Trata-se de «perceber a pura beleza que o Zeca tinha na sua música», diz Pedro do Carmo. «Este é o resultado de três anos de pesquisa, de performance e de escuta, sendo a concretização de um ciclo que foi adaptar Zeca Afonso, na sua vertente musical, para dois violoncelos, de uma forma pedagógica que estimule o desassossego, como diria o próprio Zeca», acrescenta.
O projeto, que culmina no livro disponível ‘online’, é apresentado amanhã, com um concerto, no O’Culto da Ajuda, em Lisboa, no dia seguinte, quarta-feira, na Estação das Artes, Santa Clara-Sabóia, em Odemira e, na quinta-feira, dia 23, no espaço BOTA, Anjos, em Lisboa.
Zeca Afonso – Estudos Musicais para Dois Violoncelos traduz-se numa publicação de acesso aberto, disponível no site do Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa, para uso pedagógico, de investigação e como recurso de pesquisa.
O projeto foi financiado em 10 mil euros pela Direção-Geral das Artes, um apoio que se revelou curto para a investigação realizada. Ainda assim, trata-se de «um trabalho realizado com muito prazer», garante Pedro do Carmo.
A publicação dirige-se «a alunos com algum domínio musical, quando começam a profissionalizar-se, ou quando entram para o Conservatório, e já sabem que querem seguir música», numa «altura em que se deixa de abordar o repertório português, sobretudo na formação clássica».
O violoncelista recorda o seu mestre, Pedro Gaio Lima (1961-2021), professor e violoncelo-solista da Orquestra Metropolitana de Lisboa, entre outras funções em Portugal e em orquestras europeias, a quem a publicação é dedicada e que foi uma referência para o trabalho.
Pedro do Carmo refere que, segundo Gaio Lima, «Zeca Afonso tem muitas mais-valias no ensino da música» e que a música popular devia «ser igualmente ensinada como é Bach ou Schubert, no ensino da música erudita ou de um instrumento como o violoncelo».
Paulo Gaio Lima considerava que «a música do Zeca era subexplorada», por estar associada ao ativismo político. «Na perspetiva do Paulo, o que ele nos dizia era que o Zeca faz mais do que isso — era um experimental, uma pessoa que experimentava imenso, que descobriu formas de expressão que ia buscar a muitos sítios diferentes, e era um génio musical», sublinha.
Sobre o ensino da música nos conservatórios, Pedro do Carmo lamenta que os compositores estudados «sejam todos importados», afastando os alunos do seu contexto e do seu passado. «Há uma lacuna grande e nós próprios sentimos isso, e fizemos este projeto nesse sentido. Estamos a estudar música, pagamos as nossas propinas, para depois nem percebermos as nossas origens nacionais. E o Zeca também tem isso».
«Paulo tirava o bom sumo de tudo. Temos sempre alguma coisa a aprender. Esta é uma das boas memórias que tenho dele: o entusiasmo e a capacidade de ver coisas boas em tudo, para nos tornarmos melhores músicos, melhores pessoas, mais cultas. E com o Zeca era a mesma coisa», diz o violoncelista, que cresceu com a música de José Afonso (1929-1987). «A nossa geração cresceu com o 25 de Abril de 1974 e conhecemos o Zeca e respeitamo-lo».
Paulo Gaio Lima foi quem revelou a Pedro do Carmo «o Zeca artista por detrás da sombra do Zeca ativista». Ao longo da investigação, os autores descobriram «um Zeca músico, atento e crítico, um artista e não um político». O papel de intervencionista político acabou por ocultar o de músico «livre e exigente», acrescenta.
José Afonso não estudou música, «mas sabia muito bem o que queria, investigava, escutava, bebia em muitas fontes», o que se foi refletindo na sua obra. «E isso é uma grande aprendizagem para quem vem da música clássica».
Pedro do Carmo cita Gaio Lima para sublinhar a importância de «não termos vergonha de onde viemos musicalmente» e de lutar «por coisas melhores, sem negar o passado tradicional, a música tradicional, as origens e o colonialismo africano, com simplicidade e naturalidade».
O violoncelista sintetiza a essência do projeto: «Perceber a pura beleza que o Zeca tinha na sua música». E explica: «Transmitir essa beleza não é fácil para quem vem da música clássica, porque não há partituras nem referências. Temos de sair da nossa zona de conforto e aprender com a música para a dar a conhecer às pessoas».
O livro é também uma homenagem a Paulo Gaio Lima e a José Afonso, «colocando-os numa espécie de diálogo», contextualizando-os e reunindo testemunhos sobre ambos numa primeira parte introdutória, com capítulos como «Quem foi José Afonso» ou «Traduzir José Afonso no violoncelo».
Na segunda parte, são abordadas 11 canções com os respetivos arranjos. «Cada canção é um mundinho», afirma. Cada uma inclui a respetiva partitura, «integrada com os elementos extramusicais, porque sem o poema é impossível tocar a partitura. Sem ler o poema não é possível perceber a frase musical».
«Ler apenas a partitura vai suscitar dúvidas e obrigar a regressar ao contexto, nomeadamente ao poema. E a forma como é lido vai influenciar a interpretação», argumenta ainda Pedro do Carmo, segundo o qual «para interpretar o Zeca é preciso ter atenção a todos os elementos extramusicais e sobretudo escutar o original».
No âmbito do projeto, os investigadores, que residem nos Países Baixos, testaram os arranjos junto de público neerlandês, com «reação muito positiva».
Pedro do Carmo e Lluïsa Paredes estudaram com Paulo Gaio Lima, o primeiro na Escola Superior de Música de Lisboa, a segunda na Academia Nacional Superior de Orquestra – Metropolitana. Eva Aguilar formou-se na Escola Superior de Música de Lisboa
O livro está disponível online no site do Centro de Investigação e Informação da Música Portuguesa.
«Não creio que uma geração de cantores possa subsistir sem uma forma que os impulsione, sem uma raiz genuína, originada na nossa tradição oral», escreveu José Afonso na citação que abre a obra. «Essa raiz existe, mas é em grande parte ignorada ou, o que é pior, menosprezada».












