Manuel Muacho: «As flores que o tempo não murchou em Campo Maior»

As Festas do Povo de Campo Maior regressam em agosto de 2026, 11 anos depois da última edição. A alegria do regresso não apaga o alerta: nenhuma classificação da Unesco protege sozinha uma tradição. Quem a mantém viva são as comunidades que a praticam — e a transmitem. O verdadeiro risco não é o esquecimento dos outros. É o nosso próprio desinteresse.

Manuel Muacho, sociólogo (texto)

A memória não se herda: guarda-se, trabalha-se e passa-se. Nenhum diploma internacional salva uma tradição que o próprio povo deixa de praticar. O regresso das Festas do Povo de Campo Maior, em agosto de 2026, 11 anos depois da última edição, é uma alegria e um alerta. A alegria é evidente. O alerta exige que o digamos em voz alta: o maior risco que o património cultural imaterial enfrenta não é o esquecimento dos outros — é o nosso próprio desinteresse.

Há uma cena que ficou gravada na memória coletiva de quem esteve presente na apresentação oficial das Festas do Povo de Campo Maior 2026, em janeiro último, no Centro Cultural. Uma avó e um neto em palco, numa encenação simples e tocante, simbolizando a passagem de testemunho entre gerações. Não foi escolhida por acaso. 

Quem organizou aquele momento sabia o que estava a dizer, mesmo sem o dizer explicitamente: que as Festas do Povo não existem por decreto, nem por classificação internacional, nem por vontade de nenhuma autarquia. Existem porque, em cada rua de Campo Maior, alguém sentou uma criança ao lado e lhe ensinou a dobrar papel, a cortar pétalas, a armar uma flor que nunca vai murchar da forma que as flores murcham — porque é feita de determinação, não de biologia.

Este é o verdadeiro estatuto de uma tradição secular. Não o que consta nos arquivos da Unesco, mas o que passa de mão em mão, de boca em ouvido, de pátio em pátio, nas noites de inverno em que quatro mil voluntários transformam as suas casas em oficinas improváveis de beleza coletiva.

As Festas do Povo de Campo Maior têm mais de cem anos de história documentada. Nasceram no final do século XIX como celebração popular espontânea, sem patrocínios, sem direção artística externa, sem julgamentos de estilo. Os moradores de cada rua competiam entre si — e ainda competem — para saber quem produzia a decoração mais inventiva, mais exuberante, mais capaz de transformar um beco estreito do Alentejo num corredor de sonho. 

Rosas, cravos, tulipas, glicínias e papoilas de papel vestem o centro histórico durante dias. As «saias» — quadras cantadas e bailadas ao som de pandeiretas e castanholas — enchem a noite de uma alegria que não tem equivalente noutro ponto do país. Descrever as Festas do Povo é sempre ficar aquém do que elas são. É uma daquelas experiências que só a presença autoriza a compreender.

Precisamente por isso, os 11 anos de ausência que agora terminam devem ser lidos como o que realmente foram: um sinal de alarme. Não um sinal de que a tradição morreu — ficou bem viva, como agosto de 2026 vai provar —, mas de que as condições em que ela sobrevive são frágeis, dependentes de uma energia comunitária que pode esmorecer, e que ninguém pode dar por garantida.

Em 2021, a Unesco inscreveu as Festas do Povo de Campo Maior na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade. Foi um reconhecimento merecido e historicamente justo. Mas é necessário ser honesto sobre o que este tipo de distinção faz — e sobre o que não faz. A Unesco não conserva tradições. Identifica-as, valoriza-as, contribui para a sua visibilidade internacional. O trabalho de manutenção, transmissão e renovação pertence sempre às comunidades que as praticam. Não existe nenhum mecanismo automático pelo qual uma inscrição numa lista protege uma prática cultural da extinção por desuso. A história está cheia de patrimónios reconhecidos que, apesar disso — ou às vezes por causa disso —, foram reduzidos a espetáculo turístico, esvaziados da sua substância comunitária, transformados em produto sem alma.

O risco é real e merece ser nomeado. Quando uma tradição popular é classificada como «património da humanidade», existe sempre a tentação de a enclausurar: de a tornar imutável em nome da autenticidade, de a profissionalizar em nome da qualidade, de a institucionalizar em nome da sustentabilidade. Cada um desses movimentos, tomado isoladamente, pode parecer razoável. Em conjunto, são o caminho mais direto para matar o que a tradição tem de essencial: o seu carácter vivo, imperfeito, voluntário e gratuito.

