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Miguel B. Araújo: “Brincar com a biodiversidade é brincar com o fogo”

Professor da Universidade de Évora e investigador do Museu de Ciências Naturais de Madrid, Miguel Bastos Araújo aponta a perda de biodiversidade e as alterações climáticas como os maiores problemas ambientais do Alentejo. Alexandre de Barahona, (texto e fotografia)

Tornou-se banal mencionar a biodiversidade, a ecologia, através de breves notícias ou comentários, habitualmente na imprensa, e de forma célere passar-se a outro tema que se presume ser mais interessante, como a socialite ou o futebol. A droga tem esse efeito de nos entorpecer, nos hipnotizar, levando-nos a crer que tudo, são histórias da carochinha.

“Já andaram a gastar milhares de milhões de dólares à procura de vida no universo, mas até gora, só a encontramos aqui. E estamos a delapidar a vida na Terra, a um ritmo bastante acelerado, ou seja, a levarmos à extinção de uma série de espécies. Estima-se que para cada extinção em massa, (atenção, porque já houve cinco) onde desapareceram 80% das espécies de vida no planeta, a recuperação dessas calamidades demore uns cinco milhões de anos!”, coisa pouca, lança Miguel Bastos Araújo, sem rodeios nem aviso prévio.

Ora a espécie humana apenas tem 100 mil anos de existência. Há 40 mil iniciou-se um processo de desaparecimento da megafauna, ou seja, de todos os animais com mais de 40 quilos, que com a exceção de África, não subsistem mais. Mas recentemente também os insetos apresentam graves indicadores anunciando o seu desaparecimento. Miguel Bastos Araújo é perentório: “A geração dos anos 70 estará para sempre associada a estas catástrofes. Resta saber se seremos ainda nós a conseguir a inverter a curva e parar isto. Não se trata de uma questão moral, é a biblioteca da vida que se está a perder”.

O entrevistado destoa, nos seus modos e trajar, dos seus colegas académicos que sempre procuram forçar uma representação clássica e socialmente superior aos demais. Nascido em Bruxelas porque os pais eram exilados políticos, ainda no tempo do antigo regime, cresceu mais tarde em Lisboa, mas sobretudo em Évora, onde após outras andanças ainda reside.

A sua paixão mantém-se ser a da ecologia, contudo esse conceito era ainda um embrião quando estudava, formando-se em geografia pela Universidade Nova de Lisboa. O último ano de licenciatura levou-o à Universidade de Aberdeen (Escócia), e aí abriram-se-lhe outras conceções, diferentes realidades. Não apenas em termos académicos, como também em coisas simples e práticas, tais como os estudantes poderem ter acesso à biblioteca da universidade, por exemplo, a qualquer hora do dia ou mesmo durante a noite, através de um simples cartão magnético. E essa imensa biblioteca era outro planeta, se “comparada com os parcos dados a que tínhamos acesso em Lisboa nos anos 90”, relembra.

Nessas paragens escocesas desenvolveu os conhecimentos em geografia ambiental, conseguindo um financiamento para ali prosseguir os seus estudos e concluir um mestrado em biologia da conservação, as bases daquilo que vulgarmente apelidamos como biodiversidade.

Na parte final deste plano de estudos, um professor do Museu de História Natural londrino deslocou-se à universidade para dar uma aula, um momento que de novo abanou as suas crenças, despertando-o para os critérios de avaliação da biodiversidade.

“Desde sempre que me colocava a questão sobre como escolher qual território proteger, em detrimento de outro” diz, e essa preocupação levou-o a pedir um estágio de três meses nesse célebre museu de Londres, para aprender novas práticas e técnicas. Um dos frutos desse esforço adicional resultou nos primeiros mapas para a biodiversidade que existem em Portugal, concebidos por Miguel Bastos Araújo.

No final veio “a cereja no topo do bolo”, quando lhe propuseram fazer o doutoramento naquela instituição. O que fez e levou quatro anos de afincada investigação. Depois de passar pelos meios académicos na Dinamarca, França, na famosa Oxford, o atual professor catedrático da Universidade de Évora coordena aulas nas temáticas de ambiente e ecologia, mantendo-se, a par disso, como investigador do Museu de Ciências Naturais de Madrid.

