Michel Giacometti, o corso que “adotou” Peroguarda, deixou-nos há 35 anos

Cumpriram-se 35 anos da morte de Michel Giacometti. Conforme seu desejo, o etnólogo corso, responsável pela mais importante recolha do património musical popular português e, em particular, o do Baixo Alentejo, foi sepultado na aldeia de Peroguarda, a sua porta de entrada nos anos 60 no Sul de Portugal. Aníbal Fernandes (texto) e Inácio Ludgero (fotografia)

Quando hoje ouvimos na rádio a nova versão da “Laurinda”, num estilo entre a pop e o electrónico, gravada pelos Karetos, com a voz de Iolanda – um tema popularizado por Vitorino nos anos 80 do século passado – estamos longe de pensar em Michel Giacometti, o responsável pela recolha e preservação daquele romance e de muitos outros temas do cancioneiro tradicional português e, particularmente, da música popular alentejana.

Ainda jovem, antes do 25 de Abril, morava eu na mesma zona do etnólogo corso. Ele na Rua dos Navegantes e, o autor destas linhas na Rua do Poço Novo, no centro histórico de Cascais. Os miúdos da minha idade conheciam-no lá da rua, desde sempre; e da televisão, onde nos anos 70 apareceu no programa “Povo Que Canta”, realizado por Alfredo Tropa.

O que não sabíamos era que o fim da frase que dava nome ao programa era “não pode morrer”. “Pueblo que canta no puede morrir”, no original, é um verso de uma canção anarquista espanhola, popularizada, entre outros, por Mercedes Sosa, uma famosa cantora argentina. E também não sabíamos que aquele outro senhor com quem o Michel – era assim que o conhecíamos – quase diariamente se ia encontrar na pastelaria Cidabela, durante as manhãs, ali ao pé do largo da Estação, era o maestro Lopes Graça, o grande compositor português criador das “Canções Heróicas”, entre elas o tema “Acordai”: “Acordai/ acordai/ homens que dormis/ a embalar a dor/ dos silêncios vis/ vinde no clamor/ das almas viris/ arrancar a flor/ que dorme na raíz”.

Giacometti chegou a Portugal em 1959. Vinha, aconselhado pelos médicos, tratar uma tuberculose mal curada, num “clima mais propício à cura”. Tinha 30 anos e por cá ficou até morrer, a 24 de novembro de 1990. Está sepultado em Peroguarda, concelho de Ferreira do Alentejo, no cumprimento de uma promessa feita aos seus amigos Agostinho e Virgínia – “Eu ainda venho morar para Peroguarda” – e confirmada numa entrevista a Adelino Gomes, editada pelo Público em agosto de 1990: “Quando morrer, quero ser enterrado no meio do povo português que tanto amei”.

O seu desejo foi respeitado e ali está, no cemitério local, em cuja lápide da sepultura foi escrito no granito “Sua alma era grande como a planície, bonita como as papoilas, boa e pura como a terra e rica como o trigo”.

O “último dos andarilhos da música tradicional portuguesa” tinha um grande apego pelo Alentejo e, particularmente, por Peroguarda, que visitou pela primeira vez em meados da década de 1960 a conselho do cineasta António Reis. Aí voltaria inúmeras vezes para gravar as modas guardadas pelo grupo coral da aldeia e de que o tema “Menino” talvez seja o exemplo mais paradigmático.

Esta pequena aldeia do concelho de Ferreira do Alentejo não ficou imune à sua passagem e não é à toa que, há anos, o Festival Giacometti se realiza no concelho, um encontro onde pontifica a voz e a polifonia, mas também a música, dança, arte, antropologia e cinema, numa homenagem ao etnólogo.

Mas a sua influência em Portugal manifesta-se muito para além das terras do Sul e personifica-se com o seu nome atribuído a artérias em vários pontos do País, desde Albufeira, Loulé, Beja, Serpa e Ferreira do Alentejo, até à Baixa da Banheira, Loures, Joanes, Setúbal ou Cascais, onde viveu durante grande parte da sua estada em Portugal.

Mas não só em ruas a sua presença é assinalada. A Escola da Quinta do Conde, em Sesimbra; o Museu do Trabalho, em Setúbal; e a casa museu Verdades Faria – Museu da Música Portuguesa, ostentam o seu nome. Este último local alberga não só grande parte do seu espólio (livros, gravações e instrumentos), mas também o do já citado maestro Fernando Lopes Graça.

Em 1981, a Câmara Municipal de Cascais adquiriu as coleções de instrumentos musicais populares portugueses, objetos etnográficos do etnomusicólogo Michel Giacometti, e foi definido um programa museológico para a Casa Verdades Faria: nascia então o Museu da Música Regional. Giacometti fez parte da comissão instaladora, na qual colaboraram o Instituto Português do Património Cultural e do Museu de Etnologia, que definiram as normas de funcionamento da instituição.

