
A editora Relógio de Água publicou no passado mês de junho o novo livro do filósofo e ensaísta Byung-Chul Han intitulado «Sem Respeito». É conhecida a acutilância deste filósofo na crítica que faz a vários aspetos da sociedade capitalista contemporânea: o consumismo, o individualismo, o excesso de ruído, a vida privada tornada espetáculo e as várias formas de manipulação decorrentes da tecnologia.
Nesta obra analisa uma virtude – respeito – que, durante séculos, foi considerada essencial na convivência humana e que atualmente se encontra em declínio, sendo substituída pelo narcisismo e pela competição sem limites. É precisamente essa virtude que pode ser considerada o núcleo dos Direitos Humanos: tudo na vida individual e coletiva deve ser orientado em respeito pela dignidade de cada ser humano.
Na vida quotidiana, qualquer um de nós constata, de forma empírica, que um dos sintomas da atual crise social tem relação com a ausência de respeito pelas pessoas. (E, atenção: não estou a falar do «respeitinho» de outros tempos, que não era outra coisa senão medo e obediência cega).
Hoje observamos e ouvimos no espaço público comentários ofensivos, violência, intolerância, discriminação, indiferença e até agressões físicas e psicológicas, que são «normalizadas». São situações que se verificam em todos os lugares, transportes públicos, escolas, empresas, espaços de lazer, tendo o seu expoente máximo nas redes sociais, pois o digital tem o efeito de desinibir instintos primários.
Também na vida política abunda a falta de respeito pelas pessoas. Quer seja a nível local, quer a nível nacional, a maior parte dos governantes olha para os cidadãos como números, como possíveis votos a adquirir. A ideia de bem comum deixou de fazer parte desta área. O que se passou com os exames nacionais do ensino secundário (que mereceria muitas páginas de comentário…) é a prova mais evidente desta situação: absoluta ausência de respeito por todos, alunos, professores, diretores, em suma, as escolas e todas as pessoas que nelas trabalham.
Para além dos danos pessoais que provoca, tem uma outra consequência: põe em causa a confiança nas instituições e no funcionamento do Estado, ou seja, contribui para corroer a democracia. É um enorme favor oferecido de bandeja à extrema-direita, que vive precisamente disto, da desconfiança em relação às instituições. Como alguém já disse, o que falhou não foi apenas o calendário, foi o respeito, a transparência, a equidade, a verdade, a competência, a previsibilidade e a incapacidade de ouvir o outro e de reconhecer os erros.
Assim, a ausência de respeito é indissociável do sentido de responsabilidade. Foi também isso que falhou: a capacidade política para assumir responsabilidades por um processo. Ao contrário dos governantes, todos os outros intervenientes, desde logo os professores/as e os diretores/as, manifestaram grande sentido de serviço público e de colaboração para que os danos não fossem maiores. Respeito e responsabilidade, que é o que se espera de todas as pessoas, particularmente de quem tem funções públicas.










