José Mário Gaspar: «Enquanto a música toca…»

Governar não é apenas inaugurar palcos, cortar fitas ou marcar presença onde há música. É também resolver os problemas que permanecem quando o último acorde se cala, as luzes se apagam e os foguetes deixam de rebentar.

José Mário Gaspar, gestor (texto)

Estamos no verão. É tempo de festas, festinhas, arraiais, festivais e romarias. Tradições antigas misturam-se com outras mais recentes, inventadas para animar o calendário e, diga-se, também as redes sociais. As autarquias andam numa roda-viva. Monta palco, tira palco. E ainda bem, as festas dão vida às terras, juntam as pessoas e ajudam a economia local. Nada contra.

O problema começa quando parece que o calendário municipal tem apenas 12 meses… de festa.

Em Estremoz há obras que parecem seguir um calendário diferente. A recuperação de habitações já atravessou quatro verões. Pelo caminho realizaram-se dezenas de festas. As obras, essas, continuam em ritmo de procissão.

Depois há os famosos estudos. Um deles é o da reorganização do estacionamento do Rossio. A nossa praça merecia uma solução que a tornasse mais harmoniosa, mais funcional e ainda mais bonita, para nós e para quem nos visita. Mas o estudo continua tão discreto que já desconfio que esteja em férias permanentes.

E que dizer das muralhas, fortins e muros que desabaram? Um pedaço da nossa História transformado em entulho. Fotografias não faltaram. Declarações também não. Entretanto, as pedras continuam à espera que alguém lhes dê mais atenção do que a um cartaz de festival.

As casas em ruína multiplicam-se, há ruas encerradas devido ao risco de derrocada e existe até uma rua, numa bonita freguesia do concelho, fechada há tanto tempo que quase merece entrar no roteiro turístico. Fica o desafio para estas férias: descobrir onde é e qual o seu nome. Quem acertar não ganha bilhete para nenhuma festa, mas ganha consciência de um problema que continua por resolver.

Também há terrenos municipais, adquiridos há anos para construção de habitação, que continuam à espera de vontade política. Outro passatempo para estas férias: descobrir onde ficam. Num deles já passaram tantas festas que o investimento continua abandonado e o terreno permanece em estado bravo, à espera de ser transformado em casas para quem delas precisa.

Podíamos falar ainda do lixo, dos buracos nas ruas e estradas do concelho, das ervas, das podas sem critério e de tantas pequenas situações que todos conhecemos. A lista é longa e o espaço do jornal é curto. Basta cada leitor olhar à sua volta e perguntar: aquilo que me prometeram já foi feito?

Haverá quem responda que a Câmara já realizou obra. É verdade. Fez. E ainda bem, era essa a sua obrigação. Foi para isso que se apresentou a eleições e é para isso que dispõe de muitos milhões de euros do orçamento municipal, alimentado pelo nosso IMI, pelas taxas e pelas inevitáveis «taxinhas».

Mas governar não é apenas inaugurar palcos, cortar fitas ou marcar presença onde há música. É também resolver os problemas que permanecem quando o último acorde se cala, as luzes se apagam e os foguetes deixam de rebentar. As festas passam. Os problemas ficam. E esses, infelizmente, não entram de férias.

A todos os leitores, desejo umas excelentes férias, um merecido descanso e um regresso com energia renovada. Quem sabe se, depois do descanso, todos teremos ainda mais vontade de exigir que, entre uma festa e outra, também se resolvam os problemas que continuam à espera.

Uma resposta

  1. Na minha Terra Arronches, e é só festas Temos um passeio de Maio, com amoreiras de um lado ,no meio,a 🛣️ principal ..Nesse passeio as pessoas nem se podem,sentar este ano nem os bancos foram pintados,nem lavados,uma vergonha 😡

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

ALENTEJO CARTOONADO
por Rui Pimentel

O ALENTEJO DE SARAMAGO
Roteiros

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 48,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar