Data: algures no princípio do século XIX. Local: aquilo a que hoje se chamaria tasca e na altura dava pelo nome mais imaginativo de os mal-cozinhados, como referência ao mal que lá se comia, chão de serradura, mesas, copos e pouco mais, e um homem que “pregava”. E pregava o quê: basicamente, contra tudo o que ameaçasse a sua “religião”, o absolutismo, e o seu “deus”, o rei D. Miguel.
Racista, misógino, violento, vaidoso e com o dom da palavra, arrastou consigo um povo que temia o liberalismo e os últimos apoiantes de uma causa que tinha os dias contados. E não se ficava pelas tascas – a sua (alta) voz chegou à família real e a sua pena fartou-se de discorrer acima de tudo sobre aquilo que mais odiava: os liberais, os maçons e os estrangeiros.
Quem era este homem? Um resumo rápido é feito pelo professor João Pedro Rosa Ferreira, no artigo “Humor, insulto e política nos periódicos de José Agostinho de Macedo”: o padre foi um homem que “cultivou a polémica com entusiasmo furibundo, tanto na sua polifacetada atividade literária (dividida entre a poesia, o teatro, a epistolografia, a filosofia, a história, a crítica, a política, a parenética, a oratória fúnebre e a periodística) como na sua agitada vida pessoal”.
Mas é preciso situar-nos. Como explica Rita Correia, no seu perfil de José Agostinho de Macedo, “refira-se que a época em que viveu teve a mesma chancela de incerteza por força dos acontecimentos que a pontuaram: Invasões Francesas (1801-08; 1809; 1810-1814); “exílio” da família real no Brasil (1807-21) e sucessivas regências; difusão das ideias liberais com consequente Revolução de 1820 e a implantação do governo constitucional; independência do Brasil (1825); contrarrevolução da Vila-Francada (1823) e o restabelecimento do absolutismo sob a égide de D. Miguel”.
Filho de um ourives, Agostinho de Macedo nasceu em 1761, em Beja, uma terra altamente senhorial, como era todo o Alentejo. Com apenas 17 anos professou na ordem dos Eremitas de Santo Agostinho em Lisboa, mas acaba expulso por ter sido considerado “contumaz e incorrigível” (chegou a roubar e a agredir alguns irmãos). Era um homem devasso, libertino, e com um grande pendor para falar alto. Safou-se com o estado de “presbítero secular”, que o deixava dizer missa mas lhe dava liberdade para outras coisas.
Desde aí, Agostinho de Macedo vai dizer de sua justiça sobre o mundo em que vive. As suas ambições: ser reconhecido pela sua literatura. E escreve imenso, de comédias a dramas, de panfletos a periódicos, inclusivamente uma “recriação” (em “bom”, presumia-se) de “Os Lusíadas”. Mas ficou mais famoso pelos insultos com que zurzia quem não alinhava pela bitola do absolutismo.
O crepúsculo dos monstros
Pedi ao Sérgio Luís de Carvalho, professor, escritor e historiador, que nos guiasse pelo mundo fantástico de José Agostinho de Macedo. No seu livro “Lisboa Maçónica”, Sérgio Luís de Carvalho dedica um capítulo ao padre de Beja, e confessa um fascínio por este “figurão” entalado num mundo crepuscular que fazia a transição do absolutismo para o liberalismo.
“Era um homem muito misógino, muito racista, e era contra tudo aquilo que supostamente o liberalismo encarnava, como a maçonaria, porque grande parte dos homens que fizeram a revolução liberal de 1820 eram maçons, inclusive o próprio D. Pedro IV”.
Porque é que um homem que por nenhuma bitola podia ser considerado um ser humano edificante ainda hoje nos fascina? “O que é interessante no padre Agostinho de Macedo, tal como noutras figuras do seu tempo, é que ele representa um mundo em desaparecimento”, resume Sérgio Luís de Carvalho. “Agostinho de Macedo é o fim do absolutismo, que no seu estertor mata muita gente. Representa a irracionalidade dos miguelistas por contra-ponto ao racionalismo liberal, e representa a fação trauliteira do absolutismo”.
O absolutismo tem uma visão muito simples do poder: “O rei é escolhido por Deus e, portanto, a sua autoridade é incontestável e qualquer revolta contra o rei é uma revolta contra Deus”.
