Pertencente aquela que ficou conhecida como a terceira geração de modernistas portugueses, ao lado de nomes como Júlio Pomar ou Sá Nogueira, entre muitos outros, Espiga Pinto faleceu a 1 de outubro de 2014, aos 74 anos. Num texto do jornal “Público”, editado por essa altura, David Santos, à época diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea, sublinhava que “o campesinato, a vida na aldeia ou nas vilas” do Alentejo constituíam “uma das imagens mais fortes” da estética do artista, não por acaso nascido em Vila Viçosa.
Essa marca, acrescentava, David Santos, poder-se-ia traduzir “numa espécie de neorrealismo tardio, já nos anos 1960 e 70”, na qual é possível “vislumbrar uma capacidade de autoironia e mesmo humor sobre essa iconografia”. O título desse texto resumia bem essa visão: “Morreu Espiga Pinto, pintor do mundo alentejano”.
As peças agora expostas na Galeria Howard’s Folly foram criadas precisamente nesse período, na década de 60, aquando do regresso de Espiga Pinto ao Alentejo. “São exemplos de excelência do seu período neorrealista, “que refletem a infância” passada em Vila Viçosa. Num texto de apresentação desta mostra, aponta-se a inclusão de peças em diversos suportes, incluindo pintura, trabalhos sobre papel, desenho em tinta-da-china sobre cortiça e escultura em bronze. “A imagética representa a vida típica do Alentejo histórico, com composições que incluem o cavalo, o touro, a roda, a carroça, a apanha da azeitona, os agricultores, a camponesa e as festas locais”.
São peças “centradas nos primeiros trabalhos da década de 60, referidas pelos conhecedores da sua obra como a Série do Alentejo, proporcionando uma narrativa de caráter histórico inspirada no profundo afeto do artista pela sua cultura.
Um dos exemplos é “Roda”, uma pintura de 1965, “em destaque pelo seu elemento icónico, com tons laranja evocando a luz do amanhecer sobre a carroça no labor matinal nos campos e representando o símbolo de continuidade da vida”. Ora, justamente a roda tornar-se-ia um dos principais elementos recorrentes da iconografia de Espiga Pinto, presente em todas as suas fases subsequentes. Numa altura em que, como sublinha o historiador David Santos, a abstração irá “invadir” o trabalho do artista, “numa intensa relação com a simbologia do cosmos”.
E a obra de Espiga Pinto passa, então, a ser marcada por “grandes gestos circulares onde se conjugam figuras aladas (pombas, cisnes), cavalos e pequenos signos que remetem para mapas imaginários invadidos por uma plenitude fantasista que melhor se traduziu no seu trabalho de escultura em bronze ou nos seus conjuntos de volume pintados”.
José Manuel Espiga Pinto nasceu em Vila Viçosa vivia o mundo mergulhado na II Guerra Mundial, e expôs pela primeira vez numa galeria local, aos 15 anos, obras representa do cenas da vida rural do Alentejo – festas, romarias, a mulher ceifeira, o cavalo –, temática que irá influenciar toda a sua obra.
“Ainda era menino quando chegou à pintura. Homem determinado e invulgar, pinta como quem beija. Entrega-se total e perdidamente. Do Alentejo, onde nasceu, revelador de uma intuição e sensibilidade apuradíssimas, vem afirmando a solidez e singularidade de um percurso que começa e termina na busca e apreensão dos possíveis sentidos da existência”, assinala a escritora Manuela Morais.
Aos 18 anos, em 1958, realizou na Galeria Pórtico em Lisboa a segunda de mais de 80 exposições individuais, que teriam lugar nas seis décadas seguintes, em prestigiadas galerias de Lisboa e do Porto, assim como no estrangeiro.
Espiga Pinto viajou nos anos 1960 por Nova Iorque, estudou nos anos 70 em Munique, Estocolmo e Paris. Desafiou o autoritarismo do Estado Novo numa emblemática e elaborada ‘performance’ artística “Egotemponírico”, em 1972, no Porto – considerada pelo crítico de arte Egídio Álvaro uma “peça essencial na história da performance nestes anos em Portugal”.
Regressado logo após o 25 de Abril, criou e realizou filmes de ficção científica para a RTP, foi autor de inúmeras capas de livros e de moedas emitidas pela Imprensa Nacional Casa da Moeda. Foi professor na Escola Industrial e Comercial de Estremoz e, entre 1979 e 1987, no IADE, em Lisboa, então liderado pelo escritor António Quadros.
Durante os anos 90 é reconhecido pela sua extensa obra pública em Portugal, nomeadamente esculturas em bronze de grande dimensão, com elementos esféricos e de temática cósmico-geométrica, presentes nos concelhos de Oeiras e Lisboa, assim como pela criação dos pavimentos da Praça de Portugal em Brasília.
A exposição “Memórias do Alentejo” é organizada pelos herdeiros de Espiga Pinto e pela Galeria Howard’s Folley, com os apoios da Bienal Internacional do Alentejo (BIALE) e do Cechap, entre outros.
PRIMEIRA EXPOSIÇÃO DESDE A MORTE DO ARTISTA
Num depoimento a propósito desta exposição, Aurora e Leonardo Espiga Pinto, filha e filho do artista, asseguram ter um “enorme significado” este “regresso” do pai ao “seu” Alentejo. “Esta é a primeira exposição de desenho, pintura e escultura de Espiga Pinto desde o seu falecimento. Além disso, a sua célebre Série do Alentejo (década de 1960) não era mostrada ao público há 15 anos. E, finalmente, a exposição tem lugar em Estremoz, lugar onde o nosso pai viveu e criou estas mesmas peças, na sua casa-atelier”, sublinham.