O dia da cidade é o momento em que a comunidade celebra aquilo que a distingue: a sua história, a sua cultura, o seu património e as suas tradições; em suma, a sua identidade. Atualmente, o dia de Évora celebra-se a 29 de junho, dia de S. Pedro, padroeiro da cidade. Mas terá sido sempre assim?
Tudo indica que, antes da implantação da República, Évora não possuía um dia da cidade formalmente instituído. O que mais se aproximava desse conceito era o dia de São João Batista, celebrado a 24 de junho e intimamente ligado à Feira de São João, cuja existência se encontra documentada desde a Idade Média.
O dia da cidade, enquanto feriado municipal e celebração cívica, foi instituído pela Câmara Municipal em 1911, já em pleno regime republicano. A data escolhida foi o 1.º de maio.
A escolha possuía um duplo significado: conciliava antigas tradições populares com os valores sociais e cívicos promovidos pela jovem República. Com efeito, o primeiro dia de maio ocupa, desde tempos remotos, um lugar especial no calendário europeu. Situa-se aproximadamente a meio caminho entre o equinócio da primavera e o solstício de verão, quando, nas regiões temperadas do hemisfério norte, a primavera atinge a sua plenitude: os dias alongam-se, as temperaturas tornam-se mais amenas, o risco de geadas diminui drasticamente, a vegetação floresce, os cereais crescem rapidamente e muitos animais entram no período de reprodução.
Durante milénios, sociedades essencialmente agrícolas e pastoris dependeram profundamente deste ciclo natural. Não surpreende, por isso, que maio se tenha afirmado como um tempo de esperança, renovação e fertilidade. Os povos celtas celebravam o Beltane, na noite de 30 de abril para 1 de maio, acendendo grandes fogueiras destinadas a proteger pessoas e rebanhos e a favorecer a fertilidade. Os romanos consagraram o mês à deusa Maia.
Também no Alentejo, e particularmente em Évora, sobreviveram diversas tradições. As «Maias», com a colocação de giesta nas portas das casas, constituíam um costume amplamente difundido. Poucas semanas depois, o ciclo festivo culminava com a Feira de São João, desde sempre associada ao calendário agrícola.
Entretanto, desde finais do século XIX, o 1.º de maio começara igualmente a afirmar-se como o Dia do Trabalhador, na sequência da decisão tomada pelo Congresso Operário Internacional de 1889. Em 1911, porém, esta data ainda não possuía a forte carga ideológica que adquiriria nas décadas seguintes.
A Câmara Municipal, presidida por Agostinho Felício Caeiro, médico e destacado republicano, procurou assim associar a tradição popular aos ideais que a República pretendia promover: valorização do trabalho, participação cívica, justiça social, educação e progresso. Évora integrava-se, deste modo, no novo calendário simbólico da República.
O 21 de agosto e as Alterações de Évora
Esta solução manteve-se durante alguns anos, mas acabaria por ser abandonada. Na década de 1940, o Estado Novo transformou a exaltação da história nacional num dos pilares da sua legitimação política. A Exposição do Mundo Português, realizada em 1940, constituiu a expressão máxima dessa estratégia, celebrando simultaneamente os 800 anos da fundação do reino e os 300 anos da Restauração da Independência.
Em Évora, a presidência da Câmara era exercida, no início de 1942, por Júlio Rodolfo Fernandes Potes, engenheiro agrónomo e grande proprietário rural. Em agosto desse mesmo ano foi substituído pelo jurista Miguel Rodrigues Bastos, figura mais diretamente ligada às estruturas políticas do regime. Uma das primeiras decisões do novo executivo consistiu em substituir o 1.º de maio pelo 21 de agosto como dia da cidade.
A decisão assentava em dois fundamentos.
Em primeiro lugar, o regime procurava afastar-se de uma data que, entretanto, se encontrava crescentemente associada ao movimento operário internacional e que o Estado Novo considerava politicamente incómoda.
Em segundo lugar, o 21 de agosto evocava um acontecimento profundamente ligado à história de Évora: as Alterações de Évora, desencadeadas em 1637 contra a política fiscal da monarquia hispânica, durante o reinado de Filipe III de Portugal. Muitos historiadores consideram hoje este movimento um importante antecedente da Restauração da Independência, em 1640.
Tudo indica que a Feira de São João desempenhou um papel relevante na preparação do movimento. Num tempo em que os mercados constituíam os principais espaços de encontro e circulação de notícias, é plausível admitir que ali se tenha difundido amplamente o conhecimento das novas imposições fiscais, favorecendo a indignação coletiva. A feira poderá, assim, ter funcionado como catalisador de um descontentamento que culminaria, semanas depois, na revolta.
Terminada a feira, no final de junho, seguiu-se um período de crescente tensão social. Em agosto, a revolta eclodiu em Évora e propagou-se rapidamente pelo Alentejo e pelo Algarve, sendo reprimida com grande violência.
O 21 de agosto reunia, assim, todas as condições para se afirmar como dia da cidade: evocava um acontecimento marcante da história local, possuía um evidente valor pedagógico e prestava-se à realização de cerimónias públicas de forte simbolismo patriótico. Parecia uma escolha definitiva. Mas não foi.
O recurso a São Pedro
Com o passar dos anos, o 21 de agosto começou a revelar algumas ambiguidades. Se, por um lado, evocava um episódio de resistência ao domínio filipino, por outro exaltava igualmente uma revolta popular como instrumento de transformação política. Ora, durante a década de 1950, o Estado Novo via qualquer referência à mobilização popular com manifesta desconfiança.
Entretanto, o Partido Comunista Português intensificava a organização clandestina, promovendo greves, protestos e ações de resistência. A imagem de multidões desafiando a autoridade tornava-se, por isso, particularmente incómoda para o regime.
Em 1952, foi publicada nova legislação sobre os feriados municipais, determinando que estes deveriam assentar em festas tradicionais genuinamente características de cada concelho.
A nova legislação ofereceu à Câmara Municipal a oportunidade de alterar a data do dia da cidade. O processo foi desencadeado em 1952, ainda durante a presidência do eng. Henrique Chaves da Fonseca. Contudo, a sua tramitação administrativa prolongou-se por vários anos e apenas culminou em 1960, já sob a presidência de João Luís da Graça Zagallo Vieira da Silva, com a adoção definitiva do dia 29 de junho, festa de São Pedro, padroeiro de Évora.
Em conclusão
Ao longo de mais de um século, o dia de Évora conheceu diferentes datas e diferentes significados. Foi expressão da renovação republicana, da exaltação patriótica do Estado Novo e, finalmente, da valorização da tradição histórica e religiosa da cidade. Mudaram os regimes, mudaram as circunstâncias e mudaram as efemérides; permaneceu, porém, o mesmo propósito: reservar um dia em que os eborenses se reconhecem como comunidade, celebram a sua memória coletiva e renovam o compromisso de preservar e enriquecer o legado que receberam das gerações que os antecederam. Porque uma cidade não vive apenas das pedras que herdou, mas também da consciência que os seus habitantes têm da sua própria história.
O autor do texto é professor emérito da Universidade de Évora e presidente da Assembleia Municipal de Évora