Claro que com o crescimento da burguesia no século XVIII tudo isto começa a ser posto em causa. “O mundo assente em três classes sociais, clero, nobreza e povo, começa a mudar. A burguesia começa a pensar que, se é ela que sustenta o Estado, tem de ter representação. E com o iluminismo e o liberalismo a legitimação de poderes passa a ser feita pelas pessoas e não por Deus. Aliás, é engraçado reparar que enquanto os textos absolutistas usam a palavra súbditos, os textos iluministas depois da Revolução Francesa falam em cidadãos.”
É toda uma nova sociedade que aparece, mas o velho mundo não vai morrer sem dar luta. “Isto lembra-me uma frase do Antonio Gramsci, um grande teórico italiano do antifascismo, que dizia: ‘O velho ainda não morreu, o novo ainda não nasceu, e é nesta fase que se produzem os monstros’. Isto é atualíssimo nos nossos dias, e já era verdade no século XVIII: havia um velho mundo a apagar-se, uma nova ordem mundial a forjar-se e nesse crepúsculo aparecem os monstros”.
O século XVIII foi o de todas as revoluções, principalmente a francesa. E quando nasce Agostinho de Macedo, também em Portugal as coisas estão em turbilhão. Em 1761, ainda há absolutismo em Portugal. D. Maria II vai fazer a “viradeira”, que representa a regressão de muitas medidas de Marquês de Pombal e, em 1799, D. João VI assume o poder. Mas em 1820 explode a primeira Revolução Liberal, que vai até 1825.
No ano seguinte morre D. João VI, “pensa-se que envenenado pela fação absolutista, e estalou a contra-revolução dominada por D. Miguel e a mãe, Carlota Joaquina”, explica Sérgio Luís de Carvalho. “Até 1826, o nosso amigo padre chega a ser incómodo com a sua verborreia, a que os absolutistas não estão habituados porque é linguagem de taberna e porque ainda não podem tirar a mão de ferro da luva. Quando em 1828 D. Miguel sobe ao poder sem entraves nem amarras, o absolutismo está à-vontade para dar vazão aos seus ódios, erguer forcas em Lisboa e Porto e eliminar vários liberais. É aí que o nosso amigo dá livre curso aos seus ódios”.

O ódio a Luís Camões já vinha de tenra idade, não se sabe como nasceu, mas era feroz. Considerava mesmo que o autor de “Os Lusíadas” escrevia à-toa, desconsiderava a gramática, insultava os reis, não tinha estilo poético e basicamente fazia o que queria.
E não lhe faltavam queixas contra Camões. Desde “nenhum poeta interpretou mais amplamente as leis da liberdade poética” a “faz o que quer e não lhe importam as regras da boa razão”; de “tem versos errados e aleijados e disparatados” a “são impróprios, deslocados e impertinentes os sermões com que vai entressachado o poema”, a queixa é ofendida: “o que mais custa a encontrar é o estilo poético neste tão celebrado poema”. A conclusão não deixava margem para dúvidas: “Cansa o entendimento em notar tantas impropriedades”.
De onde é que isto vinha? “Só podemos especular”, nota Sérgio Luís de Carvalho. “Ele tinha um ego gigante e uma crença hipnótica nos seus próprios dotes literários, que funcionavam muito bem no que toca a dotes panfletários. Aliás, é dos primeiros panfletários portugueses. Até escreve o seu próprio poema épico em resposta a ‘Os Lusíadas’… em mau, porque ele nem com a métrica acerta”.
Nesse texto, “Oriente”, conta a saga de Vasco da Gama (podem ir ler que há online, mas nenhum leitor de agora aguenta aquilo). Além desta cover de “Os Lusíadas”, lança periódicos igualmente insuflados como a “Tripa Virada” ou a “Besta Esfolada”, onde dá livre curso ao seu ódio por tudo o que fosse anti-D.Miguel ou liberalismo.
Como conta João Pedro Rosa Ferreira, o padre de Beja “não hesita em apontar os grupos socioprofissionais mais vulneráveis ao ‘contágio’, toda a pequena burguesia urbana, a classe média-baixa ligada ao comércio, viveiro de liberais. O preconceito em relação a certas classes sociais desdobra-se em aversão à cultura, quando Macedo constata que os de baixo procuram a emancipação através da palavra impressa. A solução para ‘estes nojentos empecilhos’? Apelar ao ‘milagroso S. Miguel da Terra’ para que não lhes deixe osso em seu lugar”.
