Luís Godinho: «Uma nova liderança para resgatar o Politécnico de Beja»

A eleição de Aldo Passarinho abre uma oportunidade para inverter quatro anos de perda de relevância e recentrar o IPBeja na sua missão de recuperar exigência e ligação ao território.

Luís Godinho (texto)

O Instituto Politécnico de Beja entra agora numa nova fase. A eleição de Aldo Passarinho para a presidência da instituição não é apenas uma mudança de liderança — é, sobretudo, a melhor oportunidade do próprio Politécnico para inverter o ciclo de perda de relevância que se consumou nos últimos quatro anos.

O diagnóstico é conhecido e não deve ser ignorado. O número de estudantes tem vindo a cair, a ligação ao território enfraqueceu e a capacidade de afirmação científica, pedagógica e institucional ficou aquém do potencial da região. Durante esse período, o IPBeja pareceu acomodado a uma posição secundária, à deriva, afastando-se daquilo que deveria ser a sua verdadeira missão: liderar o pensamento, a inovação e a qualificação num território que enfrenta desafios estruturais exigentes.

Nesse contexto, a escolha de Aldo Passarinho surge como uma decisão acertada e, acima de tudo, necessária. A entrevista concedida à “Alentejo Ilustrado” deixa sinais claros de uma liderança consciente do momento crítico da instituição e portadora de uma visão que procura recentrar o Politécnico no essencial: conhecimento, exigência e ligação ao território.

Ao contrário de abordagens redutoras, centradas em soluções infraestruturais como forma de atrair estudantes, o novo presidente aponta para uma estratégia mais ampla e estruturante. Reconhece que o futuro do IPBeja não depende apenas de residências — muito menos das que permanecem encerradas — ou de medidas avulsas, mas da sua capacidade de afirmar qualidade científica, reforçar a investigação, aprofundar relações com o tecido económico e participar ativamente nos grandes debates regionais e nacionais.

Essa mudança de foco é decisiva. Uma instituição de ensino superior não se afirma pela quantidade de camas disponíveis, mas pela relevância do conhecimento que produz, pela qualidade dos profissionais que forma e pela influência que exerce na comunidade onde se insere. É precisamente nesse plano que o IPBeja precisa de se reconstruir.

Beja continua a estar no centro de uma região onde os desafios são imensos e onde o papel do conhecimento é cada vez mais determinante. A agricultura, a gestão da água em torno de Alqueva, as alterações climáticas, o envelhecimento da população ou a necessidade de diversificação económica exigem respostas informadas, inovadoras e sustentadas. O Politécnico não pode ser um espectador distante desses processos — tem de ser um protagonista ativo.

Aldo Passarinho compreende essa exigência. Ao colocar a tónica na valorização da investigação, na abertura à comunidade e na construção de uma instituição mais exigente e mais ligada ao mundo real, aponta um caminho que rompe com a lógica de estagnação dos últimos anos.

Mas a ambição, por si só, não chega. O desafio que agora se coloca é o da concretização. Será necessário mobilizar a comunidade académica, atrair talento, criar condições para investigar e, sobretudo, afirmar uma cultura institucional baseada na exigência e na responsabilidade. Sem isso, qualquer mudança ficará pela superfície.

O IPBeja precisa de se reencontrar com a sua missão fundadora: formar profissionais qualificados, produzir conhecimento relevante e contribuir para o desenvolvimento do território. E precisa de o fazer com urgência.

O resultado desta eleição abre uma oportunidade para esse reencontro. Cabe agora transformar essa expectativa em ação. Porque mais do que uma mudança de nomes, o que está em causa é a capacidade de devolver ao Politécnico de Beja o papel que nunca deveria ter perdido — e de lhe devolver serenidade, após um mandato marcado por forte conflitualidade interna e por episódios que fragilizaram o seu funcionamento. Sem estabilidade, nenhuma visão, por mais ambiciosa que seja, poderá verdadeiramente concretizar-se.

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