Não foi sem surpresa que uma parte significativa do país assistiu, em novembro, a um momento musical no Pavilhão de Portugal, durante a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP 30), realizada em Belém do Pará, no Brasil.
O concerto de António Zambujo aproximava-se do fim quando a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, subiu ao palco para se juntar ao músico na interpretação de um dos temas icónicos do cante alentejano: “Castelo de Beja,/ Subindo lá vais./ Tu metes inveja,/ Castelo de Beja,/ Às águias reais”.
As imagens rapidamente chegaram aos noticiários televisivos e circularam nas redes sociais, com Maria da Graça Carvalho a classificar aquele momento como “o ponto alto do dia”. Não foi, contudo, a primeira vez que ambos cantaram juntos.
Também em novembro, mas de 2019, a então eurodeputada recebeu no Parlamento Europeu uma delegação do Movimento Cívico “Beja Merece +” e, durante um encontro com eurodeputados e funcionários das instituições europeias, houve espaço para entoar algumas modas.
Para quem nada disto constitui surpresa é para os antigos colegas de escola da atual ministra, nascida em Beja a 9 de abril de 1955. Não há encontro de antigos alunos que não termine em polifonia.
Que memórias guarda da sua infância?
Guardo memórias de brincar no Jardim Público – estive lá agora a rever e está um bocadinho abandonado, era mais bonito na altura. Guardo as memórias da escola, andei na Escola do Salvador, que é ali ao pé do Jardim, depois no Liceu Nacional de Beja.
A cidade era muito diferente.
Era diferente. Eu gostava de passear, de andar a pé, ir ao campo, de ir à espiga, tive uma infância com muita liberdade de movimentos e lembro-me de passear e de cantar, que é algo que ainda faço quando estou com os meus amigos dessa altura. Quando vamos passear, cantamos canções alentejanas, um hábito que não existe noutras regiões. De vez em quando fazemos almoços ou jantares e cantamos, em vez de estarmos a falar de coisas.
Alguma moda em particular?
O Castelo de Beja surge sempre. Olhe, um grupo de amigos aqui de Beja foi ao Parlamento Europeu, quando eu era deputada, começámos a discutir as prioridades para a região, mas em pouco tempo começámos todos a cantar. E os outros eurodeputados, nomeadamente os alemães, que estavam ao lado, vieram ouvir porque as vozes eram lindíssimas. Estava lá o Zambujo, o Buba Espinho, o Jorge Benvinda… parece que um dos dons das pessoas que nascem aqui é cantar bem.
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Filha do arquiteto Aldemiro da Silva Carvalho, responsável pela reabilitação do café Luiz da Rocha, Maria da Graça Carvalho soube apenas há pouco tempo que o histórico estabelecimento reabriu precisamente no dia em que nasceu. No dia seguinte, o Diário do Alentejo publicava duas notícias: uma sobre a reabertura do café, outra a felicitar a família Carvalho “pela menina que tinha nascido”. A ligação ficou. Sempre que regressa a Beja, o Luiz da Rocha é paragem obrigatória.
A atual ministra confessa guardar “boas recordações” da infância, evocando “a liberdade” e “a vida simples”, os percursos a pé pela cidade, “andar em grupo com os amigos, cantar”. Em Beja, sublinha, “é impensável andar de carro, anda-se a pé”. Tal como fez momentos antes da entrevista, num percurso entre os Paços do Concelho e o Jardim Público, com regresso pela Rua D. Manuel I, pontuado por muitas paragens para cumprimentar quem passa ou recordar episódios da sua vida na cidade.
Aprendidas as primeiras letras na Escola do Salvador, seguiu-se o Liceu. “Tenho uma grande dívida de gratidão para com os meus professores, que me ensinaram a pensar e a organizar o pensamento, a ler muito”. Dos anos de formação no Liceu de Beja, não esquece os docentes de ciências, em particular Carmen Goinhas, “professora de física 24 por dia”, que aos fins de semana levava os alunos para acampamentos, ensinando-os a ver “a física na natureza”.
Em letras, o percurso foi um pouco mais sinuoso. Umas vezes porque não havia professor, outras porque mudava a meio do ano. Se o gosto por uma área do conhecimento pode ser moldado pelo entusiasmo de quem ensina, a Graça Carvalho estavam destinadas as ciências. “Tive uma educação que con- sidero de primeira, na escola pública, que me possibilitou ser muito boa aluna do Instituto Superior Técnico e receber o convite para fazer o doutoramento no Imperial College, precisamente porque tinha muito boas notas. Essa boa formação abriu muitas portas”, assegura.
Concluído o então 7.º ano do Liceu, foi estudar para o Técnico, onde se licencia em engenharia mecânica. Como é que surgiu essa opção, à partida muito pouco óbvia?
Ainda tenho o recorte de um jornal nacional que, nessa época, veio fazer uma reportagem ao Liceu de Beja, e perguntaram a alunos de várias turmas o que queriam ser quando fossem adultos. Eu tinha 13 anos, levantei logo a mão e disse querer ser engenheira mecânica. É impressionante… depois perguntaram porquê e eu respondi, sem hesitação, sem vergonha de falar para a comunicação social, o que nunca tinha acontecido, que gostava muito de energia. Havia na altura uma grande discussão sobre a energia nuclear, com vozes contra e outras a favor, e eu já achava aquilo tudo muito fascinante.
E o gosto pela política, pela causa pública, quando é que surge?
Surge mais tarde e muito por acaso. Eu era professora no Instituto Superior Técnico, trabalhava muito com o professor Diamantino Durão, familiar do Durão Barroso e ex-ministro da Educação (1991/92). No Governo de Durão Barroso houve uma crise grande no Ensino Superior relacionada com as propinas, dá-se a saída do ministro, era preciso encontrar rapidamente alguém que o substituísse a meio do mandato, pois havia estudantes na rua. Eu, sem nunca ter estado na política, sem nenhuma relação com a política uma vez que o meu trabalho tinha sido sempre de ciência e estudo – fui professora catedrática com pouco mais de 30 anos – fui convidada e aceitei ser ministra da Ciência e do Ensino Superior [2003/2004].
Foi um convite inesperado?
Foi um desafio completamente inesperado, mas que correu bem, porque continuei no segundo Governo e este é já o quarto em que estou. Mas o interessante é que uso as mesmas ferramentas intelectuais [em funções governativas] que uso na matemática ou na física.
Então como?
Analiso a situação, analiso os dados, faço cenários, vejo os prós e os contras de cada cenário e decido com o processo de otimização. O mesmo que ensino aos meus alunos na engenharia, é o que uso nas decisões dos assuntos mais complexos da política. No fundo, são assuntos complexos que se resolvem com a análise dos dados, simulação e otimização. É sempre o mesmo método. Depois há outra parte diferente, que é a componente ética. A que acrescem as restrições orçamentais. É o somatório das três que nos dá a decisão.

Em 2005, na sequência da dissolução do Parlamento pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, Pedro Santana Lopes perde as eleições legislativas e Maria da Graça Carvalho ruma à União Europeia, primeiro como conselheira de José Manuel Durão Barroso, à época presidente da Comissão Europeia, e depois como eurodeputada. No Parlamento Europeu permaneceria até 2024, com apenas um interregno de cinco anos.
Com a formação do Governo liderado por Luís Montenegro, foi convidada para assumir a pasta do Ambiente e da Energia. Uma meia surpresa. Não tanto pela área da energia — no Parlamento Europeu foi relatora principal do Regulamento de Proteção da União contra o Mercado Grossista da Energia e negociadora, pelo PPE, do relatório sobre o desenho do Mercado Elétrico Europeu — mas sobretudo pela acumulação com a tutela do Ambiente.
“O ambiente é um bocadinho mais fora do meu percurso académico. Não o clima, porque trabalhei muito nessa área, uma vez que está relacionada com a energia”, recorda a ministra. Reconhecendo tratar-se de um setor exigente, garante que o trabalho “está a correr bem” e que aplica o mesmo método no processo de decisão: “reunir o melhor conhecimento científico, avaliar as implicações éticas e as restrições instrumentais”.
A decisão política, sublinha, “tem de ser independente” dos grupos de pressão. “É importante ouvir os vários intervenientes e as várias opiniões sobre determinada matéria, mas a decisão é muito feita racionalmente por mim, independente das pressões de grupos. Tenho um espírito muito independente de grupos de pressão, sejam políticos, económicos, sociais ou ONG’s”, afirma.
A Água que Une – Estratégia Nacional para a Gestão da Água é uma das suas principais apostas. Em que ponto estamos?
Estamos a aplicar, há muitas obras já em curso. Porque era uma questão de urgência, de calamidade, começámos pelo Algarve. Quando nós chegámos ao Governo o Algarve tinha água para poucos meses. Depois começou a chover e, entretanto, já inaugurámos algumas obras, outras estarão prontas no final deste ano e, a maior delas, em 2027.
