Trata-se de homenagear, desta forma, um dos nossos conterrâneos que teve uma vida particularmente ativa no domínio da cultura, do jornalismo e do associativismo.
Manuel Xarepe nasceu em São Bento do Cortiço em 1933, mas veio residir muito novo com os pais para Estremoz, onde fez a instrução primária na escola dos rapazes no castelo. Começou a trabalhar como ajudante de eletricista, ainda não tinha 14 anos, ao mesmo tempo que escrevia poemas que guardava.
De espírito inquieto, ligou-se às coletividades que faziam teatro. Escreveu, com Joaquim Vermelho, os diálogos da peça «Vitaminas 1950», que foi apresentada no Teatro do Asilo. Colaborou, também, nos passatempos carnavalescos, organizados pelo Clube de Futebol de Estremoz, e foi o autor da letra da «Marcha do Castelo», que se apresentou a concurso na Esplanada-Parque.
Amante de filmes, foi um dos fundadores do Cineclube de Estremoz, em 1954, juntamente com Aníbal Falcato Alves, Joaquim Vermelho, Armando Carmelo, entre outros.
Admirador de Henri Dunant, teve a ideia de criar uma comissão para erguer na cidade um busto que perpetuasse a memória do fundador da Cruz Vermelha Internacional. O busto foi inaugurado, no jardim público, na data em que se completavam 50 anos sobre a sua morte.
Como muitos outros jovens, partiu para Lisboa à procura de outras oportunidades. Foi empregado de comércio e, depois de assinar a declaração oficial, em papel selado, de que não professava quaisquer ideias contrárias às do Estado Novo, foi admitido como aspirante de finanças em Gouveia e, mais tarde, em Seia e em Loures.
Não gostava do que fazia e, assim que pôde, entrou para a Carris.
Em Lisboa, continuou ligado ao cineclubismo, em particular ao centro cultural Roque Gameiro da Amadora e ao cineclube Imagem. Fez também incursões na produção de curtas-metragens, que ele próprio realizava e montava. «Largo do Espírito Santo» é uma evocação de Sebastião da Gama, que contou com a participação do Orfeão Tomás Alcaide e de atores locais. O filme foi mostrado no Teatro Bernardim Ribeiro, no âmbito da homenagem póstuma a Joaquim Vermelho.
Destaque ainda para o filme infantojuvenil «O General», que foi apresentado a concurso num festival de cinema em Tomar, e «A Bênção do Gado em S. Romão» — festa religiosa e pagã que se realiza anualmente junto à ermida.
Dedicou-se também ao jornalismo, escrevendo regularmente para o jornal República, fundado por António José de Almeida, para o Notícias da Amadora, para a revista Lisboa – Carris e para vários jornais do Alentejo e das Beiras. Manteve no Brados do Alentejo, durante vários anos, uma coluna com o título «Falando de», em que abordava temas locais e falava de episódios curiosos associados a figuras populares da cidade.
Quando tinha 50 anos, terminou a licenciatura em Antropologia Sociocultural, na Universidade Lusófona. Prosseguiu os estudos, fazendo a pós-graduação em Sociologia das Religiões. Continuou ligado ao ensino, desta vez, como professor na Universidade da Terceira Idade, em Lisboa.
Escreveu alguns livros: «Cidade de Abril» ganhou, em 1983, o prémio literário da Câmara Municipal da Amadora. Em 2014, veio à Biblioteca Municipal de Estremoz lançar o livro «Alentejo Crucificado – Estorietas & Croniquetas» e, em 2017, apresentou na Casa do Alentejo «Ciclos de Água». É ainda o autor de «Alentejo e Todos Nós» e «Homens, Gatos e Cães». Já numa fase adiantada da vida, escreveu para teatro «A Morte não é o Fim».
Esteve também ligado ao desporto, tendo ficado aprovado no curso de treinador de hóquei em patins, organizado pela federação portuguesa da modalidade. Colaborou na organização do Campeonato da Europa de Hóquei em Patins, que se realizou em 1971, em Lisboa.
Pertenceu, em vários mandatos, à direção da Casa do Alentejo e, em 2003, foi um dos fundadores da Lincemoz. O boletim «Gadanha», editado pela Liga, contou com a sua colaboração desde o primeiro número.
Faleceu no Hospital de Évora em 2025, quando estava a pensar ainda em novos projetos.
Fotografia: Manuel Xarepe. © Alentejo Ilustrado/Direito Reservados










