Maria do Céu Pires: «A Justiça também é climática»

A chamada crise ambiental não é apenas climática, mas é também social, política e económica, e o caminho (se os governantes do mundo ainda conseguirem pensar para além dos períodos eleitorais) só pode ser o de uma justiça que seja global.

Maria do Céu Pires, professora (texto)

Face à recente vaga de calor, as redes sociais e até o Parlamento português foram inundados não de reflexões sobre a sua origem e sobre as estratégias de médio e longo prazo para enfrentar este e outros problemas, mas de defesa de certas ideias negacionistas. Foram reproduzidas supostas notícias das décadas de 40 e 50 do século XX a relatar elevadas temperaturas, em várias cidades portuguesas. 

Mesmo considerando que essas notícias são verdadeiras, como é possível comparar essa situação com aquilo que é a emergência climática da atualidade na sua complexidade? Trata-se, pois, de uma enorme falácia. Como é do conhecimento comum, os negacionismos apresentam várias tonalidades, contudo, aquilo que é comum a todos é a negação da realidade e da verdade, seja científica, histórica ou climática.

Entre os vários riscos que a Humanidade hoje enfrenta, encontra-se o de um colapso ambiental, pois foram já ultrapassados, de forma irreversível, vários limites que asseguravam a vida planetária, nos seus diferentes ecossistemas, por exemplo, a concentração de CO2 na atmosfera e o aumento da temperatura média. 

Encontramo-nos, desde a revolução industrial (uso generalizado de combustíveis fósseis, produção/consumo em massa de mercadorias), numa nova era geológica designada pelos cientistas como antropoceno. N

esta era, ou seja, nos últimos 200 anos da nossa História e com particular incidência nos países ocidentais, o ser humano tornou-se a força impulsionadora da degradação ambiental, conduzindo a uma espécie de espiral de morte. Na base, está a ideia de poder, poder sobre a natureza, entendendo esta como algo que pode ser usado até à exaustão, em benefício humano.

Percebemos hoje como esta ideia é perigosa, tal como as consequências da sua implementação. Está a causar um ecocídio, que é inseparável do aumento das desigualdades sociais, das guerras e dos genocídios. 

Na verdade, a chamada crise ambiental não é apenas climática, mas é também social, política e económica, e o caminho (se os governantes do mundo ainda conseguirem pensar para além dos períodos eleitorais) só pode ser o de uma justiça que seja global, quer dizer, em que todos os habitantes do planeta tenham acesso aos recursos básicos e que, em simultâneo, seja ambiental, isto é, que assegure a sobrevivência das futuras gerações.

Pela primeira vez na história da humanidade não se pensa a sério na preservação do futuro, assegurando o princípio ético básico que é garantir o direito à vida dos que nos sucedem. Esta situação tem que ser revertida, enquanto ainda resta alguma fração de tempo! Negar a realidade nunca será uma boa escolha!

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