Em 1994, o compositor Fernando Lopes Graça deixou em testamento à Câmara de Cascais todo o seu espólio, que veio a ser incorporado no museu em 1995. Pelo âmbito mais alargado do seu acervo, veio a conhecer a sua atual designação – Museu da Música Portuguesa.

Aliás, fica-se a dever aos dois o fundamental “Cancioneiro Popular Português”, uma obra onde se reúnem textos e notações musicais da música popular portuguesa, publicada em 1981 pelo Círculo de Leitores.

Para aqui chegar o etnólogo corso recolheu canções, estórias e muitos objectos musicais e de trabalho em mais de 600 freguesias de todo o País. “Dormiu em pensões rascas, choupanas de pastor e ao ar livre, hospedou-se em casa de um contrabandista, comeu da mesma malga que aldeãos pobres”, assim o descreve Adelino Gomes no texto publicado escassos dois meses antes de ter falecido, em Faro.

A ÚLTIMA ENTREVISTA

Na derradeira conversa com um jornalista português, em agosto de 1990, Giacometti conta a Adelino Gomes a razão pela qual ficou em Portugal. Dizia ele que, depois de correr vários países em três continentes – Europa, África e Ásia – sentiu “a necessidade de fazer uma pausa” e escolheu o país por descobrir nele “raízes culturais comuns” à sua Córsega, mas também ao sul de Espanha e de Itália; à Provença francesa, à Sardenha ou à Sicília. Conta que deu “a ouvir algumas canções corsas a alentejanos que se arrepiaram: três vozes também, a mesma cultura, a mesma civilização”.

A poucos meses de morrer, o etnólogo confessava-se “em crise. Uma grande crise até. Ideológica também”. Questionava-se se teria valido a pena todo o seu trabalho feito com muitos sacrifícios – “cheguei a fazer prospecção sem nada na algibeira” – e angustiava-o não ter deixado pessoas “capazes de continuar o trabalho”.

As dificuldades financeiras foram uma constante na sua vida. Revela que nunca viveu do seu trabalho. A “Antologia da Música Popular Portuguesa” (um conjunto de LPs com capa de sarapilheira, hoje raríssimo) teve uma tiragem de 300 exemplares. “Nem para uma semana de trabalho no terreno dava”.

Na altura, disse que “o povo alentejano não [podia] ganhar o progresso material perdendo com isso as suas raízes. Deixará de ser alentejano”. E defendia que “é possível harmonizar a cultura técnica e científica com as culturas anteriores. Fazer uma passagem, quase um encandeamento, sem sobressaltos”.

Em 1990, o ano da queda do Muro de Berlim e o começo da derrocada da União Soviética, Michel Giacometti confessava-se um compagnon de route do PCP. “Estou fora do PCP, mas não contra. Este partido pertence ao património do povo português. É indispensável que haja em Portugal um partido que critique a corrupção, as injustiças e os ‘gangsterismos’ políticos e se possa manter como consciência crítica da sociedade”.

Por fim confessa-se um pouco desiludido: “Deixei de algum modo de acreditar nos homens, embora ainda acredite na amizade (o valor mais nobre) e na solidariedade”.

No passado dia 1 de outubro, o presidente da Câmara de Ajaccio, Stéphane Sbraggia, e o cônsul-geral de Portugal em Marselha, Álvaro Ribeiro Esteves, descerraram uma placa que homenageia Michel Giacometti na fachada da casa onde nasceu o etnomusicólogo. O corso mais português do mundo.

Uma resposta

  1. Esqueceram-se do Prof. Joaquim Baptista Roque. Natural de Peroguarda, nascido em 1913, que foi o primeiro etnógrafo a fazer recolha do património musical popular português e, em particular, o do Baixo Alentejo. Ele, juntamente com quatro pessoas importantes na altura, criaram a estrutura que hoje o Cante alentejano ainda mantém.
    Tudo isto, muito antes do sr. Jiacometti chegar a Portugal… Em Peroguarda mandou edificar o Pelourinho, fundou a primeira Casa do Povo, conseguiu dinheiro para se construir uma Escola Primária, fundou o Grupo Etnográfico misto “A Alma Alentejana” em 1938, etc, etc.
    Todo o Espólio deste Professor está à guarda da Câmara Municipal de Portel, onde pode ser consultado.
    Foi organizado pelo Dr. Paulo Lima, grande Sociólogo que já orgaizou várias candidaturas a Património Cultural Imaterial da Humanidade, em particular, o Cante Alentejano, o Fado, entre outros.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar