A jornalista e escritora não hesita em afirmar que a dimensão da palavra no percurso do arquiteto Álvaro Siza Vieira, prémio Pritzker em 1992, foi o que mais «a fascinou» ao longo das tardes de sábado em que viajou até ao Porto para a série de «conversas lentas» que sustentam este quarto volume da coleção A Última Lição, com a chancela da Contraponto.
«Aquilo que mais me fascinou foram os textos escritos por ele, a sua dimensão poética, a sua imensa cultura. Apesar de ele se considerar um homem inculto, a verdade é que tem uma cultura extraordinária, e ele é um poeta. É um arquiteto com alma de poeta, é isso mesmo», enfatiza.
Em jeito de prefácio, a autora escreve que lhe «é fácil conversar com arquitetos», convidando o leitor para uma dança entre a caneta e o papel, traço que distingue Siza Vieira, a quem se refere como «o homem que desenha enquanto fala».
O ritual do arquiteto, que queria ser escultor e que vai procurando as palavras enquanto desenha sobre maços de tabaco cobertos a papel branco, cumpre-se também nesta obra, numa coreografia de memórias, pensamentos, revelações, projetos e uma inesgotável vontade de criar.
«Esta imagem que usei logo no início, do homem que desenha enquanto fala, é porque isso é a cabeça dele, a tal capacidade de sonhar projetos enquanto está a dormir. Amanhã, se o Álvaro Siza Vieira deixar de trabalhar, vai no instante, porque o que o alimenta são estas solicitações do mundo e esta forma profundamente curiosa com que encara aquilo que está à volta. É uma curiosidade quase de menino», observa a autora, que defende que «compreender a infância de um entrevistado» é um caminho para «compreender o resto da sua vida».
«Fiz questão de começar pela infância e tivemos dois sábados longos sobre a infância, as memórias mais antigas, a ideia da guerra, porque ele lembra-se da Segunda Guerra Mundial, lembra-se de colar papel nas janelas por causa dos bombardeamentos, dos submarinos alemães, dos espiões e da Exposição do Mundo Português, que tentou reproduzir com fósforos, papel e cartolina», recorda.
Humor, gentileza, diálogo, compreensão do mundo e o prazer da escrita são alguns dos atributos que Patrícia Reis vai revelando sobre o arquiteto de Matosinhos, ora abordando a dimensão do estudante, do professor e da família, ora explorando os projetos que assina.
Seja na China ou na Coreia, onde o seu trabalho é acolhido com «mais entusiasmo», seja em obras como a nova Biblioteca da Universidade de Coimbra, com construção prevista para 2026, a Avenida da Ponte, no Porto, «uma obsessão», o bairro da Malagueira, em Évora, o Pavilhão de Portugal na Expo 98, o Chiado ou a Igreja de Santa Maria, em Marco de Canavezes.
É longo o percurso de Siza Vieira, que «não desiste com facilidade», mesmo quando desaconselha a profissão, por considerar que «o arquiteto deixou de ser importante», e quando os prémios, «que fazem bem ao ego», também lhe «provocam mais problemas do que outra coisa».
Há também o homem que acredita em extraterrestres, que se assume feminista, que reflete sobre a morte — «coisa chata de se pensar» — e que já não viaja devido a limitações físicas, mas continua a observar o mundo «ao lado e ao longe» com uma lucidez que desafia a idade.
E há o escritor que escreve como quem desenha, amante das palavras e da poesia, como os haikus. «Importa ver para melhor inventar», afirma o arquiteto, que «se constrói e vai construindo».
«Imaginar para inventar é um dos modos de funcionamento daquela cabeça. Essa capacidade de querer continuar a ver e de se surpreender — isso é o melhor de tudo», conclui Patrícia Reis, sugerindo que esta poderá não ser, afinal, a última lição de Álvaro Siza Vieira.
Álvaro Siza Vieira, nascido em Matosinhos há 92 anos, é o arquiteto português mais reconhecido internacionalmente, tendo recebido dezenas de distinções ao longo da carreira.











Uma resposta
§ 1: préMIO Prémio Pritzker em 1992,
§ último: distinções ao longo da carreira, incluiNDO o Prémio Pritzker, em 1992. (não ficaria mal se, entrelinhasse: o atrás citado Prémio Pritzker, em 1992.