Na carta, enviada à provedora e aos mesários, João Nabais Pinto começa por referir a “saudável, boa e respeitosa relação de proximidade que em tempos existiu entre tesoureiro e provedora”, para logo acrescentar que essa relação foi desaparecendo nos últimos meses.
Contactado pela “Alentejo Ilustrado”, o ex-tesoureiro recusou comentários adicionais ao conteúdo da carta, na qual recorda uma reunião da Mesa Administrativa em que, refere, “transmiti e expliquei porque razão perdi a confiança na senhora provedora e na sua gestão do presente e futuro da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre”.
João Nabais Pinto escreve que a instituição “necessita que a Mesa Administrativa tenha uma visão criteriosa e estratégica, uma ação transparente e justa na gestão de recursos humanos, fornecedores e demais parceiros”, para logo de seguida recordar que os últimos anos “foram economicamente instáveis e cheios de incertezas”, com a necessidade de dois recursos ao Fundo de Socorro Social, num valor superior a um milhão de euros.
As consequências do agudizar das dificuldades traduziram-se igualmente em “várias alterações e ajustes ao quadro de pessoal com muitos despedimentos”, mas também negociações com fornecedores e “dois grandes momentos de recurso a crédito bancário”, de valor superior a 1,1 milhões de euros, “para fazer face às necessidades de capital herdadas neste mandato e garantir a continuidade da instituição, à manutenção dos postos de trabalho e a prestação de bons cuidados aos utentes das diferentes valências”.
Recorde-se que há dois anos, a Santa Casa rescindiu contrato com 24 funcionários, tendo na altura a provedora, Luísa Moreira, revelado a existência de uma dívida de 1,5 milhões de euros, apontando as obras de ampliação da Misericórdia, efetuadas em 2018, como causa para “o descalabro da instituição” pois “foram muito mais onerosas do que o que estava previsto, foram mal feitas, com erros grosseiros, e obrigam a constantes intervenções”.
Na sua carta de demissão, João Nabais Pinto defende que Santa Casa da Misericórdia de Portalegre “necessita ter mais que uma gestão à vista, necessita ter uma gestão económica e financeira que lhe confira estabilidade e prosperidade, tranquilidade, uma gestão que perceba o presente e aproveite as oportunidades que surgem, pois se elas surgem é porque houve muito trabalho prévio desenvolvido, para que se apresentem como oportunidades”.
Ainda de acordo com o ex-tesoureiro, é necessária uma gestão “feita com estratégia bem definida e não de forma déspota, escolhendo não tomar as decisões mais corretas, aparentemente, tendo sempre os olhos postos na data em que será possível efetuar um novo pedido de ajuda financeira extraordinária, através do Fundo de Socorro Social ou outro mecanismo de ajuda pública”.
Sublinhando a existência de“repetidos acontecimentos” que afetaram “fortemente” a tesouraria da Misericórdia, “sem o meu, sequer, conhecimento”, João Nabais Pinto diz não encontrar “argumentos” para continuar a desempenhar as funções de tesoureiro, que desempenhava desde meados de 2022, decisão da qual indicar ter dado conhecimento ao Bispo de Portalegre.