Maria do Céu Pires: “Um grande, grande mercado”

A opinião de Maria do Céu Pires, professora.

Segundo os dados oficiais, nas últimas (2025) eleições legislativas, o número de inscritos foi 10.850.215 e registaram-se 6.317.949 votantes. Nessas mesmas eleições, o partido de extrema-direita obteve 1.437.881 votos, o que se traduziu em 60 de- putados na Assembleia da República. Contudo, e apesar destes números, muitos agentes políticos, a começar pelo atual Governo, tomam medidas como se esse partido de extrema-direita tivesse maioria absoluta.

Querem mostrar-se fortes e “duros”, sobretudo com os mais frá- geis, com os que se encontram em situação de maior vulnerabilidade: os imigrantes. Reduzem-nos a uma condição de sub-humanos, de “perigosos inimigos”, esquecendo que são pessoas que procuram uma vida melhor, para si e para as suas famílias, como muitos portugueses fizeram ao longo da História. Para além de não respeitarem a dignidade destas pessoas, os governantes esquecem igualmente a necessidade imperiosa que a nossa economia tem do tra- balho dos imigrantes, fundamental em áreas essenciais da sociedade, desde a construção civil ao sector da restauração.

Para além da insensibilidade social e humana, junta-se a miopia política e económica. O partido que se dizia antissistema é agora o sistema que dita as leis na sombra do primeiro-ministro. E tudo isto para quê? Para agradar ao tal milhão de eleitores de modo a manter-se no poder, usando a velha estratégia de “dividir para reinar”, colocando pobres contra pobres, criando falsos inimigos; normalizando a brutalidade e permitindo que ela se expanda.

Mas também a nível do po- der local se constata a mesma tendência, a de ser forte com os mais fracos, com os mais pobres dos pobres. O caso mais paradigmático é o de Loures e da Amadora. A demolição de barracas onde vivem famílias, pessoas que trabalham, crianças que vão à escola, sem plano prévio de realojamento, é de uma gritante desumanidade. Trata-se de uma violação não só da legislação sobre habitação, como dos mais elementares direitos humanos.

Nenhum ser humano decente pode dormir sossegado ao observar o que ali tem acontecido! Contudo, quem está no poder quer mantê-lo e não olha a meios, pode até colocar crianças a dormir na rua para agradar às influencers que se sentam no Parlamento.

Logo após o conhecimento dos resultados eleitorais das legislativas, muitos presidentes de Câmara, sobretudo no Alentejo, começaram a fazer “olhinhos” ao partido de extrema-direita e aos seus eleitores. Agora, em período pré-eleitoral, tudo se transforma num enorme mercado, comprando apoios nos “seus funcionários”, distribuindo “prémios”, abrindo concursos, numa maratona sem fim de eventos com a respetiva publicidade.

A dignidade da atividade política é esquecida e reduz-se a um jogo de bastidores onde se negoceia a dança das cadeiras. Tudo apenas com um objetivo: perpetuar-se no poder. O bem comum, a preocupação pelo essencial, pelo que é estrutural numa comunidade, pelos mais frágeis, não importa. A verdade e a integridade deixaram de interessar. É o poder pelo poder. Grau zero da política. Exclusivamente mercado.

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