A Herdade de Vale Figueira, a quatro quilómetros de Arraiolos, onde está instalado o projeto PTachio, é agora a casa onde Inês Marques Lopes reside com a família. Para trás ficaram outros projetos, incluindo o trabalho de alguns anos em Espanha, onde teve o primeiro contacto com a cultura dos pistachos, originária do sudoeste asiático.
Deixou a azáfama de Lisboa para ser agricultora no Alentejo. O que a levou a tomar esta decisão?
Sempre tive contacto com a agricultura porque os meus avós eram agricultores perto de Figueiró dos Vinhos, na zona de Leiria. Tinham vinha, olival e um pouco de floresta (eucaliptal). Passei muito tempo em casa deles e, ainda hoje, nos juntamos para a colheita da azeitona, para a vindima, em modo de evento familiar. Embora os meus pais nada tenham a ver com agricultura e eu gostasse de várias áreas, fui parar ao Instituto Superior de Agronomia e concluí a licenciatura em engenharia zootécnica e depois o mestrado em engenharia agronómica. Entretanto, fui fazer Erasmus para Córdoba e comecei a trabalhar lá, na empresa Eurosemillas, a tempo inteiro.
Gostou da experiência?
Foi muito interessante porque o grupo comprou uma herdade de mil hectares em Portugal e, como eu era a única portuguesa, voltei recambiada para gerir a exploração. Instalámos um pomar de tangerina sem caroço na zona de Palmela. Depois, mais tarde, decidi começar com o meu marido este projeto do pistacho, aqui, em Arraiolos. Nós trabalhamos em empresas no sector do ‘agrobusiness’ em Lisboa, embora a nossa base seja aqui em Vale Figueira, e vamos gerindo o PTachio no tempo que temos livre.
Como nasceu este projeto?
Eu e o meu marido fizemos uma pesquisa sobre qual seria o solo mais adequado para o desenvolvimento desta cultura e optámos pelo Alentejo. Comprámos a Herdade Vale Figueira, com 114 hectares de área total, composta por 55 hecta- res de montado de azinho, uma barragem e 45 hectares de área limpa, onde plantámos os pistachos. Temos 333 plantas por hectare. O projeto foi desenhado em 2021, mas só o implementámos em 2023, porque tivemos de fazer várias intervenções estruturais, como limpar a herdade, fazer algumas nivelações, criar os sistemas de rega gota a gota, desassorear a barragem e até fazer um projeto para uma barragem que já existia, o que mostra que a burocracia tem as suas nuances. As árvores têm agora um ano e meio, estão ótimas, a crescerem de forma homogénea e pensamos fazer a primeira colheita em 2027.
Por que escolheram o pistacho, uma cultura quase “exótica” no Alentejo?
Na verdade, queríamos uma cultura que não dependesse constantemente de nós. Há muitas culturas que basta o agricultor não ir um dia ao campo e está tudo virado do avesso. O pistacho é uma árvore rústica que requer pouca intervenção permitindo-nos ter uma vida também fora da propriedade. Temos de fazer alguns tratamentos fitossanitários, fazer as podas e cumprir o plano de fertilização anual. Também creio que seria um pouco redutor ficarmos sempre aqui, dependentes da exploração, o que nos impedia de conhecer outras realidades, termos outras experiências… isso é algo que, infelizmente, acontece nesta atividade com projetos mais exigentes ao nível da presença humana.
Quais são as exigências desta cultura?
Não existia histórico de cultura de pistacho em Portugal porque no Norte do país, onde está mais frio, faltava o calor, no verão, para contribuir para a abertura da casca do pistacho que acontece na árvore. O Alentejo tem um clima adequado ao desenvolvimento desta variedade, que tem tido sucesso na Califórnia, não fosse a humidade no verão, que é uma das ameaças.
Utilizam a tecnologia como ferramenta de apoio à gestão da exploração?
É uma ferramenta fundamental na tomada de decisão. Temos uma estação meteorológica, duas sondas de humidade que nos indicam se precisamos de regar mais ou menos o solo. Os tratamentos que fazemos são feitos com o auxílio de um sonar que permite aplicar o fertilizante apenas na árvore. Portanto, conseguimos ter uma grande poupança de fertilizantes, fungicidas, inseticidas, tudo o que aplicamos via foliar. A erva é um dos principais desafios. Temos ovelhas que, ainda, não podem pastorear o pomar porque as árvores são pequenas, mas no futuro é o que pensamos fazer. Atualmente usamos herbicida para a linha e, às vezes, subcontratamos pessoas para roçar. Nós tentamos ter um enrelvamento espontâneo, mas, de vez em quando, temos de passar o destroçador para que o pomar não se transforme numa selva.
