
Corria o século II a.C. quando os romanos, já vitoriosos das Guerras Púnicas, tomaram posse de um povoado alcandorado no cimo de uma colina — então denominado Ebora —, habitado maioritariamente por lusitanos, embora sob influência céltica.
O local tinha valor estratégico, estimaram os novos senhores, não apenas por se situar num ponto elevado, mas também por se encontrar próximo das vias naturais de circulação entre o interior e o litoral. Praeterea — «além do mais» —, as terras ofereciam boas perspetivas para a cultura dos cereais, com os quais se fabricava o pão (panis), para a produção de azeite (oleum) e vinho (vinum), e para a pecuária. Os romanos bebiam vinho; o leite destinava-se sobretudo ao fabrico de queijo (caseus), muito apreciado, e de manteiga, utilizada como base de unguentos para cuidados corporais. O azeite, ao invés, era a gordura nobre.
Ou seja, Ebora oferecia o «pacote» clássico romano (panis, vinum, oleum, caseus) e distinguia-se ainda pela sua posição estratégica, consubstanciada na ligação a eixos viários através dos quais se podia organizar o escoamento dos produtos.
Roma valorizava as regiões autossuficientes e, com as suas produções, sustentava cidades, exércitos e a fiscalidade. Por tudo isto, Ebora encaixava perfeitamente no modelo económico romano. Em relativamente pouco tempo, a cidade ganhou relevância no Império, conquistou o estatuto de município romano e o nome honorífico imperial Liberalitas Iulia Ebora, tendo sido ainda escolhida para acolher um templo de 26 colunas de capitéis coríntios, destinado a glorificar a gens de Júlio César. O cognome que lhe foi atribuído — Ebora Cerealis — é bem sintomático da importância agrícola e económica que Évora alcançou.
A romanização de Ebora processou-se por integração — e não por imposição — das elites indígenas, dando lugar a uma estratificação social encabeçada por uma aristocracia agrária. Sem rebuço, esta manifestou lealdade política ao Império e adotou os hábitos romanos, mormente a frequência dos banhos romanos (thermae ou balnea). Estes tinham uma função muito mais ampla do que a simples higiene: eram um pilar social, cultural e político da cidade romana. Neles se encontravam amigos, se firmavam negócios e se trocavam informações.
A história de Évora — não apenas romana, mas também muçulmana — encontra-se em grande parte enterrada. Trazê-la à luz é essencial para a incorporar no imaginário dos atuais habitantes e para valorizar culturalmente a cidade e a região. De parabéns está a Câmara Municipal de Évora pela decisão de musealizar o vasto complexo das termas romanas que jaz por debaixo do edifício dos Paços do Concelho, do qual o público conhece apenas uma pequena parte — o ‘laconicum’, a grande sala circular usada para banhos quentes e de vapor.
Trata-se de um bom exemplo, que deveria ser seguido por outras iniciativas destinadas a revelar as civilizações que, antes de nós, nos legaram o património de que hoje tanto nos orgulhamos.
Por que, afinal, Évora foi, desde o Império Romano, capital ao Sul?












