Nascido em Lisboa, a 1 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina pela Universidade de Lisboa em 1969 e especializou-se em Psiquiatria, área que exerceu no Hospital Miguel Bombarda. Em 1985 decidiu dedicar-se inteiramente à escrita, assumindo-a como atividade principal e também como forma de enfrentar a depressão, que dizia ser comum a todas as pessoas.
“Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, afirmou em 2004, quando já tinha recebido o Prémio União Latina, atribuído em 2003 pelo conjunto da obra. A distinção juntava-se a uma longa lista de reconhecimentos nacionais e internacionais, que incluía o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o prémio de Melhor Livro Estrangeiro publicado em França para “Manual dos Inquisidores” e uma homenagem da Feira do Livro de Frankfurt, em 1997.
A estreia literária aconteceu em 1979 com “Memória de Elefante”. No mesmo ano publicou “Os Cus de Judas”, obra que rapidamente se tornou uma referência da literatura portuguesa contemporânea. Seguiram-se “Conhecimento do Inferno”, em 1980, e “Explicação dos Pássaros”, em 1981. Estes primeiros livros, marcados pela experiência da guerra colonial e pela prática da Psiquiatria, contribuíram para afirmar o autor como uma das vozes mais originais da ficção portuguesa.
Ao longo de décadas construiu uma obra extensa e exigente, caracterizada por uma linguagem intensa, por estruturas narrativas complexas e por uma profunda exploração da memória, da violência e da condição humana.
Em 2004, a República Portuguesa condecorou-o com o Grande Colar da Ordem de Sant’Iago da Espada. Mais tarde, em 2019, recebeu também a Ordem da Liberdade. Em França foi distinguido, em 2008, com o grau de Commandeur da Ordem das Artes e das Letras.
A editora Dom Quixote, responsável pela publicação da maior parte da sua obra, lamentou a morte do escritor e reafirmou o compromisso de continuar a divulgar o seu trabalho.
“Foi com profunda tristeza, e ainda a recuperar do choque, que recebemos a notícia, esta manhã, da morte de António Lobo Antunes, nome maior da literatura portuguesa, autor de romances que ficarão para sempre na memória dos seus leitores e admiradores”, pode ler-se numa mensagem divulgada nas redes sociais da editora.
A Dom Quixote sublinhou ainda que continuará a promover uma obra “cuja importância ultrapassou fronteiras”, despedindo-se “do grande escritor português, o verdadeiro escritor, que dedicou toda a sua vida à literatura”.
Também o Presidente da República eleito, António José Seguro, reagiu à notícia com “enorme tristeza”. Numa mensagem publicada na rede social Instagram, considerou que a obra do escritor está “profundamente marcada pela lucidez, pela memória e pela exigência moral com que olhou o país e a condição humana”.
“A sua obra ocupa um lugar incontornável na nossa cultura. Ao longo de décadas, os seus livros desafiaram leitores, abriram caminhos na literatura e deram à língua portuguesa uma expressão singular de intensidade e verdade”, escreveu.
Para António José Seguro, Lobo Antunes foi “um escritor de rara coragem intelectual, capaz de transformar a experiência individual e coletiva em literatura de grande fôlego”. “A sua escrita ficará como um testemunho poderoso do nosso tempo e como um património duradouro da cultura portuguesa”, acrescentou.
Também o primeiro-ministro e a ministra da Cultura lamentaram a morte de um “escritor maior” da língua portuguesa. “É com profundo pesar que lamentamos a morte de António Lobo Antunes, intérprete sensível e incomparável da condição humana, um dos nossos autores mais reconhecidos das últimas décadas”, afirmou a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, numa mensagem divulgada na rede social X.
Na sua opinião, o escritor deixa “um legado brilhante e inesquecível”.
O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, considerou igualmente tratar-se de uma perda de grande dimensão para a literatura portuguesa.
“O António Lobo Antunes foi e será um dos nomes nucleares de toda a nossa história literária. Deixa uma obra absolutamente fundamental que continuará a ser reencontrada por múltiplas gerações de leitores”, afirmou.
Para José Manuel Mendes, o momento é de luto para a literatura portuguesa. “Da ‘Memória de Elefante’ ao último dos seus romances e às suas crónicas singularíssimas, tudo vibra de uma intensidade que conjuga experiências literárias, profundidade psicológica e um profundo conhecimento do humano, tanto na sua dimensão social como no seu labirinto interior”, concluiu.












