Maria do Céu Pires: “Ser radical (eu radical me confesso)”

A opinião de Maria do Céu Pires, professora

As palavras estão sujeitas, como tudo, ao desgaste do tempo. Também sabemos que, dada a riqueza de algumas línguas, o seu significado pode variar de acordo com o contexto. Por exemplo, muitas vezes são usadas de acordo com interesses políticos convenientes em determinadas circunstâncias. É o que está a acontecer com a palavra “radical”.

Esta, está a ser utilizada como sinónimo de extremismo e, portanto, com uma conotação negativa, atribuída a alguns grupos e pessoas que se consideram inferiores e até perigosos (!!!). No discurso político é frequentemente. confundida com “fundamentalismo”. Ora, ser radical, no seu verdadeiro sentido, é ter uma posição que se opõe à rigidez e à ausência de sentido crítico característica de todos os fundamentalismos.

“Radical” remete para raiz. Isto significa que é preciso não nos limitarmos à superficialidade das coisas, à sua aparência, mas, pelo contrário, devemos investigar os seus fundamentos. Hoje, mais do que nunca, dada a de- sinformação generalizada, é fundamental analisar, com cuidado e em profundidade, todos os problemas, nomea- damente os de âmbito social e político.

Hoje, mais do que nunca, é preciso perceber que problemas complexos não podem ter respostas simples (esta é a base do populismo). Pelo contrário, problemas complexos requerem uma análise aprofundada, a capacidade de refletir sobre todos os elementos em questão, sobre todos os aspetos envolvidos, sobre possíveis causas e consequências. E esta reflexão tem que ser feita em diálogo, articulando todos os saberes científicos e outros, ouvindo todas as vozes, sem exclusões.

Para a democracia se salvar (pelo menos por aqui, pela Europa), é necessário ser radical. Isto é, tem que levar a sério a dignidade de todas as pessoas! Ser radical é não ser indiferente ao sofrimento alheio e ter a coragem de se comprometer na defesa do bem comum, na defesa de direitos e deveres iguais para todos! Ser radical é ter a capacidade de analisar racionalmente os problemas e, ao mesmo tempo, com sensibilidade humana. Ser radical é não manipular os outros, nem se deixar manipular. E ser capaz de exercer o direito à indignação!

Ser radical é trazer para a sociedade tudo o que lhe dá força vital e a fortalece contra o “ovo da serpente” que está, de novo, a sair da casca. É estar do lado do amor contra o ódio.

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