A força das Festas do Povo está exatamente no que as torna inclassificáveis pelos critérios da cultura oficial. Não há um autor. Não há um curador. Não há uma versão definitiva. Há um povo que, quando quer — e só quando quer —, decide encher as suas ruas de flores que ninguém lhe encomendou. Este modelo de organização popular é extraordinariamente raro no panorama cultural europeu e deve ser tratado como o bem precioso que é. Portugal tem poucas tradições com esta escala de participação voluntária, esta capacidade de mobilização sem estrutura hierárquica visível, este poder de afirmação identitária que não precisa de nenhuma tutela para se afirmar.

Mas há outro problema, menos visível e igualmente sério: o padrão de irregularidade que caracteriza as Festas do Povo é, ao mesmo tempo, a sua maior virtude e a sua maior vulnerabilidade. Não se realizam ciclicamente. Realizam-se «quando o povo quer». Esta formulação, poeticamente justa, esconde uma questão prática de enorme importância: como se garante a transmissão de saberes entre uma edição e a seguinte, quando o intervalo pode ser de 11 anos? Quem aprendeu a técnica de construção das estruturas de papel em 2015 tem hoje 11 anos a mais. Alguns já cá não estão. Os mais novos que participaram eram crianças. Existe um risco real de que, a cada intervalo prolongado, se perca uma camada de conhecimento técnico que não está escrito em nenhum livro — porque é conhecimento incorporado, aprendido pelo gesto, pela imitação, pela repetição.

Este é o verdadeiro trabalho que a classificação da Unesco deveria inspirar: não o da promoção turística — que virá por si —, mas o do registo sistemático, da pedagogia ativa, da transmissão intencional. Campo Maior tem escolas. Tem associações. Tem uma autarquia com intenção declarada de apoiar o evento. O momento que se aproxima é uma oportunidade única para investir na documentação viva desta tradição: registar os métodos, catalogar as técnicas, criar espaços de aprendizagem que funcionem nos anos em que não há festas, para que nos anos em que há festas o saber já esteja lá, disponível, atualizado, partilhado entre gerações.

Portugal tem uma relação ambivalente com o seu próprio património cultural imaterial. Quando algo é reconhecido como relevante, a tendência institucional é a de o capturar, enquadrá-lo em programas, atribuir-lhe financiamentos condicionados, fazer dele um vetor de uma política cultural que responde mais às métricas do turismo do que às necessidades das comunidades. A visibilidade não é sinónimo de vitalidade.

Campo Maior tem uma vantagem que deve ser preservada a todo o custo: a sua resistência histórica à instrumentalização. As Festas do Povo nunca foram de nenhum partido. Nunca dependeram de nenhum governo para existir. Foram sempre dos campomaiorenses, e só deles. 

Este orgulho de autonomia é o seu melhor escudo contra a banalização. Mas não é suficiente por si só. É preciso que as gerações mais jovens sintam as festas como suas — não como herança pesada que se carrega por obrigação, mas como expressão de uma identidade que escolhem, livremente, continuar.

Agosto de 2026 não é apenas a data de regresso de um evento extraordinário. É um teste ao compromisso coletivo com uma forma de saber fazer e de estar em comum que demora meses a preparar, dura nove dias, e pode desaparecer para sempre se ninguém se der ao trabalho de a ensinar. A memória não se herda automaticamente. Guarda-se, trabalha-se e passa-se. As flores de papel de Campo Maior só duram enquanto houver mãos que as saibam fazer — e enquanto houver vontade de as fazer. Essa vontade existe. Onze anos de espera não a apagaram. O que nos cabe a nós — a todos os que olhamos de fora e admiramos — é garantir que não precisemos de esperar mais 11 para voltar a vê-la.

Fotografia: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo

3 Responses

  1. As festas de Campo Maior são ao rosto da tradição do seu povo. Começando pelo trabalho e dedicação dos campomaiorense desde a confecção das flores de papel ,á noite magica onde todos ao som das “saias”,transformam as suas ruas em fantásticas obras de arte coloridas ,cheias de alegria criatividade e amor. Bem hajam de novo as “festas da flor” foi no privilégio de participar nelas algumas vezes que aprendi quanta beleza essa arte tem. A minha gratidão aos campomaiorenses…e não deixem murchar as flores.
    L.R.

  2. Amo a festas da minha terra são as mais lindas de Portugal que a tradição continue belo Campo Maior! 💙🙏💙🇵🇹💙🇵🇹🩷🩷🩷💙💙😘🙏

  3. Festas do povo de Campo Maior sao as festas das flores mais lindas de Portugal 👏🏻👏🏻🌹💪🏻💪🏻💪🏻👊🏻👊🏻🩷💙🩷💙🩷💙🩷💙🙏🇵🇹🇵🇹🇵🇹

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