
Após se ter demitido, em 2025, do cargo de assessor do então vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa (lembram-se os motivos?), Tiago Abreu, figura secundária do CDS, regressou ao combate político (?) em Elvas, onde por diversas vezes foi candidato autárquico.
Pouco atento às redes sociais — culpado me confesso —, só agora tomei contacto com o método escolhido para esse regresso: vídeos gravados ao telemóvel, críticas a uns e a outros, insinuações, desabafos, tudo despejado nas plataformas para entreter a turba.
O episódio de 11 de setembro é ilustrativo. Numa reunião da Câmara de Elvas com os moradores dos 132 fogos de habitação social a requalificar — para a qual, segundo o presidente da autarquia, só estes tinham sido convidados —, o antigo vereador insistiu em ficar e em filmar, contra a vontade expressa de quem conduzia a sessão.
Seguiram-se gritos, disputas por telemóveis, confrontos físicos e, por fim, a intervenção da Polícia de Segurança Pública, que o convenceu a sair. Ora, um encontro com famílias que aguardam obras nas suas casas acabou transformado em espetáculo, e a política local ficou mais pobre.
Quem viu e quem vê o CDS? O partido fundado em 1974 por Diogo Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa é herdeiro da tradição democrata-cristã que, na Europa do pós-guerra, deu nomes como Robert Schuman, Konrad Adenauer ou Alcide De Gasperi. Schuman escreveu que a Europa se faria «por meio de realizações concretas que criem, antes de mais, uma solidariedade de facto».
É essa a matriz: responsabilidade, sentido de Estado, atenção às causas sociais, respeito pelas instituições. Em Portugal, o CDS foi um dos partidos fundadores da democracia e, mesmo quando votou contra a Constituição de 1976, nunca deixou de disputar o poder dentro das regras que ela estabeleceu.
Nada disto se reconhece numa política feita de vídeos inflamados e de empurrões em salões de bairro. Esse registo é mimético da extrema-direita, interessada em desacreditar as instituições para se apresentar como alternativa a elas. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em «Como Morrem as Democracias», lembram que os regimes democráticos não vivem só das leis, mas de normas não escritas de tolerância mútua e de contenção.
E há uma lição eleitoral conhecida, enunciada com cinismo por vária gente: os eleitores preferem o original à cópia. Quanto mais se aproximar da prática do Chega, mais irrelevante se tornará.
Em rigor, tendo em conta o que se vê de Tiago Abreu, essa irrelevância não é preocupante. O problema está no caminho que percorre até lá chegar. Pelo meio, comportamentos destes minam a confiança dos cidadãos nas instituições — o que Pierre Rosanvallon descreveu como a política na idade da desconfiança. E isso, sim, é mau para a democracia. Mau demais para ficarmos em silêncio.










