«Sem pena, dadas as circunstâncias expostas, mas lamentando o fim de um projeto que se destinava a unir amplos setores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade, deixamos de ser bloquistas porque o nosso Bloco acabou», referem os demissionários, em comunicado enviado às redações.
Entre os militantes que estão de saída e que já assumiram diferentes responsabilidades no partido, destaque para o histórico da UDP Mário Tomé, nascido em Estremoz, e o ex-deputado Pedro Soares, que se tem assumido nos últimos anos como crítico da direção.
«O Bloco a que aderimos e ajudámos a construir com entusiasmo e empenho já não o é. Sabendo que muitos dos que ainda permanecem são genuínos militantes por uma esquerda de combate», acrescentam.
Ao longo do texto voltam a ser feitas muitas críticas às decisões do partido nos últimos anos — que chegou a ser a terceira força política no parlamento e agora tem apenas um deputado —, sobretudo a partir do fim da geringonça.
«A maioria da direção afastou-se do pulsar e do sentimento popular, burocratizou-se e institucionalizou-se, ficou insensível à crítica interna e sem projeto político autónomo credível», sintetizam.
Sobre o período em que o BE assinou um acordo parlamentar com o PS de António Costa, estes críticos consideram que houve uma ilusão do «restrito núcleo dirigente», que «cedo transformou um acordo fruto das circunstâncias numa estratégia que o fez perder autonomia política».
Para estes agora ex-militantes, «a perda sucessiva de eleitos, sendo muito significativa e contínua, foi sintoma evidente de acentuada quebra de influência política e social» e «tornou-se insustentável».
«A centralização das decisões num Secretariado sem competências para tal, mas omnipotente, levou ao afastamento de quem expressava posições críticas ou alternativas, nomeadamente de muitos que lhe tinham dado o primeiro fôlego aquando do seu aparecimento, levou à desmotivação e mesmo ao abandono de centenas de militantes, de muitos dirigentes nacionais e distritais», acrescentam.
O grupo aponta ainda o dedo ao que diz ser o «desprezo pela organização de base». E acrescenta: «Da resposta política certa, o Bloco embarcou acriticamente na geringonça. Afeiçoou-se à ideia de doces entendimentos e, a despeito e contra o seu próprio programa transformador, colocou como objetivo central, proclamado na Convenção de 2019, a participação no Governo, numa triste rendição a uma social-democracia, por sua vez dissolvida no neoliberalismo».
Para estes bloquistas que anunciam agora a sua saída «errar é humano», tal como o reconhecimento do erro. «Porém» – acrescentam – «o núcleo dirigente impôs-se autocraticamente, recusando uma reflexão autocrítica, recusando fazer qualquer balanço da ação política do Bloco fossem quais fossem os resultados, caluniando, perseguindo mesmo, as vozes críticas que alertavam para a perda de influência e credibilidade políticas e para a necessidade de mudança de rumo».
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: D.R.










