Nos últimos cinco anos os utentes inscritos nos serviços de saúde da região do Alentejo aumentaram apenas 1,2 por cento, mas o número de pessoas sem médico de família passou de 36.416, em 2020, para 83.460, em 2025, o que representa uma subida de 229 por cento.
Os casos mais graves são os da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Alentejo que registava 8.544 utentes sem médico de família, em 2020, tendo em 2025 mais do que triplicou esse número para 27.086 utentes, apesar de, no mesmo período o número de inscritos até ter diminuído, passando de 114.587 para 111.057.
Ou seja, um quarto da população residente nesta sub-região não tem acesso a um médico de família; e o da ULS do Alentejo Litoral que teve um aumento de inscritos de oito por cento, mas viu subir para 27 por cento a percentagem de utentes sem médico de família.
No Alentejo Central o número de utentes sem médico atribuído passou de 8.698, em 2020, para 11.272, ainda que o número de inscritos tenha descido, ligeiramente, de 167.333, para 166.879. Já em relação ao Baixo Alentejo, o número de utentes sem médico de família subiu de 4.375, em 2020, para 16.521.
Num despacho de 16 de dezembro passado, o Ministério da Saúde abriu um novo concurso para o preenchimento de 606 vagas destinadas a médicos especialistas, 142 das quais para Medicina Geral e Familiar. “Entre os cuidados de saúde primários, especialidades hospitalares e saúde pública tivemos, no total uma dezena de vagas”, informa o presidente da administração da Unidade Local de Saúde (ULS) do Alto Alentejo.
Em declarações à Alentejo Ilustrado, Miguel Lopes explica que em 2025 aquela unidade de saúde viu serem-lhe atribuídas 12 vagas para os cuidados de saúde primários, que ficaram desertas. “Entretanto” – revela – “pedimos para que houvesse a atribuição de vaga carenciada e foram-nos atribuídas duas desse tipo, mas nem assim conseguimos atrair médicos de medicina geral e familiar”.
Para o quadro ficar completo seriam necessários mais 12 especialistas. Para minorar o problema torna-se necessário recorrer a médicos reformados e a jovens especialistas para trabalhar em contexto de telemedicina.
O que é necessário para atrair médicos de medicina familiar para o interior? “Essa é a pergunta de um milhão”, responde o presidente do CA da ULS do Alto Alentejo. “Conseguimos contratar dois especialistas de medicina geral e familiar independentemente de não terem concorrido a estas vagas: uma médica tinha terminado o contrato, mas preferiu fazer outro diretamente connosco do que se candidatar ao concurso; e uma outra que estava no Alentejo Central e que veio para Ponte de Sor”.
Miguel Lopes admite não ter nenhuma solução para o problema, mas garante estar “a trabalhar” com a Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo pois a falta de médicos “preocupa-nos a todos, não é apenas um problema da ULS, é um problema do distrito e de outros distritos do interior”. A administração assinalou, agora, um ano em funções e um dos balanços que efetuou foi relativo ao trabalho com “os parceiros locais – municípios, juntas, CIM, forças de segurança, Segurança Social, bombeiros, Proteção Civil – e quais as razões para que o distrito de Portalegre seja tão pouco atrativo”.
O responsável da ULS do Alto Alentejo recorda que na recente visita da ministra da Saúde “foi dito que estava a ser trabalhada uma legislação específica para os médicos de medicina geral e familiar, no sentido de criar Unidades de Saúde Familiar de modelo de baixa densidade (porque a legislação atual não permite que com menos de quatro mil habitantes exista uma USF).
“Este modelo” – acrescenta – “permite que os profissionais se possam agrupar e ganhar incentivos. A questão monetária é sempre apontada como o fator principal para os profissionais virem para o interior, mas não é esse o motivo, que tem muito mais a ver com o desconhecimento daquilo que são as oportunidades e a qualidade de vida que hoje se tem no interior do país”.
Nesse sentido, “em conjunto com os nossos parceiros locais”, a ULS diz estar a fazer “um trabalho para que os profissionais venham conhecer e perceber o que é viver no interior do país, porque estamos a uma hora e meia de Lisboa e a 30 minutos de Espanha”.
Os médicos que vieram para a região nos anos 80, no âmbito do Serviço Médico à Periferia, estão agora reformados, ou em vias disso. Perguntámos a Miguel Lopes se uma medida deste tipo, devidamente adaptada aos tempos que correm, poderia ser uma solução para a escassez de médicos de família: “Os tempos mudaram. Por muito que fosse tentado a dizer que sim, isso não iria resultar. Resultou naquela altura. Havia um sentimento diferente, o país estava numa outra etapa. Hoje, os mais jovens, se for algo imposto não vão querer vir. Acho que durante a formação dos especialistas – por exemplo um médico de medicina geral e familiar que ficou colocado em Lisboa – se vier fazer um período da sua formação ao interior podia fazer sentido. Mas não impor”.
“O que poderia fazer sentido” – considera -“era, nos concursos de internato dos próximos anos, quando fossem decididas as vagas, que se reduzissem as especialidades excedentárias. Já percebemos que atualmente os médicos, quando escolhem a sua especialidade, estão a escolhe-la em função daquilo que é expetativa do rendimento que podem vir a ter. Ora, se estamos a abrir vagas e temos carência para medicina interna ou medicina geral e familiar, nesse ano devemos reduzir vagas para aquelas especialidades e aumentar mais nas que há falta”.
Médicos de família precisam-se
Longe vai o ano de 1981, quando no primeiro dia de janeiro João Adélio Trocado Moreira (na foto principal), integrando um grupo de seis jovens médicos, decidiu assentar arraiais em Avis, no âmbito do Serviço Médico à Periferia (SMP), na altura existente e que “correspondia à transição dos novos médicos de uma situação de medicina tutelada, para não tutelada”.
