José Zarcos Palma, o astrofotógrafo dos céus da Mina de São Domingos

“O desafio é escrever quando não há luz, ou há muito pouca luz”. Depois de uma extensa carreira profissional, e política, José Zarcos Palma dedica-se agora à astrofotografia de paisagem, privilegiando o enquadramento dos fenómenos astronómicos do céu noturno da Mina de São Domingos às ruínas da antiga mina de cobre e enxofre. Júlia Serrão (texto)

O céu noturno da Mina de São Domingos é um dos céus mais imaculados em termos de ausência de poluição luminosa”, afirma José Zarcos Palma, para lembrar que não é por acaso que o território de Mértola está integrado na reserva Dark Sky Alqueva, desde 2018. Os níveis de baixa poluição luminosa dão ao firmamento deste lugar a obscuridade necessária para a observação de fenómenos celestes quase o ano inteiro.

Embora trabalhe outros domínios da fotografia, e ainda que fotografe também noutras paragens, José Zarcos Palma dedica-se essencialmente à astrofotografia de paisagem, elevando a integração dos fenómenos astronómicos que cruzam o céu noturno da Mina de São Domingos – como chuva de estrelas, planetas, eclipses e estações espaciais – aos escombros do antigo complexo mineiro de cobre e enxofre.

A maior parte dos trabalhos que compõe o seu portefolio é tirada nestas paisagens caóticas de grande beleza, “privilegiando sobretudo as ruínas da Achada do Gamo”, que permitem enquadramentos únicos. “Enriquece imenso a imagem de um céu na sua dimensão infinita em contraste com a perenidade das construções humanas. Estas nascem, crescem e morrem, mas o céu permanece lá, imutável”. É esse contraste que pretende mostrar.

O desafio é “escrever quando não há luz, ou muita pouca luz”, explica, para falar de uma “ligação da astrofotografia” à região. Um meio que encontra para “promover o astroturismo no território e devolver muitas coisas” que este lhe deu, como “permitir que nascesse ali”.

Depois de se reformar, aos 58 anos, o astrofotógrafo autodidata construiu uma casa na aldeia onde, nos últimos 12 anos, tem passado grande parte do tempo. “Procuro associar coisas que me dão prazer como o território, e de alguma forma promovê-lo com o meu trabalho”. Foi com esse espírito que aceitou o convite para guia local da Câmara de Mértola.

Zarcos Palma nasceu em 1954 na Mina de São Domingos, e o gosto e a curiosidade pela fotografia estiveram sempre presentes na sua vida – o pai tirava uns retratos, e um primo tinha um pequeno estúdio, em casa, onde fazia as revelações. Mas só começou a treinar – e em máquina própria por volta dos 15 anos, já vivia na cintura industrial de Lisboa.

A família tinha-se mudado para Moscavide em 1964, quando a mina ainda “laborava” mas estava na fase final. O pai, que trabalhava para a empresa britânica concessionária da exploração, ingressa numa fábrica de parafusos como desenhador e, quatro anos depois, leva o filho, que acaba por seguir a mesma carreira. Tinha 14 anos. “Como filho mais velho, tinha como missão ajudar na criação dos meus irmãos”.

Logo que começou a ganhar os primeiros salários, teve a oportunidade de comprar uma câmara fotográfica através do contacto de um colega da escola no porto de Lisboa. “Curiosamente era uma Zenit, uma máquina russa, que era também uma raridade. Estávamos em pleno Estado Novo, pelo que tinha de haver algum cuidado quando se tiravam fotografias, porque a máquina era contra o regime”, comenta.

Ainda assim, não lhe restava muito tempo para se dedicar à arte “de escrever com luz”. O trabalho na fábrica e a escola em regime pós-laboral preenchiam-lhe os dias: começava pelas oito da manhã e saía às seis da tarde, para apanhar o autocarro que o levava à Escola Industrial, de onde saía às às 23h45. Mesmo mais tarde, tendo uma vida profissional “sempre muito desafiante e exigente”, adiou uma aprendizagem que se fez sem professores, por tentativa e erro. “Mas o bichinho esteve sempre lá”, comenta.

A adaptação a Lisboa não foi fácil, ao princípio sentiu-se “um pouco perdido”. Depois, experimentou o deslumbramento perante tanta novidade. O percurso do autocarro ao longo do rio, percurso esse que o levava a casa, permitia-lhe observar a azáfama dos barcos “a carregar e descarregar” no porto, bem como o burburinho do comércio, os cheiros e os sabores da grande cidade.

Em 1971, com 18 anos, adere ao Partido Comunista Português (PCP), integrando a célula de Cabo Ruivo e “fazendo ações junto de fábricas na zona, trabalho de agitação, distribuição de propaganda ou colagem de cartazes”, de acordo com informação do Museu do Aljube – Resistência e Liberdade.

