
Quando hoje se fala de Ormuz, fala-se sobretudo do estreito — o gargalo por onde circula uma parte significativa do petróleo e do gás consumidos no planeta. Um corredor marítimo permanentemente vigiado por satélites, drones e navios de guerra. Mas, durante mais de um século, esse mesmo estreito foi patrulhado por galeões portugueses.
Ormuz é um nome mítico da história portuguesa. Foi um dos vértices do sistema que sustentou o império marítimo no Índico: o triângulo estratégico Goa–Ormuz–Malaca. A partir desses três pontos, Portugal tentou controlar as principais rotas comerciais da Ásia. Não dominava territórios vastos: dominava os nós do comércio.
A ilha, situada à entrada do Golfo Pérsico, era pequena e árida — cerca de 42 quilómetros quadrados de rocha vermelha. Mas a sua posição geográfica fazia dela um dos grandes entrepostos comerciais do mundo. Quem quisesse entrar ou sair do Golfo tinha, praticamente, de passar por ali.
Sob domínio português, consolidado em 1515, Ormuz tornou-se uma peça essencial do sistema comercial do Estado da Índia. Parte desse sistema assentava no «cartaz», uma licença obrigatória para navegar e comerciar no Índico. Navios sem cartaz arriscavam ser capturados ou afundados pelas armadas portuguesas que policiavam as rotas marítimas.
Na prática, Ormuz funcionava como um funil do comércio asiático. Ali cruzavam-se mercadorias vindas de várias direções: especiarias e tecidos da Índia, sedas da Pérsia e da China, pérolas do Golfo, porcelanas da China, ouro e marfim da África Oriental. Nas ruas misturavam-se mercadores de Veneza, da Arménia e de Constantinopla. Parte desses produtos seguia para mercados asiáticos; outra parte encontrava um destino novo que os portugueses tinham aberto: a Europa, através da rota do Cabo e dos mercados de Lisboa.
Durante algum tempo, o sistema funcionou. Mas os equilíbrios de poder no Índico estavam a mudar.
Em 1622, durante o reinado de Filipe III de Portugal, forças do xá da Pérsia, apoiadas pela Companhia Inglesa das Índias Orientais, conquistaram a ilha. A queda de Ormuz não foi apenas uma derrota militar. Foi também o sinal de que o monopólio português do comércio do Índico estava a terminar. O centro do comércio regional deslocou-se então para Gamron, mais tarde chamado Bandar Abbas, na costa persa. Ingleses e holandeses passaram a disputar as rotas que Portugal tentara controlar sozinho.
Hoje, cinco séculos depois, o estreito continua a ser um dos pontos mais sensíveis do planeta; o «centro do mundo», segundo o historiador Allen James Fromhertz. Mudaram os navios, mudaram as armas, mudaram os impérios. O gargalo permanece o mesmo.
E as ruínas portuguesas na ilha lembram que, ali, o mundo já esteve nas mãos de outro poder — que também acreditou controlar o estreito para sempre.
Fotografia: Domínio público