O incitamento à violência era especialmente feroz contra os maçons, apelidados de “furiosos pedreiros”, “palhaços” e “molho de gaiatos”. Embora às vezes pareça cómico, Macedo usa muitas vezes o humor como arma de violência, defendendo mesmo a morte dos adversários. Como nota Rosa Ferreira, “José Agostinho explora o sarcasmo e a sátira para lá dos limites da decência, da crueldade, da obscenidade. Livros e periódicos são para queimar, ossos são para quebrar com a ajuda do cacete, corpos para enforcar. O outro, o que é diferente (pedreiro livre, malhado, mulher, brasileiro) é alvo de uma desumanização. Daqui resulta uma recusa da alteridade, da possibilidade de diálogo e da coexistência entre nós (portugueses honrados, absolutistas, apostólicos, corcundas, veneradores de S. Miguel, seguidores de D. Miguel) e o outro”.
Com poucos números, mas muito eficazes porque muito cativantes, os periódicos granjeiam-lhe, diríamos hoje, bastantes seguidores.“Convém lembrar que Portugal era um país muito iletrado e estes não eram jornais como os nossos, eram inclusive vendidos nas própriastipografias”, explica Sérgio Luís de Carvalho. “Mas ele tinha audiência, porque esses periódicos eram pensados mais para serem lidos em voz alta, até porque a esmagadora maioria da população era analfa- beta. Aliás, é engraçado que todos os documentos medievais portugueses começavam com uma frase enigmática que dizia assim: todos quantos isto lerem, ou ler ouvirem…”.
Quem era o seu público? “Havia aristocratas, sem dúvida, mas também uma grande população rural que o apoiava. Aliás, dizia-se que Portugal era cidade e meia: Lisboa que era a cidade e Porto que era a meia cidade. O resto era muito rural. E, nesse mundo, D. Miguel tem muita aceitação. Ele é o preferido dos nobres e do clero, mas também do campesinato que o vê quase como um messias. Porque do outro lado estão os maçons que ‘são muito maus e vêm destruir a religião’, e todo o discurso reacionário do absolutismo é eivado de religião”.

Os herdeiros do padre
Teria Agostinho de Macedo noção de que o mundo em que acreditava estava a acabar? “Não sei, mas deve ter tido pelo menos a noção de que era um mundo acossado, aquela ideia de estarmos cercados por todo o lado, de termos de reagir. E nestas circunstâncias, reage-se como? Pela violência. Toda a contra-revolução absolutista em toda a parte é violenta, e Portugal não foi exceção”.
Agostinho de Macedo morre em1831, com 70 anos, ao mesmo tempo que o absolutismo, que tanto defendeu. D. Miguel mandou que o caixão fosse transportado num coche funerário puxado por oito ca- valos desde a sua casa, em Pedrouços, até ao Convento de Nossa Senhora dos Remédios, em Lisboa, onde foi sepultado. “Ele teve uma sorte extraordinária”, nota Sérgio Luís de Carvalho, “porque a Revolução Liberal que vai acabar definitivamente com o absolutismo começa em 1832. Nem ele nem Carlota Joaquina assistem à derrocada do seu mundo”.
É interessante pensar no que teria acontecido se ele tivesse vivido para lá de 1831. Seria um vira-casacas? “Não acredito porque ninguém o levaria a sério. Pode não ter tido noção de que o seu mundo estava em desagregação, mas poderia ter achado que era uma provação divina que teriam de atravessar porque era a vontade de Deus e que a vitória acabaria por chegar. Esse tipo de explicação ainda hoje se usa”.
Poderia ter partido para o exílio com D. Miguel? “Recapitulemos: a guerra civil acaba com a rendição dos absolutistas em Évora-Monte. D. Miguel é obrigado a exilar-se e é-lhe garantida uma tença para sobreviver. Assim que se apanha no barco, D. Miguel renega o tratado de Évora-Monte e perde o direito à tença, e é o Papa que vai sustentá-lo. Ora, não estou a ver o Macedo a fazer parte desta trupe de fantasmas, a ir para Itália com os restos de uma corte derrotada a sobreviver das migalhas do Papa. Portanto, acredito que tivesse continuado em Portugal, até porque os miguelistas não foram muito perseguidos”.
É interessante reparar como muitas características da figura e do discurso de Agostinho de Macedo se vão repetir muito depois da sua morte. “Notemos, por exemplo, como o pensamento deste homem precede o quadro mental dos germanófilos portugueses durante a Segunda Guerra, os pró-nazis portugueses”, assinala Sérgio Luís de Carvalho. “A cosmovisão, o racismo, o irracionalismo e a crença numa intervenção divina repetem-se. E o discurso da extrema-direita ainda hoje se filia nesta linha. Portanto, como dizia Mark Twain, a História não se repete, mas rima. Estejamos atentos”.












