, pobres em matéria orgânica e com fraca capacidade de retenção de água.

Foi nesse contexto que, durante séculos, se cultivaram cereais adaptados a climas quentes e secos, desde que dispusessem de água para a germinação no inverno e de alguma humidade durante a floração e o enchimento do grão. Os romanos intensificaram, organizaram e desenvolveram a produção cerealífera — era necessário alimentar o Império — e Ebora tornou-se uma das suas «joias da coroa». Ao mesmo tempo, construíram barragens, promovendo assim a colonização do território.

Durante o período de Al-Andalus, o regadio conheceu um importante desenvolvimento. Os muçulmanos introduziram a nora, aperfeiçoaram os poços, construíram açudes e criaram redes de canais que tornaram possível cultivar em zonas muito secas. O regadio permitiu uma agricultura mais diversificada e produtiva, incluindo citrinos, arroz, hortícolas, amendoeiras, figueiras e oliveiras melhoradas. Ainda assim, a agricultura de sequeiro manteve-se dominante.

A partir de meados do século XX, começaram a surgir grandes barragens, como Vale do Gaio e Montargil. Já no século XXI, o empreendimento de Alqueva contribuiu decisivamente para a generalização da agricultura de regadio no Alentejo. Para muitos, perdeu-se a imagem idílica das grandes searas douradas ondulando ao vento — uma imagem que, importa reconhecer, frequentemente ocultava um modelo de latifúndio marcado pela forte concentração de riqueza e pela desigualdade social.

A transição para o regadio fez-se, inicialmente, com alguma indefinição. A água — fator de produção decisivo — passou a estar disponível graças a investimentos avultados e, por isso, chega ao agricultor a um custo que condiciona as opções agroindustriais. Gradualmente, o dourado das searas foi sendo substituído pelo verde do olival e do amendoal intensivos, culturas de regadio mais rentáveis no longo prazo. A vinha expandiu-se e integrou a nova paisagem agrícola. Já o tomate para indústria perdeu relevância, incapaz de competir no mercado global.

Esta mudança de paradigma paisagístico suscitou críticas, que encontraram um forte aliado na insuficiente sensibilidade ambiental de alguns produtores. Contudo, a ciência tem vindo a oferecer respostas relevantes. O MED — Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, da Universidade de Évora — tem desempenhado um papel importante na promoção de uma agricultura baseada na precisão: aplicar exatamente o necessário, no local certo e no momento adequado, quer em água quer em químicos, com base em monitorização, observação remota por satélite e decisão assessorada por inteligência artificial. Este enfoque contribui para uma agricultura mais eficiente, mais económica e mais sustentável.

A adoção de certificações e selos de boas práticas, sobretudo por grandes empresas orientadas para os mercados internacionais, tem vindo a elevar os padrões de exigência e, de forma indireta, a pressionar todo o setor do regadio a evoluir. O Alentejo tem Universidade e o futuro aponta para a agricultura sustentável.

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