Há uma linha invisível, mas indestrutível, que une Vergílio Ferreira e José Luís Peixoto: uma linha feita de silêncio, de memória e da incessante procura da identidade.
Se Vergílio Ferreira nos ensinou a pensar o humano a partir de um «espaço invisível», onde a consciência se confronta com a sua própria finitude, José Luís Peixoto ocupou esse lugar e expandiu-o, transformando-o numa cosmogonia onde o íntimo se torna universal. Em ambos, a escrita não é ornamento nem exercício estético: é urgência ontológica. Escrevem para resistir ao tempo, para suspender a morte, para habitar o que somos. É nesse sentido que esta homenagem celebra um diálogo entre duas escritas que convergem nos mesmos territórios essenciais: a memória como matéria primordial, o silêncio como forma de linguagem e a identidade como construção inacabada.
Vergílio Ferreira escreveu que «a memória é o nosso mais profundo silêncio» e que «em cada um de nós há uma casa vazia à espera de ser habitada pelo que somos». Estas frases concentram uma visão do humano como lugar de ausência e de espera. A memória não fala: sustém. A identidade não é um dado adquirido: constrói-se. É precisamente nesta «casa vazia» que José Luís Peixoto se instala.
Se, em Vergílio, a memória é interrogação metafísica e silêncio interior, em Peixoto esse silêncio é aberto, rasgado e oferecido à linguagem. A escrita disseca o mutismo da origem até lhe dar uma voz densa, por vezes hipnótica, que se manifesta sob a forma de sagas familiares, de comunidades arcaicas, de narrativas onde o real se aproxima do mítico. A identidade surge então como herança: da terra, dos mortos e das palavras que nunca chegaram a ser ditas.
José Luís Peixoto é o escritor que saiu do Alentejo sem nunca permitir que o Alentejo saísse dele. Levou a planície consigo, não como cenário, mas como forma de ver o mundo. A terra, na sua obra, não é apenas geografia: é ontologia. A centralidade do espaço rural constrói-se a partir de uma arquitectura da ausência: casas vazias, vozes interrompidas, silêncios transmitidos de geração em geração.
Galveias, mais do que uma vila de Portalegre, é um microcosmo onde se encenam as grandes paixões humanas. Como num palco shakespeariano, desfilam ali o amor, a perda, o medo e a espera, inscritos num quotidiano governado pelo ritmo da natureza. É por isso que, paradoxalmente, quanto mais particular é o mundo de Peixoto, mais universal se torna. O leitor reconhece-se não por avistar a planície, mas por ver através dela.
Talvez seja por isso que a sua obra atravessa fronteiras e línguas com tamanha naturalidade. Um leitor na Geórgia, na Arménia, na Tailândia ou na Mongólia não lê sobre o Alentejo: lê sobre si próprio. Porque José Luís Peixoto escreve sobre as verdadeiras pátrias humanas: a identidade, a perda, a memória, o silêncio. E essas não conhecem fronteiras nem geografias.
O percurso literário de José Luís Peixoto inicia-se com um luto transformado em linguagem. “Morreste-me” é um grito contido, uma elegia íntima que define uma ética da escrita: a dor, quando descrita, ganha forma e, nessa forma, encontra dignidade. Ao regressar à terra do pai, o narrador escreve: «Agora é apenas a terra onde morreste». Este é o alicerce de uma poética da ausência que atravessará toda a sua obra.
Com “Nenhum Olhar”, essa voz confirma-se e amplia-se. O realismo que aí se inscreve não é importado nem decorativo: é telúrico. O fantástico nasce da própria terra, onde o diabo e os gigantes convivem com a rotina da planície. «O silêncio é a única voz que não mente», lê-se nesse romance que, em 2001, venceria o Prémio Saramago. Talvez toda a obra de Peixoto possa ser lida como uma tradução paciente desse silêncio.
A escrita de José Luís Peixoto é um organismo vivo. Do lirismo inicial, quase torrencial, evolui para uma estrutura narrativa cada vez mais complexa. “Cemitério de Pianos” marca um ponto de viragem decisivo: a emergência de uma polifonia onde diferentes tempos e vozes se entrecruzam, desafiando a linearidade da memória. A família Lázaro não é apenas uma genealogia ficcional: é um espelho das nossas próprias heranças e falhas. Nesse romance aprende-se que os pais nunca morrem verdadeiramente; permanecem como presença e ausência, como voz que acompanha mesmo quando já não conseguem estar.
