Porque tudo o que acontece nos primeiros anos de vida é essencial para a formação do ser humano e para a estruturação (que é sempre interrelacional) da identidade pessoal e social, a sociedade civil e o poder político em Portugal precisam, com urgência, de refletir sobre o que estão a fazer (ou a não fazer) relativamente às crianças e jovens.
Na verdade, chegados à terceira década do século XXI, com os conhecimentos que temos sobre este período crucial da vida, as sociedades deviam organizar-se de modo a garantir as condições básicas, de saúde, educação, habitação, para o desenvolvimento equilibrado a nível físico, social, cognitivo e emocional das crianças e jovens.
A infância tem mesmo de ser protegida!
Antes de mais, de todas as formas de violência, de assédio, de maus tratos, de todos os perigos e abusos, seja no contexto familiar, seja noutros contextos. É preciso, também, defender as crianças do sedentarismo e de uma má alimentação (gorduras, açúcares, alimentos processados em excesso).
Hoje, há um outro desafio que se tornou um imperativo: proteger a criança de uma ameaça gigantesca, o uso excessivo de écrans. Também são sobejamente conhecidas as consequências desta dependência do virtual (veja-se que na Suécia já foram colocados de lado os manuais escolares digitais para voltar ao papel), afetando o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e o relacionamento interpessoal.
Proteger as crianças é proteger as famílias, todas, e não apenas as de “bem”, as que conseguem fazer pressão para os governantes legislarem de acordo com os seus “pequenos interesses”. É fazer o contrário do que está a ser feito, não dificultando o reagrupamento familiar dos imigrantes, não dificultando os horários de trabalho, as dispensas para cuidado dos menores e outras medidas que estão previstas nas novas leis do trabalho agora em discussão; é legislar de modo a permitir o acesso à habitação e a salários justos para os jovens casais de forma a que possam incluir nos seus planos de vida ter filhos.
Proteger as crianças é garantir um ensino de qualidade para todas, é planear as cidades com espaços desportivos, espaços verdes e outros equipamentos onde as crianças possam fazer aquilo que é o mais importante: brincar, dar livre expansão à sua imaginação e criatividade. Proteger as crianças é criar condições às famílias e às escolas (e outros agentes de sociali- zação) para que transmitam regras de civilidade, que estimulem a curiosidade e o gosto em aprender.
A infância tem mesmo de ser protegida!
E, se não houvesse outras razões mais importantes (que há), a crise demográfica e o envelhecimento do país deviam ser suficientes para que aqueles que governam colocassem nas suas prioridades este assunto!