E o transvase do Alqueva para o Algarve, a partir do Pomarão?
Será para 28, foi lançado o concurso. Interessa ter as regiões ligadas, aquelas que estão perto. Está fora de questão fazer uma ligação do Norte para o Sul, que é caríssimo e tem problemas ambientais. Só em último caso é que se deveria pensar numa solução dessas. A próxima região a ter a nossa grande atenção será o Alentejo, principalmente a zona da costa, porque tem falta de água. Fizemos um decreto-lei com um novo modelo para a gestão da água em Sines para a utilização da água do mar. A instalação, que era da EDP, passou para as Águas de Santo André e serão eles a gerir a água salgada para a indústria, poupando a água doce.
A eficiência do perímetro do Mira…
… é péssima, temos de melhorar esse perímetro de rega. Se continuarmos com este ritmo de pedidos de investimento industrial em Sines teremos de fazer uma dessalinizadora, a ser construída pela Águas de Santo André e paga uma tarifa de água industrial.
Uma das críticas que tem sido feita a esta estratégia é que está muito desenhada à medida do regadio, da intensificação agrícola, que levará a maiores consumos. Não há aqui um paradoxo?
As obras que estão agora a decorrer são todas do sector urbano e industrial. Há um plano do Ministério dele para aumentar o regadio, mas é um plano com conta, peso e medida. É um plano com bom senso e tendo em conta a água que existe em Portugal. Temos de ter uma gestão cuidadosa da água. Haverá um aumento de regadios, vai até existir um aumento da quantidade de água que a EDIA pode ceder ao regadio, mas é tudo muito negociado, tudo muito calculado. Isso foi possível por causa do acordo com a Espanha para retirarmos mais 60 hectómetros cúbicos do Guadiana, 30 dos quais para a tomada de água para o Algarve, os restantes 30 ficam na EDIA. E houve também uma negociação com a EDP, que detém a concessão da exploração hidroelétrica de Alqueva e que nos permite utilizar mais água. Têm uma dotação de 500 hectómetros/ano que irá passar para pouco mais de 700 hectómetros, o que representa um aumento substancial.
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Já quanto à Barragem do Pisão, diz tratar-se de um projeto “importantíssimo” por se encontrar numa região com uma “grande tendência” para a desertificação. “É uma barragem com potencial agrícola, turístico, como fator de atração de pessoas. A água é importantíssima para atrair mesmo as atividades económicas que não dependem diretamente dele. Um espelho de água é essencial para uma região”, resume.
Segundo Maria da Graça Carvalho, “Portalegre e Beja são as capitais de distrito com menos atenção dos governos centrais dos últimos 40 anos”, ainda que o Baixo Alentejo tenha registado “um desenvolvimento agrícola importante”, fruto do empreendimento de Alqueva, e que o Governo tenha “tomado decisões firmes” de “fazer a eletrificação [do troço ferroviário entre Beja e Casa Branca], acabar a autoestrada A26 e [apoiar a instalação] de uma fábrica importante de [aviões militares] da Embraer”. Palavra de ministra.
Nota da direção: Publicado originalmente na edição em papel da revista Alentejo Ilustrado, este perfil foi escrito antes das cheias que têm assolado o país.













4 Responses
Enfim, uma Ministra com letra Grande!!!
Super consciente dos problemas que afectam o País, muito dinâmica, utilizando todos os vastíssimos conhecimentos científicos que a caracterizam e, ao mesmo tempo, com grande sentido de humanidade!!
Beja agradece e orgulha-se!!!!!
Enfim, uma Ministra com Letra Grande!!!
Aplica dinâmicamente os seus amplos conhecimentos científicos na resolução dos problemas do País, de forma discreta, atenta e, simultâneamente muito humana!!
É um Bem Maior para Portugal!!
O Alentejo e Beja muito em especial, teem na Sra Ministra, o maior orgulho!!!!
Enfim, uma Sra Ministra com Letra Grande!!!
Aplica os seus vastíssimos conhecimentos ciêntificos de forma discreta, eficiente, dinâmica e, simultâneamente muito humana!
É um bem maior para todo o nosso País e muito em especial para o Alentejo!
Beja tem, na Sra Ministra, o maior orgulho!!!!
E agora está a destruir o país e a natureza, deixou-se apanhar pela ganância e serve os interesses do capital, não o povo português, nem Portugal.