Essa atenção à multiplicidade das vozes prolonga-se em “Livro”, obra que simultaneamente narra a emigração portuguesa e reflecte sobre o próprio acto de ler. A mala de cartão que Ilídio transporta é memória colectiva e promessa. «O que vemos não é o que vemos, senão o que somos». Mais uma vez, a paisagem exterior revela-se como espelho da paisagem interior — outro ponto de contacto profundo com a visão vergiliana do mundo.
Mas José Luís Peixoto não se esgota no romance. A sua escrita assume múltiplas formas: é poeta, é dramaturgo. A sua peça “Lá” (metáfora das migrações do interior para a cidade e o caminho de regresso, nos anos 60, que acentua as desigualdades territoriais que ainda vivemos) foi encenada o ano passado pelo Teatro do Montemuro e o Teatro Meridional.
É autor de literatura infantil (“A Mãe que Chovia”, “Todos os Escritores do Mundo têm a Cabeça Cheia de Piolhos”, a par com outros, em resposta a pedidos de inúmeras associações: “A Confusão no Corredor dos Enlatados”, “Martim o Menino Assim”, “Vaidosa Raposa Gulosa”). É cronista de viagens que nos leva “Dentro do Segredo” à Coreia do Norte e através da Tailândia no “Caminho Imperfeito”. É o artista que colabora com a banda Moonspell, fazendo a ponte entre a literatura e o metal gótico; é o comunicador que grava podcasts com a mãe e com amigos. Em suma, José Luís Peixoto recusa a distância solene do escritor isolado. A sua presença é a de alguém que habita o mundo e dialoga com ele.
Nos livros mais recentes, essa presença torna-se ainda mais marcada. Em “Autobiografia”, o autor arrisca colocar-se como personagem, cruzando a sua voz com a de Saramago num jogo de espelhos inquietante. Em “Almoço de Domingo”, escreve a vida do comendador Rui Nabeiro como quem escreve uma biografia da partilha, da comunidade, da construção colectiva do humano.
“A Montanha”, o livro mais recente, é talvez o ponto mais alto dessa fase: um romance híbrido, onde ficção, biografia e reflexão crítica se entrelaçam. O narrador assume a responsabilidade de contar vidas alheias, olhando o abismo e o cume com igual serenidade. A escrita torna-se mais livre, mais frontal, sem perder a densidade poética que sempre a caracterizou.
Escrever e ler são, afinal, formas de suspender o tempo. Em Galveias, quando um objecto cai do céu e altera o equilíbrio da comunidade, revela-se uma verdade simples e devastadora: «O mundo é o que nós somos, e nós somos o que fizemos com o mundo». Esta frase ressoa como ética e como advertência, lembrando-nos da responsabilidade que temos uns pelos outros e pelo lugar que habitamos.
José Luís Peixoto nasceu já em liberdade, em Setembro de 1974, mas a sua escrita recorda-nos continuamente a fragilidade dessa condição e a necessidade de consciência. Galveias poderia ter como epígrafe a «casa vazia» de Vergílio Ferreira: uma identidade feita de vestígios, de ausências, de memórias partilhadas. Porém, a casa nunca está vazia; é habitada pelos que passaram e pelos que continuam a falar através do silêncio.
O Prémio Vergílio Ferreira distingue uma obra inteira. Distingue o jovem que escreveu a planície depois da morte do pai e que, nesse gesto inaugural, se fez escritor. Distingue a capacidade rara de falar da morte sem desespero e da vida sem ingenuidade. Se Vergílio Ferreira dizia que da sua língua se via o mar, José Luís Peixoto levou a nossa língua mar adentro, entregando-a a leitores que não a falam, mas nela se reconhecem.
Muito antes de Évora ser Capital Europeia da Cultura, já José Luís Peixoto celebrava, em “Nenhum Olhar”, o vagar essencial do mundo: «Conheço esta quietude. Conheço esta tarde. As ovelhas debaixo dos sobreiros, como mortas. A cadela deitada ao pé de mim. As ervas miúdas a vergarem-se numa aragem fraca. O céu de encontro à terra, a terra a reflectir o vagar do céu, o céu a reflectir o vagar da terra».
A autora é professora do Departamento de Linguística e Literaturas da Universidade de Évora e integra o júri do Prémio Vergílio Ferreira 2026. Não segue o acordo ortográfico.












