«Debaixo desses tectos de mil cores, em cada rua, de rua em rua, o povo canta e baila de há dois séculos (ou mais?) a esta parte» — assim descrevia o jornal República, dirigido por Raul Rego, as Festas do Povo de Campo Maior, em setembro de 1972. Nessa edição, o jornal contabilizava 80 ruas floridas e apelidava a festa de «um maravilhoso poema de papel». Ao longo dos anos, surgiram outras definições, mas talvez nenhuma tão certeira quanto esta — ainda que os dois séculos referidos pelo República pequem, porventura, por algum exagero.
Facto documentado é que, em 1893, houve festa. «Alguns indicadores históricos remetem a génese destas comemorações para a festa em honra do padroeiro da vila, São João Baptista, realizada pela primeira vez em 1893 e organizada por uma Comissão Popular que, devotamente, o homenageava», escrevem os autores de «Festas do Povo de Campo Maior – Toda a História», livro que chega agora às bancas, numa edição da Booksfactory.
Cláudia Poeiras, João Fernando Vinagre e Paulo Lavadinho definem a obra como «um documento histórico e humano», ancorado num amplo registo fotográfico. O livro «reúne memórias, testemunhos e imagens de um dos maiores exemplos de arte popular e participação comunitária que existem em Portugal». E «fala das tradicionais saias, que ninguém dispensa nesta bela vila raiana do Alto Alentejo. Fala das cerca de 100 ruas engalanadas, dos artistas anónimos que, na madrugada de 8 de agosto, transformam Campo Maior num lugar que parecerá saído de um sonho».
Comecemos… pelo início. Festas em honra de São João Baptista foi, como se disse, a designação utilizada em 1893 e ainda usada em 1921. A justificação para essa designação, sublinha o antropólogo José Portugal, coordenador técnico da candidatura a Património Imaterial, «tem origem em algumas efabulações associadas a factos históricos que ajudam a construir um mito das origens das Festas: o culto de São João Baptista, como padroeiro de Campo Maior, remonta, provavelmente, ao início do século XVI».
Reinava por esses anos D. João III — que a história registaria como o «Piedoso» — quando Campo Maior foi atingido pela peste, o que levou a população a abandonar a vila e a instalar-se nos arrabaldes. «O fim da peste foi atribuído à intervenção do Santo, em honra de quem se construiu uma igreja», assinala José Portugal, acrescentando que «as festas que se faziam, pelo menos desde o início do século XVIII até meados do século XIX, tinham um caráter acentuadamente religioso e comemorativo», com missa solene e procissão.
Francisco Pereira Galego, autor de «Campo Maior – As Festas do Povo: Das Origens à Actualidade» (Livros Horizonte, 2004), citado na obra agora lançada, elenca alguns dos factos “históricos” atribuídos pelo povo à intervenção de São João Baptista, o santo que, além da peste, salvou também os habitantes da vila «das aflições de um cerco que pusera em risco os seus bens e as suas vidas».

Foi em 1712 no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola, envolvendo várias monarquias europeias. «Uma guerra que a população não entendia, não queria, nem provocara, mas que lhe tinham imposto. Uma guerra que a obrigara a suportar, até ao limite da coragem, um pesado bombardeamento de que resultara a destruição de parte dos edifícios da vila, entre eles a própria igreja de São João. Mas, por esforçada intervenção do Santo, a vila fora salva da derrota, da pilhagem e da ocupação», escreve.
Chegados a 1893, escrevem os autores de «Festas do Povo de Campo Maior – Toda a História», um grupo de jovens «ligados às atividades do comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta», conhecidos como «artistas», decide retomar a celebração das Festas em honra de São João Baptista, entretanto interrompida, dando-lhe um carácter que as começa a aproximar dos nossos dias. «Foi assim que as celebrações passaram a ser conhecidas como Festas dos Artistas».
Interrompidas em 1910, na sequência da implantação da República, em 1921 realizam-se entre 3 e 6 de setembro, com um programa que incluiu a cerimónia religiosa, fogo de artifício, bailes populares, «imponentes touradas à vara larga» e, claro, a «vistosa e geral ornamentação de todas as ruas e largos da vila». No ano seguinte, o programa é muito idêntico, com a comissão de festas a agradecer ao povo de Campo Maior «e bem assim a todos que auxiliaram com donativos, para fazer face às tão grandes despesas» que o evento envolveu.
De acordo com Cláudia Poeiras, João Fernando Vinagre e Paulo Lavadinho, a partir de 1921 as festas passaram a realizar-se «por vontade do povo e com o envolvimento direto da comunidade, consolidando-se definitivamente a designação de Festas do Povo». O cartaz de 1923 já comprova a mudança de designação, anunciando o programa das Festas do Povo da Leal e Valorosa Vila de Campo Maior.
«Na década de 1950» — acrescentam os autores do livro — «começa a notar-se um crescente cuidado estético na ornamentação das ruas». Os postes e os canteiros «passam a ser decorados com flores cada vez mais elaboradas, sofisticadas e de grande originalidade» e, progressivamente, «os ramos de buxo e outros elementos vegetais vão sendo substituídos por novas soluções decorativas».
«O papel surge então como elemento central na ornamentação e a introdução da iluminação elétrica permite que a festa se prolongue noite dentro. O impacto destas transformações fez-se sentir não apenas em Portugal, mas também nas localidades espanholas mais próximas da fronteira», acrescentam.
Atelier coletivo
Pelas páginas de «Festas do Povo de Campo Maior – Toda a História» passa «não apenas uma festa, mas o retrato de uma comunidade que, geração após geração, continua a transformar papel em arte e dedicação em identidade». Desde logo porque, como assinalam os autores, «as flores não nascem do papel», antes «de um povo inteiro que aprende a transformar espera em beleza». Dito de outra forma: por detrás de cada rua florida «existe um património de gestos repetidos em silêncio, mãos que recortam, que enrolam, que ensinam sem vaidade». Saberes que se transmitem de pais para filhos, num património imaterial que «vive nas casas abertas das ruas, nas noites longas de trabalho, na partilha silenciosa de um saber que atravessa gerações».
É uma festa, acrescentam, maior «do que os olhos vêem», um evento «genuinamente popular, cuja realização depende dos próprios campomaiorenses, resultando da vontade e do querer comum de um povo, da alma e do espírito de uma cultura».

«Festas do Povo de Campo Maior – Toda a História»
Cláudia Poeiras, João Fernando Vinagre e Paulo Lavadinho
Ilustrações de Miguel Silva
Booksfactory Editores
108 páginas
19,90 euros











3 Responses
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Clotilde Morais, todas as respostas aqui: https://www.clubedosamigosdolivro.pt/product/livro-festas-do-povo-de-campo-maior
Excelente livro, transmite através de textos e imagens aquilo que é a identidade de um povo( Campo Maior ) que através dos tempos tem na expressão artística, união da população e na perpetuação dos valores e costumes culturais uma identidade única