Comecemos pela lenda: um grupo de desterrados condenados injustamente (refugiados, diríamos hoje) encontrou abrigo num campo de tremoceiros, tendo decidido fixar-se nesse lugar (Estremoz, dizemos hoje), fundando uma povoação. Decorria o século XIII e o reinado de D. Afonso III, que atribuiu o primeiro foral ao burgo. Muitos acontecimentos importantes da História de Portugal ocorreram neste território, alguns deles tendo como protagonista a Rainha Santa Isabel, sendo a participação nas operações do 25 de abril de 1974 aquela de que mais nos orgulhamos.

Em 1926, pelo Decreto do Governo n.º 12:227, de 31 de agosto, a notável vila é elevada à categoria de cidade. Palavra com origem no latim civitas, a cidade é uma comunidade humana com um conjunto de infraestruturas ligadas à educação, à saúde, aos transportes, instituições financeiras e administrativas. Mas remete também para a noção de polis grega, ou seja, espaço de discussão, de cidadania, de participação de cada um na análise e resolução dos problemas que são comuns.
Estes dois sentidos conservam, hoje, plena atualidade. E é em torno deles e da sua concretização na vida de todas as pessoas da comunidade que parte da reflexão sobre a cidade que somos e que queremos ser se deve orientar. Mas, aos antigos, juntam-se novos desafios. No caso de Estremoz, um dos maiores, comum a quase todas as cidades do interior do país, é sobre a forma de contrariar o progressivo envelhecimento populacional, contrapondo a essa situação ações eficazes para a fixação de jovens.
É fundamental quebrar o deslumbramento com o turismo para ricos e pensar em medidas estruturais que permitam um desenvolvimento que seja sustentável. Criar postos de trabalho, com trabalho digno, deverá ser uma prioridade. As dificuldades com a habitação e o cuidado do espaço público (incluindo, para além da limpeza, a questão das acessibilidades e dos espaços verdes) são também desafios a que urge responder. O mesmo se diga dos âmbitos que se referem à educação e à cultura, sem os quais não há uma verdadeira cidade. Estes tornam-se decisivos pois são eles que permitem o desenvolvimento e realização das capacidades humanas fundamentais, estando na base da criatividade e da inovação. Uma cidade precisa de ter vida.
Também precisa de ter memória histórica. Na nossa cidade branca há um património riquíssimo, desde o artesanato (com destaque para os «Bonecos»), passando pelo património edificado, pela gastronomia (a genuína) e pelo riquíssimo movimento associativo.
Existe igualmente um património humano excecional, com pessoas ligadas à música, à literatura, às artes plásticas, que não deve ser esquecido, mas servir como inspiração para todos/as, sobretudo para as novas gerações. Também a nível da política foram muitas as figuras de relevo, com destaque para o Dr. Marques Crespo, fundador do «Brados do Alentejo». E o desafio está precisamente aqui: saber preservar a identidade (fugindo ao pitoresco) e conjugá-la com a ousadia, perspetivar vistas mais largas, horizontes de cosmopolitismo, ou seja, construir a partir da ideia de glocal. Para nos desenvolvermos não nos podemos fechar no quintal, mas sonhar com novos mundos.
Mas Estremoz tem, acima de tudo, uma luz muito própria. É preciso saber senti-la e interpretá-la. Os poetas cantaram-na, os pintores pintaram-na e nós, cidadãos comuns, temos entre mãos a tarefa de a seguir para construir uma cidade onde se exerça, de facto, a cidadania. Onde a voz de cada um e de cada uma possa entrar no coro. É com essa música que devemos festejar os 100 anos de história. Parabéns, Estremoz!
Fotografia: Descerrar da placa evocativa do centenário da elevação a cidade. © Município de Estremoz










