Jorge Araújo: «Academia do Sul»

A Academia do Sul seria um projeto de cooperação estratégica entre instituições de ensino superior e de ciência, capaz de potenciar sinergias, aumentar a competitividade internacional e servir melhor o desenvolvimento das regiões.

Esta crónica foi inspirada pelo editorial de Luís Godinho, publicado na edição de junho desta revista. Um texto que aplaudo e que despertou a memória do período em que exerci funções de reitor da Universidade de Évora (UE). Em 2006, a UE tomou a iniciativa de propor a criação de uma estrutura permanente de cooperação entre as instituições de ensino superior, de investigação científica e de desenvolvimento tecnológico do Sul do país, sob a designação de Academia do Sul.

Na configuração então prevista, a Academia do Sul integraria as Universidades de Évora e do Algarve, os Institutos Politécnicos de Portalegre e de Beja, bem como diversas unidades de investigação autónomas, designadamente a Fundação Cidade de Ammaia (Marvão), o Centro de Biotecnologia Agrícola e Agro-Alimentar do Alentejo (Beja) — e o Campo Arqueológico de Mértola.

Se o projeto fosse hoje retomado, faria sentido alargar o seu âmbito a outras entidades entretanto criadas ou reforçadas. Entre elas destacaria o Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia (PACT), a Escola Superior de Biociências de Elvas e o Laboratório de Ciências do Mar da Universidade de Évora, sediado em Sines. Poder-se-ia igualmente ponderar a adesão do Instituto Politécnico de Setúbal, reforçando a dimensão e a massa crítica da iniciativa.

A Academia do Sul seria um projeto de cooperação estratégica entre instituições de ensino superior e de ciência, capaz de potenciar sinergias, aumentar a competitividade internacional e servir melhor o desenvolvimento das regiões. Entre os seus objetivos contavam-se a oferta conjunta de cursos, a criação de programas doutorais partilhados, a simplificação da mobilidade de estudantes e docentes, o desenvolvimento de projetos científicos em parceria, a apresentação de candidaturas conjuntas a programas e a realização de aquisições partilhadas de bens e serviços.

A importância da conjugação de saberes e de competências torna-se ainda mais evidente perante desafios estratégicos como a agricultura sustentável, a valorização da economia do mar, o estudo e preservação do património arqueológico e histórico, a inovação nas ciências da saúde, a transição energética ou a transformação digital. Nenhuma destas áreas conhece fronteiras institucionais; todas exigem cooperação.

Numa segunda fase, a Academia do Sul poderia mesmo adquirir uma dimensão transfronteiriça, envolvendo instituições da Andaluzia e da Extremadura espanhola. Essa possibilidade chegou, aliás, a ser discutida num encontro ibérico.

O projeto, porém, não chegou a concretizar-se. Pelo caminho, esbarrou nas habituais rivalidades sub-regionais, em receios de hegemonização por parte da UE e na insuficiência do apoio concedido pela tutela, sobretudo no plano da configuração legislativa da futura estrutura. Ainda assim, recordo que a própria designação «Academia do Sul» mereceu o apreço do então ministro da Ciência, Prof. Mariano Gago.

Conhecendo o presidente do IPPortalegre, Prof. Luís Loures, tendo seguido a eleição do novo presidente do IPBeja, Prof. Aldo Passarinho, e conhecendo bem o novo reitor da UE, Prof. António Candeias, permito-me acreditar que tenha chegado o tempo de voltarmos a acreditar que cooperar não é perder identidade, mas ganhar futuro. Se assim for, a Academia do Sul poderá deixar de ser uma (boa) ideia do passado para se tornar numa necessidade do presente.

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