Especificamente sobre a região do Alentejo, que agrega um terço do território de Portugal, a questão da perca da biodiversidade mantém-se, e é o primeiro perigo. O segundo são as alterações climáticas. Aqui verificam-se alterações ao nível da agricultura, pois desde que o Alqueva foi criado como tal, os agricultores foram gradualmente substituídos pelos fundos de investimento, “que têm uma pura lógica de ganho de capital, de rentabilidade e nunca de manutenção do espaço, de preservação da natureza. Eles em vez de especularem na banca, especulam com a agricultura”, com a mesma frieza, e escassez de consciência, diria eu.

Os efeitos fazem-se sentir por todo o Alentejo, a míngua de pequenos animais selvagens, como o chilrear dos pássaros se deixou de escutar em locais muito específicos no meio do campo, ou da caça, coelhos, lebres, perdizes. Até os insetos, que em quantidade se esmagavam nos para-brisas dos automóveis circulando pelas estradas, visivelmente diminuem de ano para ano. Há realidades que todos testemunhamos.

A contenda não é com a agricultura, com os agricultores, mas sim com os fundos de investimento, que os expulsa das suas terras. Na opinião de Miguel Bastos Araújo, são coerências opostas: “Os agricultores têm uma lógica em que pretendem manter a base produtiva de toda uma família, manter uma marca e a sustentabilidade do negócio. Para o passar geracionalmente. Portanto, um agricultor sabe que tem de cuidar do solo, sabe que não pode exaurir os recursos hídricos, sabe que precisa de biodiversidade para que o ecossistema onde tem a sua agricultura funcione”.

É preciso uma fauna de solo, ou de aves que fazem o controlo de pragas e o agricultor sabe isso. Um fundo de investimento faz as contas, retira os lucros e retira-se do local, se deixar de ser tão rentável. Como resolver isto? Uma constatação reside no facto de não existirem limitações, nem uma planificação sobre o que deve ou não ser cultivado nesta e naquela área de terra. Assim sendo, cada um faz o que quer, levando a triplicarem-se as culturas intensivas ao acaso, o que pelo seu carácter superintenso arrisca um acelerado empobrecimento dos solos.

O académico tem consciência que não é fácil, mas dada a urgência e ausência de soluções, afirma ser a favor do licenciamento de culturas. “Tal como existem os licenciamentos para a indústria ou imobiliário, poderiam também aplicar-se à utilização dos solos agrícolas”.

Esta seria uma polémico alteração do paradigma agrícola nacional. “A propriedade e modelo de negócio agrícola, são privados, no entanto a terra, toda a terra por debaixo da que é utilizada, não é privada, é um bem comum. A água, apesar de ser paga, também é um recurso comum, e não abunda na região. Mais grave, existem infraestruturas, como todo o sistema de rega partindo do Alqueva, que foram construídas com dinheiros públicos para fins de utilização privados, e para mais, subsidiados. Será legítimo?”, interroga.

Sim, se fosse comprovado que a agricultura no Alentejo seria de segurança alimentar, garantindo os alimentos essenciais no prato dos portugueses. Cerca de 40% do investimento europeu destina-se à agricultura, “mas não deveria ser para produtos extra segurança alimentar, tais como os abacates etc…. e isso sim, para arroz, cereais, carne, batatas entre outros do mesmo género. Ora se a agricultura é no geral um bem privado, o ambiente e proteção da biodiversidade, são bens públicos”.

“ÁGUA DE ALQUEVA DEMASIADO BARATA”

“A água do Alqueva está demasiado barata, e sobrecarregar no preço também poderia ser um instrumento para limitar o excesso de consumo de água em explorações sem nexo, para mercados de luxo”, defende Miguel Bastos Araújo, dizendo que as monoculturas não produzem emprego, antes afastam a população local do trabalho agrícola. Aos olivais somam-se outras culturas “de luxo”, como abacates, amêndoas ou frutos vermelhos no Sudoeste Alentejano, que abundantemente consomem a água, cada vez mais escassa.

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