Jovens do interior querem ficar, mas trabalho e transportes travam a decisão

Quase 80% dos jovens das zonas rurais europeias gostaria de viver, estudar ou trabalhar nos seus territórios de origem ou nas proximidades, desde que estes reunissem algumas condições, revela um estudo hoje divulgado no âmbito de uma parceria entre o Conselho da Europa e a Comissão Europeia.

O investigador Francisco Simões, coordenador científico do relatório europeu, explicou que os jovens fazem depender a sua decisão sobretudo dos transportes, do mercado de trabalho e da participação cívica, e que «era importante haver investimento de política pública nessas três áreas».

O relatório, intitulado Vieram para ficar? As transições da juventude rural antes e depois da pandemia de covid-19, analisou como jovens que vivem em regiões rurais de 14 países europeus, com idades entre os 18 e os 30 anos, fizeram a transição para a vida adulta entre 2019 e 2023.

Nos transportes, Francisco Simões exemplifica com «a possibilidade de os municípios conseguirem implementar e apoiar sistemas de partilha de viatura própria ou transportes mais ajustados à realidade, como redes de miniautocarros», referindo que países como a Irlanda começam a investir nesse tipo de soluções. Os jovens que ficam nas zonas rurais «procuram trabalho nas zonas urbanas mais próximas».

No mercado de trabalho, o estudo evidencia «um desalinhamento entre aquilo que os mercados de trabalho rurais oferecem em termos de áreas e setores prioritários, os interesses que os jovens manifestam e a oferta formativa».

«Ainda é muito comum as entidades formadoras que estão nestes territórios terem ofertas à medida do corpo docente e não dos diagnósticos feitos e das necessidades quer das empresas, quer dos jovens», lamenta o investigador, sublinhando a necessidade de ajustar a formação a oportunidades emergentes, como a economia verde e a economia circular.

O fator mais associado à vontade de permanecer é «a necessidade de manter ligação às redes informais, à família, aos vizinhos, à comunidade» — um potencial que, segundo Francisco Simões, «raramente é transformado em política pública».

Os resultados surpreenderam os investigadores: dos mais de 2.500 participantes, a maioria tem nível educativo elevado — precisamente o grupo que, historicamente, mais tendia a sair. «O relatório mostra o oposto», afirmou. A explicação avançada passa pelo «aumento exponencial dos custos de vida nas zonas urbanas, sobretudo de habitação», que torna a permanência nas zonas rurais «mais viável». A vontade de ficar não varia em função do género nem da faixa etária.

O estudo regista progressos, como o aumento da participação no ensino superior, mas alerta para «um declínio acentuado da população jovem nas zonas rurais», assim como para elevadas taxas de desemprego e baixa participação cívica.

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