Miguel Bastos Araújo: “Acrópole submersa em carros”

A opinião de Miguel Bastos Araújo, professor catedrático

Évora é mais do que mura- lhas e pedras antigas. É — como se afirma no chamado bid book, ou melhor, no texto fundacional dacandidatura a Capital Europeia da Cultura 2027 — uma cidade onde se cruzam património, gerações e espiritualidade. A degradação do espaço público e a invasão inusitada do automóvel são problemas que se fazem sentir um pouco por toda a cidade histórica. Mas é na acrópole, onde esse espírito permanece mais visível e intacto, que essa violação se torna mais flagrante — e mais inaceitável.

No cucuruto da cidade ergue-se o Templo Romano, uma catedral e uma antiga mesquita — hoje Igreja de São João Evangelista. Um lugar com uma densidade espiritual única em Portugal, espelhando três tradições religiosas: politeísmo romano, cristianismo e islão.

Junta-se a este património o saber. A Biblioteca Pública, o Museu de Évora, o Museu de Arte Moderna, o Palácio Cadaval, o Palácio do Vimioso — onde hoje se investiga e ensina — acrescentam carácter cultural e científico à acrópole. É um espaço que invoca conhecimento, contemplação, transcendência.

E, no entanto, o que ali se encontra é um retrato do pior que a vida urbana contemporânea tem para oferecer: falta de higiene, ruído, tráfego, emissões, ocupação desregrada do espaço público. O transeunte é forçado a estar permanentemente alerta para não ser abalroado por viaturas. As zonas pedonais são invadidas. Os espaços destinados a bicicletas tornam-se parques improvisados de automóveis — com a conivência tácita das autoridades.

A acrópole é hoje uma das áreas com maior densidade de estacionamento automóvel do centro histórico. Não por necessidade. Por falta de visão. Por má gestão. Por inércia. Por incúria. Este abastar- damento do espaço público fere a dignidade daquele lugar único no país. Viola princípios elementares da gestão urbana em centros históricos. E contradiz os fundamentos da candidatura Évora 2027, ancorada em três pilares: património cultural, espiritualidade e biodiversidade.

Basta olhar à volta. Mérida, outrora capital da Lusitânia romana. Sevilha, influente cidade califal e centro histórico da Andaluzia. Trujillo, terra de conquistadores e ícone medieval da Extremadura. Cidades que protegeram os seus centros históricos e souberam conciliar mo- bilidade com respeito pelo lugar. Em Évora, assiste-se à vulgarização do espaço mais nobre da cidade com um conformismo atordoante.

Libertar a acrópole do automóvel — tanto em circulação como em estacionamento — é um imperativo. Tenho pouca esperança de que o atual Executivo municipal, que em três mandatos nada fez para travar a degradação deste espaço, venha agora corrigir o que sempre tolerou, por ação ou por omissão. Mas seria desejável que aqueles que aspiram a governar Évora se comprometessem, de forma clara e inequívoca, perante os eleitores: devolver a acrópole aos habitantes e visitantes da cidade, retirando de uma vez por todas o automóvel daquele lugar.

Évora apresentar-se-á em breve à Europa como cidade do tempo e da transcendência. Que essas palavras substituam a propaganda dos nossos dias e se tornem realidade concreta.

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