Katia Guerreiro: “As planícies do Alentejo são o mar dos Açores”

Ao celebrar 25 anos de carreira, Katia Guerreiro festeja a vida e o que tem feito com ela, com o sorriso rasgado pelos olhos grandes, ao longo de uma conversa saborosa que vai do cachaço e do esparregado do restaurante “Quarta-Feira” à linha do horizonte que o Alentejo e os Açores partilham, e onde nasceram (e nascem) todos os sonhos da fadista. Carlos Leitão (texto) e Jorge Simão (fotografia)

Passaram num sopro 25 anos de carreira que não serviram para contar concertos e prémios, antes para os degustar. De pés na terra, Katia Guerreiro sabe de onde vem: “Sinto o peso de 25 anos, de tudo o que fiz; o caminho foi preenchido e muito rápido, mas muito bem saboreado. É sempre uma viagem à Katia ‘gaiata’, voltar atrás e ir buscar as minhas raízes de que nunca me esqueci”.

Nasceu na África do Sul e, sem contar um ano, tornou São Miguel e os Açores na sua identidade. Não foi fácil, mas a criança que brincava nas terras atlânticas havia de o perceber: “Eu só me torno verdadeiramente açoriana com 37 anos de idade porque fui sempre a filha dos retornados angolanos, até ao dia em que o presidente da Câmara, na altura, José Manuel Bolieiro, me anuncia como açoriana de corpo e alma num espectáculo. Aí ganhei o chão daquela ilha onde cresci a beber a beleza e a combater os estigmas”.

Para Katia Guerreiro é impossível celebrar o presente sem ir lá atrás, aonde a fadista ainda não sabia que o viria a ser: “Guardo o sonho da menina tímida, observadora, muito dedicada e responsável. Continuo perfeccionista, mas sou-o para gozar a coisa em pleno e não ter sobressaltos. Ganho muito com a idade e com o tempo a passar. A menina ficou sempre cá”.

As férias de verão que passava em Chaves, em casa do tio veterinário, haveriam de lhe despoletar a paixão da medicina: “Tive sempre aquela coisa de mexer, de ajudar, curar, cuidar. Então pensei – se gostas tanto de pessoas, porque não te dedicas a elas? Apesar do medo e da responsabilidade, assumi que era esse o caminho”.

Aqui começa a viagem, ainda sem Katia saber que o fado baralharia as contas do final da adolescência: “O fado foi-me mordiscando desde pequenina. Ouvia a Amália na televisão e na rádio, uma guitarra portuguesa, e eu parava; era sempre a Amália, aquela figura mítica, tão distante, a sua poesia; ela foi a primeira responsável”.

Daí ao convite de João Braga para cantar no Coliseu dos Recreios no primeiro aniversário da morte de Amália foi um pulo. Katia abraçara a medicina, mas o fado deixara-lhe a semente na meninice, e agora era tempo de decidir: “No dia em que eu vou à Ordem dos Médicos para escolher a especialidade pensei que não o podia fazer; comecei as duas carreiras, mas tinha acabado de gravar o primeiro disco. A principal responsável por ser fadista sou eu própria. Eu fiz a escolha nesse dia”.

O Alentejo e a cidade de Évora marcam a reviravolta. Foi por cá que a açoriana encontrou a paixão que ainda hoje alimenta. “Todos os dias tenho saudades. O Alentejo e as ilhas têm muito em comum, aquilo que eu pude viver no Alentejo era a minha forma de viver nos Açores: a liberdade, o tempo, a qualidade de vida e a contemplação”.

Os seis anos de universidade em Lisboa deram-lhe a teoria necessária do curso, mas foi a sul que os horizontes se abriram: “Passei a fazer parte das equipas médicas porque nós, internos, éramos mesmo muito necessários. Integravam-nos, e nós aprendíamos imenso. Quando contei aos meus colegas em Lisboa que tinha posto três cateteres venosos centrais em Évora não queriam acreditar. Em Lisboa, dificilmente conseguiria fazer um. Em Évora, deram-me a oportunidade de fazer três”.

Passaram 25 anos, mas Katia Guerreiro vive as lembranças com o fascínio de um tempo que parece não ter passado: “Ninguém sabia bem quem eu era, só que ia aparecendo na televisão e na rádio. Um disco, depois outro, e o carinho com que me acolhem foide tal maneira genuíno que até hoje, tantos anos depois, enfermeiras, maqueiros, médicos, ainda querem estar comigo”.

