Maria do Céu Pires: “Inferno”

O ataque ao Irão é mais um (infelizmente não será o último) dos episódios desta novela de terror da criança caprichosa que se julga senhora do mundo. 

Maria do Céu Pires, professora (texto)

No século XX, no período que se seguiu à II Guerra Mundial, foram dados passos significativos para implementar uma cultura de paz, seguindo a antiga proposta de Kant (filósofo alemão do século XVIII) de criação de uma “paz perpétua”.

Estabeleceu-se o Direito Internacional, leis, tratados e convenções que regulam as relações entre os Estados com base num conjunto de princípios que visam garantir a segurança e o respeito pelos Direitos Humanos. O Tribunal Internacional de Justiça e o Tribunal Penal Internacional são duas das instituições que atuam no sentido da responsabilização e do combate à impunidade de quem pratica crimes contra a Humanidade.

Acontece que, a partir das duas primeiras décadas do século XXI, essa ordem estabelecida (ainda que com muitas imperfeições) começa a ser posta em causa, sendo substituída não por outra ordem qualquer, mas pelo caos da selvajaria, onde tudo vale, onde tudo se reduz à “lei” da força.

Os grandes imperadores do mundo, sobretudo Putin e Trump, agem para além de qualquer princípio de racionalidade, de equilíbrio e de respeito pela vida humana. Ambos sonham com a expansão do seu império, custe o que custar.

No caso de Trump, já não há palavras suficientes para descrever a absoluta insanidade de tudo o que diz e faz, tal é o desrespeito pelas leis do seu país e pela lei internacional. Prende presidentes de Estados soberanos, ameaça comprar outros países, invade… com a justificação do costume… há que depor os ditadores, inventando ameaças que depois se prova não existirem (quem já se esqueceu das armas químicas inventadas no Iraque?).

As mentiras habituais para esconder as verdadeiras razões: petróleo e terras raras, tomar para si todos os recursos do planeta, venda de armas, controlo de regiões estratégicas e, neste caso, desviar as atenções do seu envolvimento no caso Epstein.

Este imperador joga com os países soberanos e com as pessoas como se todos fossem brinquedos para o seu narcisismo malévolo. Semeia guerras e, na sua desmedida demência, exige o Prémio Nobel da Paz e inventa organizações fantoches, como o Conselho da Paz, onde se autodenomina presidente.

O ataque ao Irão é mais um (infelizmente não será o último) dos episódios desta novela de terror da criança caprichosa que se julga senhora do mundo. O povo do Irão merecia libertar-se do regime opressivo que cometia as maiores violações dos Direitos Humanos, mas não com uma invasão unilateral, associada às piores motivações e em conjunto com um genocida (Netanyahu), que devia estar a ser julgado pelos seus crimes. Acrescentar guerra à guerra não é solução para nada.

Para quem tinha dúvidas sobre a existência do Inferno, aí está. E lembrem-se: ninguém sai do inferno, seja ele qual for, sozinho.

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