A experiência de começar a trabalhar muito jovem e o contacto com outros operários levam-no a desenvolver uma consciência política, especialmente no que respeitava à Guerra Colonial. “Pendia sobre mim e sobre os camaradas, com que integrei a célula, a perspetiva de ir para a frente de combate”.

A morte de um amigo na Guiné traumatizou-o. “A perspetiva de ir e morrer ou de ficar estropiado aumentou claramente a consciência de classe… havia qualquer coisa que não estava bem”. Também tiveram peso as condições de trabalho na fábrica, “um pouco arbitrárias, e o aspeto sinistro do diretor-geral”, personagem que recebia todas as semanas um agente da PIDE, “a quem fazia o reporting [relatório] da atividade política da empresa, caso ela existisse”.

Foi preso no seguimento de um atentado da Ação Revolucionária Armada (ARA), ainda que não estivesse envolvido. “A 1 de julho de 1972, a PIDE bateu-me à porta às três ou quatro da manhã. Já havia camaradas que tinham falado. Fomos todos levados para Caxias”. Esteve preso cinco meses, sendo submetido à tortura do sono nas primeiras noites.

Em novembro desse ano foi condenado no Tribunal da Boa Hora a 13 meses de prisão com pena suspensa, saindo então em liberdade. “Foi uma experiência muito dura, sobretudo para um jovem de 18 anos, que tem a ilusão de conseguir mudar o mundo, e depois percebe que é cilindrado por algo muito superior. Mas percebi também que estávamos no caminho certo”.

Com pena suspensa, manteve-se afastado da atividade política. E dois anos depois vivia com muita alegria o dia primeiro de liberdade. “Assisti a tudo, estive na Baixa e no Quartel do Carmo. Só não fui ao Quartel da PIDE porque, conhecendo bem o calibre daquela gente, achei que poderia haver problemas. Foram dias de euforia”.

A astrofotografia surge quando já está muito perto da reforma, “como uma terapia de substituição, porque é um tipo de fotografia que exige um planeamento muito apurado e muito preciso, porque a maior parte dos fenómenos são irrepetíveis”.

Não fez qualquer formação, tem aprendido por si. Acompanha a fotografia digital “desde a primeira hora”, e a situação económica permitiu-lhe comprar o tipo de equipamento necessário à arte. Estudou muito sobre fotografia e astronomia, sendo o livro de Miguel Claro “Artrografia – Imagens à luz das estrelas” o que mais o inspirou. “Tive a oportunidade de o comprar e o Miguel teve a gentileza de o autografar. Depois acabámos por nos cruzar várias vezes, nomeadamente em exposições, e sempre que nos encontramos temos conversas muito agradáveis sobre a nossa paixão comum”.

Até ao momento participou numa publicação com outros fotógrafos e numa exposição coletiva numa galeria de Setúbal, onde vive em alternância com a terra natal. Brevemente vai exibir 40 fotografias em exposição individual, a que deu o nome de “A Viagem da Luz”, no Cine Teatro da Mina de São Domingos, a convite do Município de Mértola. São fotografias tiradas na zona e que têm como objetivo “divulgar e potenciar em termos de astroturismo paisagístico”.

Zarcos Palma não promove “de forma ativa” o trabalho no âmbito da astrofotografia. Publica-o nas suas páginas nas redes sociais, e em “algumas comunidades sérias de fotografia, administradas por fotógrafos respeitados, onde o trabalho de artistas anónimos pode ser genuinamente visto, apreciado e discutido”, aponta.

Diz que a “promoção mais eficaz”, onde sente que o seu trabalho é verdadeiramente valorizado, “vem” de páginas de internet consagradas que divulgam a astronomia, como a NASA APOD – um projeto da agência espacial dos Estados Unidos que exibe diariamente uma imagem do Universo –, o Space.com, Ear- thSkynews.com e o Astronomy.com.

“Ter o meu trabalho publicado diversas vezes nessas páginas oferece uma forma de validação e exposição baseada no mérito”, desabafa.

3 Responses

  1. Muitos parabéns, por tudo. O mais importante para mim é que és um amigalhaço muito porreiro. Mais homens como tu dava jeito. Beijinhos Zeca, felicidades👍

  2. O belo céu noturno alentejano, embora com tendência para ser cada vez menos escuro, é um património que merece ser enaltecido. Ainda bem que há quem faça disso paixão. Já somos pelo menos dois 🙂

    Parabéns ao José Zarcos Palma por valorizar e dar a conhecer a insólita paisagem das Minas de S. Domingos, que tão gratas memórias me trazem dos tempos de infância, quando calcorreava estas veredas no caminho para a escola primária.

  3. Uma história real,digna de se ler e que acompanhei atentamente desde o inicio.
    Parabéns pelo teu percurso de vida,sempre à frente daquilo que se vivia à época.

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