Luís Godinho: “Uma região à margem dos carris”

A ferrovia não pode ser encarada um luxo regional, é uma infraestrutura económica, ambiental e socialmente estratégica. Sem uma rede funcional, o Alentejo continuará a perder competitividade e coesão. Luís Godinho, jornalista (texto)

O Alentejo representa cerca de um terço do território nacional, mas continua a viver na periferia das prioridades do país. Talvez por sermos poucos, talvez por hábito de quem vê a região do outro lado do Tejo. Poucas áreas expõem de forma tão clara esta contradição como a ferrovia. Num tempo em que o discurso político está saturado de referências à mobilidade sustentável, à coesão territorial e à transição climática, a realidade ferroviária permanece, no Alentejo, presa a um atraso difícil de justificar.

Vamos a alguns exemplos. A eletrificação da Linha do Alentejo, entre Casa Branca e Beja, continua a marcar passo. Os utentes são obrigados a viajar em automotoras envelhecidas, num serviço que pouco condiz com os padrões que o próprio Estado diz querer promover. A notícia mais relevante do “avanço” desta obra, prometida há décadas, foi um corte de 60 milhões de euros no financiamento previsto por fundos europeus.

Na ligação entre Évora e Lisboa, a procura supera muitas vezes a oferta: nem sempre é fácil conseguir bilhete e a necessidade de mais comboios e horários ajustados é evidente. Já Portalegre não está formalmente fora da rede ferroviária, mas é como se estivesse. Existem apenas dois comboios diários para Lisboa. O primeiro parte às 14h10, a viagem aproxima-se das três horas e, quando se chega à capital, já não há ligação de regresso no mesmo dia. Não é mobilidade: é isolamento.

As ligações internas entre as principais cidades da região são praticamente inexistentes. Viajar de Évora para Portalegre de comboio pode demorar 6 horas e 24 minutos (leu bem!), com partida às 09h06 e chegada às 15h30. Num país europeu do século XXI, este cenário é difícil de compreender — e mais ainda quando a ferrovia é apresentada como eixo central das políticas de transporte.

Outros projetos arrastam consigo atrasos e incertezas. A futura ligação de alta velocidade entre Évora e Caia foi anunciada em 2018 como um marco histórico para a Europa e para a consolidação da rede transeuropeia de transportes, com inauguração prometida para o primeiro trimestre de 2022. A obra derrapou – e não foi pouco! – só devendo estar operacional lá para o início de 2027. Pior: continua por esclarecer se haverá paragens que sirvam efetivamente o território. A ideia de uma plataforma logística entre Alandroal e Vila Viçosa permanece indefinida, alimentando o receio de que a região venha apenas a ver passar os comboios, sem deles beneficiar.

Situações como a de Alcácer do Sal ilustram bem esta lógica de exclusão. A ligação ferroviária ao centro de Lisboa poderia rondar os 40 minutos, com tudo o que isso significa de atração de novos residentes e fixação de casais jovens num concelho marcado pelo despovoamento. Poderia — mas não existe.

O comboio passa por Alcácer, sem parar, obrigando os passageiros a deslocações rodoviárias até Grândola ou Pinhal Novo. O mesmo sucede no eixo sul: a ligação Beja–Funcheira, encerrada há anos num dos governos de José Sócrates, continua por reabrir. Quem queira viajar de comboio entre Faro e Beja enfrenta percursos que podem ultrapassar as cinco horas, com desvios pelo Pinhal Novo que roçam o absurdo.

A tudo isto soma-se a falta de capilaridade da rede. Há três décadas, recordemos, andava Cavaco Silva entretido a desativar 230 quilómetros de linhas e ramais por todo o Alentejo, reduzindo drasticamente a malha ferroviária regional – nesse período foram encerrados os ramais de Montemor-o-Novo, Mora, Moura, Portalegre (que fazia a ligação a Estremoz) e Reguengos de Monsaraz.

As consequências são visíveis: maior dependência do automóvel, custos acrescidos para famílias e empresas, menor atratividade para investimento e população.

A ferrovia não pode ser encarada um luxo regional, é uma infraestrutura económica, ambiental e socialmente estratégica. Reduz emissões, diminui a pressão sobre a rodovia, liga mercados, aproxima pessoas de serviços de saúde, ensino e cultura. Sem uma rede funcional, o Alentejo continuará a perder competitividade e coesão.

A região precisa de pensar a sua mobilidade de forma integrada e ambiciosa. É urgente definir um plano ferroviário regional, claro nas prioridades e sustentado em dados, e defendê-lo junto das instâncias nacionais e europeias. Para ter sucesso, esse esforço deve envolver autarcas e empresários, em articulação com regiões vizinhas como o Algarve, a Andaluzia e a Extremadura.

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