Quando está prevista a primeira colheita?
Pensamos colher em 2027, portanto, quando o pomar tiver quatro anos de vida. Este ano o pistacho foi pago entre 5,5 e seis euros o quilo e o processamento do fruto está todo em Espanha, que é o mercado natural. O pistacho é utilizado na indústria dos gelados, cosmética, óleo, champôs e cremes. A colheita vai ser feita mecanicamente, da mesma forma que se colhe a azeitona no olival intensivo.
Existe diversificação na exploração?
Sim, temos também 160 porcos alentejanos no montado de azinho e fazemos recria. Fizemos uma parceria com uma associação chamada Alporc, a Associação Nacional de Criadores de Porco Alentejano, e a nossa obrigação é garantir-lhes água e ração. Depois temos ovelhas e cabras, as destroçadoras naturais, que nos ajudam a controlar a erva e os matos.
A mão-de-obra é uma questão sensível?
Não temos tido problemas a esse nível. Trabalhamos com empresas prestadoras de serviços que empregam estrangeiros e que nos têm feito trabalhos pontuais como as podas e o controlo da erva. Por vezes, temos alguma dificuldade na comunicação, porque nem sempre há um entendimento do que se pretende fazer… mas isto são questões com as quais já contávamos. Também não temos alternativa.
Que medidas deveria o governo imple- mentar para atrair mais jovens para a profissão?
Atualmente temos o projeto de jovem agri- cultor com uma série de critérios que, na verdade, creio que poderiam estar melhor desenhados. Faço parte do Conselho Consultivo de Jovens da CAP e pediram-nos recentemente para opinarmos acerca dos critérios de seleção do novo concurso que vai sair em breve. Uma das questões é que já vem tudo muito formatado de Bruxelas. A margem para alterarmos internamente os requisitos é muito estreita e creio que a União Europeia está a seguir um caminho complicado relativamente aos entraves que tem colocado à produção convencional valorizando de forma díspar a biológica. Por outro lado, querem incentivar o aumento das mulheres na agricultura majorando o facto de o promotor ser do sexo feminino.
Isso faz sentido?
Parece-me um pouco injusto porque se o projeto apresentado por um homem for economicamente mais viável penso que é este que deve ser aprovado. Hoje ser mulher na agricultura é uma vantagem. A agricultura evoluiu e passa cada vez mais pelo marketing, pela comunicação, pela gestão de recursos humanos e creio que, naturalmente, vão existir mais mulheres na agricultura porque estas são áreas fortes, onde a mulher pode ter mais aptidão que o homem. Outra questão, que também me parece pertinente, é o facto de optarem por dar pouco a muitos, do que ajudar mais os projetos com maior impacto económico e social. A agricultura precisa de ser mais competitiva porque é isso que fará crescer o sector. Não será com projetos de um hectare que vamos conseguir esse objetivo.
E há também apoios diretos à instalação.
Bom, a distribuição da verba dada ao jovem agricultor para instalação do projeto também tem fragilidades. Temos uma parte que é o prémio de instalação e, após instalado, o pagamento é feito contra a apresentação de fatura. Ou seja, o agricultor paga e faz depois o pedido de pagamento ao Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas (IFAP). Ora, após a instalação da cultura é quando a maior parte dos projetos falha porque quando não existe um fundo de maneio é sempre complicado fazer face aos gastos inesperados, gastos que acontecem sempre. A agricultura é uma atividade de risco. De facto, há um apoio à instalação, mas não há continuidade nesse apoio, que ajudaria muitos projetos agrícolas a cumprirem o mínimo de tempo obrigatório.
O que significou ganhar este prémio?
Foi um reconhecimento ótimo. É um projeto meu e do meu marido e nós trabalhamos a tempo inteiro em outra empresa. Por isso, principalmente na fase da instalação, chegávamos a vir ter reuniões a Arraiolos às 06h00 da manhã para voltarmos para Lisboa e entrarmos no escritório às 09h00. Foi um esforço. Também temos tido imensos contactos depois de termos recebido este prémio que, sem dúvida, nos deu visibilidade.