Esta etapa na carreira profissional dos médicos recém-formados era, de alguma forma, a sua carta de alforria. “Nos anos 80, a estrutura do curso de Medicina compunha-se de seis anos. A estes seguiam-se dois anos de estágio e, depois, como havia muitos médicos, seguia-se mais dois anos de SMP. A seguir concorríamos para a especialidade, incluindo a especialidade nova [Medicina Geral e Familiar] que não existia antes e que era uma carreira nos cuidados de saúde primários”, explica João Adélio que, entretanto se reformou, depois de mais de quatro décadas a exercer no concelho de Avis.
Hoje, com 72 anos, ainda não largou o estetoscópio e, como contratado, acompanha os utentes das extensões de saúde nas freguesias de Valongo, Figueira e Barros e Ervedal – com cinco horas semanais em cada uma – e outras tantas horas na Unidade de Cuidados de Saúde Personalizados de Avis, mas apenas em trabalho de coordenação.
Na altura, muitos dos seus colegas acabaram por, findo este período, escolherem a especialidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) e ficarem nos locais onde tinham feito o Serviço Médico à Periferia. Isso, em muitos casos, nas últimas décadas, garantiu a presença de um médico no interior e assegurou a existência de “cuidados de saúde à população que não os tinha até aí”.
Tal como agora, as autarquias colaboravam, garantindo alojamento. “Aqui em Avis tínhamos a chamada casa dos médicos. O Estado pagava um subsídio, que era diferente consoante o nível em que o concelho fosse classificado”.
E porque é hoje tão difícil trazer médicos para o interior? Responde João Adélio: “Primeiro porque é difícil trazer qualquer outro profissional para o interior; depois porque há mais oportunidades nos hospitais privados no litoral; e, finalmente, porque a medicina geral e familiar é uma especialidade muito mais burocrática do que as outras, é muito mais desgastante do que as outras e é tão mal remunerada como são as outras. É uma especialidade pouco atrativa, e um médico desta especialidade liga-se ao doente para a vida inteira. Há uma disponibilidade maior que não é compensada”.
Acresce que nos centros de saúde “falta tecnologia e as acessibilidades, apesar de melhores do que há 40 anos, também são um impedimento”.
Para João Adélio, os médicos de família são uma espécie em vias de extinção: “Neste momento, os Centros de Saúde funcionam com base em tarefeiros e, desde há dois anos, com a telemedicina, o objetivo era ser com um médico à distância, e serem sempre os mesmos a fazer o acompanhamento dos utentes”, o que não acontece, explica, devido à ligação precária que estes clínicos têm com as várias empresas prestadoras deste serviço.
Um médico para 4.300 habitantes
O concelho de Avis apresenta um rácio de um médico por 4.300 pessoas. A população tem-se manifestado em defesa da colocação de profissionais no centro de saúde. Manuel Maria Coelho, presidente da autarquia, conta que na sequência do último protesto [em fevereiro de 2025], “tivemos uma reunião no centro de saúde com o responsável da ULS do Alto Alentejo e foi-nos dito que tinham sido feitos vários esforços para a colocação de médicos, mas que tinham resultado infrutíferos. A solução apontada, para além da contratação de médicos em regime de prestação de serviços – que são pontuais e, às vezes, com uma circulação estonteante entre os vários centros de saúde – era avançar, nesta fase, com a telemedicina”.

“Essa solução” – acrescenta Manuel Coelho – “foi disponibilizada para algumas freguesias que estavam mais desguarnecidas, como Alcórrego e Benavila, cuja nova infraestrutura está construída, foi inaugurada, mas continua encerrada. No entanto, deixámos claro que para nós esta não era a solução e encarávamos isto como uma solução transitória”.
O autarca lembra que, no seu concelho, “o pro- blema da saúde é muito grave e com um impacto muito significativo devido à estrutura etária da população, muito envelhecida, e pela distância em relação ao hospital distrital, o que agrava a situação. Acresce que o estado das estradas que nos ligam a Portalegre, nomeadamente a EN370, é péssimo”.
E o que podem fazer as autarquias para ajudar à captação de médicos de família? “Não podemos fazer a contratação de médicos porque não é competência do município, mas tudo o que sejam apoios logísticos não deixarão de ser fornecidos”, responde o autarca, acrescentando que “a disponibilização de habitação para médicos nunca será obstáculo para a sua vinda”.
No entanto, subsistem outros fatores que contribuem para o desinteresse dos médicos pelo interior. “A discriminação positiva em termos salariais pode ser, eventualmente, um fator positivo e é necessário criar mecanismos que diferenciem os médicos que se querem fixar no interior, mas tão importante como isso é a questão da carreira e um conjunto de outros fatores que pesam na escolha do médico: as acessibilidades, a oferta educativa – no caso de haver filhos – e um conjunto de serviços, nomeadamente públicos, que no interior cada vez existem menos porque a política que tem sido seguida é, precisamente, em sentido contrário, no encerramento e esvaziar destas ofertas”, refere Manuel Maria Coelho.
Quanto à anunciada nomeação de um vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo com a pasta da saúde, o autarca de Avis, eleito pela CDU, é claro: “Isso não vai resolver nada. A CCDR já tem um conjunto de vice-presidentes nomeados pelo Governo para áreas como a cultura, ordenamento do território ou agricultura, que resultaram da extinção das direções regionais, e pela minha experiência, tenho dificuldade em dizer que as coisas melhoraram com este modelo. É uma operação de cosmética sem grande impacto”.