Évora será sempre especial, diz-nos: “Tenho saudades da casinha de bonecas no centro histórico; sempre que a porta se abria ou fechava, as vizinhas vinham dizer adeus e trazer-me as revistas onde eu aparecia. Aqueles horizontes são um bocadinho da África que eu nunca cheguei a ter. Fui muito mimada. Quando fui operada, o José Dias (do restaurante Quarta-Feira) mandava-me iguarias ao quarto e as enfermeiras não as deixavam chegar; ao pequeno-almoço traziam-me croissants”.

Mas que magia é esta que tanto prende? A fadista explica-a através do cante: “É extraordinária a forma como se descreve a vida dura do campo, a noção clara das searas e da dor no corpo, aliviada ao cantar, a dolência das palavras, o movimento e as sílabas partidas, como a vida das pessoas partida pela dor. Um dia, na Córsega, gravo lá um documentário. No final a equipa jantou; a dada altura quisemos presenteá-los, e cantámos a Gotinha de Água. Quando acabámos, havia elementos dos cantos polifónicos da Córsega a cantar exatamente a mesma melodia. O tema era o mesmo da versão alentejana”.

O cante e o fado dão-lhe a convicção de que não somos assim tão diferentes pelo mundo fora, “na essência temos todos a mesma raiz”. O apego à terra é latente, tanto na crueza da relação como na ingenuidade com que teve de encarar alguns momentos da sua vida: “Por exemplo, por não ter nascido em Lisboa, eu sentia-me inferior por não ter participado da história das Casas de Fado, sentia que não merecia o lugar”.

O sucesso não lhe permitiu, porém, deslumbramentos no percurso: “A educação que recebi não dei- xou. Tenho vaidade no que faço, mas não sou vaidosa, muito menos tenho o culto do ego. Eu sentava-me no terraço, lá nos Açores, e ficava horas a contemplar o mar, a linha do horizonte, a lua, a chuva, o Pico da Barrosa, tudo aquilo é a essência. O que realmente importa é muito maior do que eu”.

Mas também há feridas: “É como no Alentejo. A catarse faz-se a cantar. Dores, melancolia, saudade, tristeza, existem em nós; se as recalcamos, a amargura cresce; se as expomos, conseguimos duas coisas: curar as nossas e ajudar os outros a curá-las. Estes novos movimentos de espiritualidade fazem com que as pessoas se vivam um bocadinho mais em paz, como o Cante dos alentejanos nas tabernas”.

Katia Guerreiro encontra-se na família, mas é essencial que os seus filhos percebam sempre onde está o cerne: “Têm a noção do que a mãe faz; ouvem os comentários, percebem o impacto, e partilham comigo o que ouvem. É importante entenderem que eu sou só alguém que está ali a fazer diferença”.

Só assim decifrarão o que passa despercebido ao público em geral: “Na maior parte do tempo na minha vida não me permito chorar; eu não canto de olhos fechados à toa, faço-o egoisticamente porque é ali que eu quero estar sozinha, e permito-me a isso, isolo-me, inteira, sem filtros, sem reservas. O público não é estúpido, tem sido o meu confidente. Às vezes, sem saber, ele está a ouvir chorar o que eu preciso de chorar e a ouvir o que eu preciso de lhe dizer. Quando perdi a minha avó optei por ir para o palco porque precisava dele”.

Katia sorri muito. A vida molda, e quando lhe pergunto o que dirá, nos 50 anos de carreira, ela que agora celebra 25, não hesita: “Deverias ter celebrado mais ainda. Vai, deixa-te espantar pela vida!”. Nesse sentido, guardo o que lhe ouvi no final da conversa: “Ponta Delgada é preto e branco; Évora é mais amarela, mas estão juntas na verdade das pessoas; se abrirem a porta é para a vida, e haverá sempre tempo. As planícies do Alentejo são, para mim, o mar dos Açores. É atrás daquela linha de horizonte que nascem os sonhos”.

2 Responses

  1. Nasci em Lisboa mas sou eborense no coração. Vivi já em muitos sítios, dentro e fora do país, e casei-me um pouco com alguns deles. Tal como a Kátia, Évora e Ponta Delgada, o Alentejo e os Açores, interligam-se em mim e ligam-me a mim. Comovi-me ao ler este texto, como senti profundamente as palavras do meu amigo António Bulcão, faialense de tudo nele, também músico e escritor, quase há meio século, na primeira vez que veio ao Alentejo, quando, do slto do castelo de Arraiolos, disse que no Alentejo o Mar é feito de Terra. Sempre senti isso e todo eu rejubilo por saber que estou muito bem acompanhado neste sentir.

    1. Bernardo, ficar-lhe-ia grato se nos fizesse chegar via email – alentejoilustrado@gmail.com – referências sobre a frase que refere, do António Bulcão, ou mais elementos sobre a sua passagem pelo Alentejo. Obrigado

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