Nesta segunda incursão pelas memórias e gentes do Alentejo, após a aclamada e premiada curta-metragem «Farpões Baldios», que se estreou na Quinzaine des Cinéastes do Festival de Cannes 2017, a cineasta volta a este território para escutar, segundo a produtora, «as vozes tantas vezes obliteradas da nossa História coletiva».
O ponto de partida é a dura jornada de trabalho da vindima. Soraia, uma jovem rapariga, corta-se. O sangue mistura-se com o vinho. Um touro negro segue-lhe o rasto. No regresso a casa, os trabalhadores são forçados a subir aos sobreiros para se porem a salvo. Nas copas das árvores, que agora servem de abrigo, forma-se uma comunidade suspensa no tempo e no espaço, onde todos passam a estar em pé de igualdade.
Entre a luz e as sombras, relatam-se histórias de guerra e paz, das velhas e novas lutas, das dores e dos amores. «Fogo do Vento» é, de acordo com a produtora, «um filme coral que cruza a memória, o onírico e os tempos históricos na mesma trama da realidade, em que se partilha o pão e o vinho, entre gerações e os nossos fantasmas».
Desta memória coletiva faz parte a história pessoal da realizadora, que cresceu no Alentejo. É o seu próprio filho que protagoniza o papel do seu avô, João Encarnação, que, demasiado novo, se viu forçado a combater na Primeira Grande Guerra. O mesmo aconteceu mais tarde, durante os anos da ditadura do Estado Novo, com muitos outros jovens homens enviados para combater nas antigas colónias portuguesas, deixando para trás aldeias de mulheres com crianças.
Os protagonistas são atores e atrizes não profissionais, maioritariamente habitantes do concelho de Estremoz. Do elenco participam rostos que já haviam trabalhado com a realizadora em «Farpões Baldios».
Uma família alargada que reúne pessoas de diferentes gerações, origens e contextos socioculturais: trabalhadoras e trabalhadores rurais, muitas pessoas da comunidade cigana e moradoras no Bairro das Quintinhas, amigos, artistas e membros da família da cineasta.
«Fogo do Vento» é, nas palavras da produtora, «uma reflexão sobre o individual e o coletivo, as construções narrativas, culturais e imagéticas que moldam as perceções da realidade na sociedade contemporânea».
Após a estreia mundial, o filme foi exibido nos mais importantes festivais de cinema e contextos de programação internacional, incluindo, entre outros, Nova Iorque, Londres, Tóquio, Viena, Hamburgo, Valdivia (Chile) e Jeonju (Coreia do Sul), tendo sido amplamente reconhecido pela crítica internacional e incluído pela The New Yorker na lista dos 20 melhores filmes estreados em 2025.
Ao longo do seu percurso internacional, o filme recebeu diversas distinções, entre as quais o Prémio FIPRESCI no Festival de Gijón (Espanha), Melhor Primeiro Filme no Festival de Busto Arsizio (Itália), Prémio Especial do Júri no Avant-Garde Film Festival de Atenas (Grécia), Melhor Realização no Festival Caminhos do Cinema Português (Portugal) e o Grand Jury Prize no Most — Festival Internacional de Cinema del Vi.



O filme tem estreia marcada na Coreia do Sul este verão e já estreou comercialmente na Argentina, no Uruguai e nos Estados Unidos. Em simultâneo, integrou programações de várias cinematecas e universidades, incluindo Harvard, Brown, Yale, Princeton, Chicago, Stanford e Berkeley, onde Marta Mateus foi ainda convidada a programar e a lecionar.
A ideia para a realização de «Fogo do Vento» partiu da imagem de um touro negro que surgiu a Marta Mateus. Tendo-o inicialmente concebido como curta-metragem, a cineasta rapidamente percebeu que, para contar esta história, o filme teria de se estender para um formato mais longo, de acordo com uma duração que, sublinha a produtora, «nos convida a entrar lentamente no seu universo, no interior da paisagem que se expande à nossa frente».
Tendo sido preparado antes e durante a pandemia, a rodagem iniciou-se finalmente em 2021 e prolongou-se ao longo de quatro anos. Neste período, Marta Mateus demorou-se a estudar a incidência da luz em cada árvore e foi ampliando o argumento do filme, incluindo novas pessoas e as suas histórias.
Acabou por ser a própria cineasta a tomar em mãos a câmara de filmar, assumindo, a partir daí, a direção de fotografia e passando a trabalhar com uma equipa muito reduzida. «Este processo intimista» – prossegue a mesma fonte – «permitiu-lhe investigar caminhos narrativos e estéticos para o filme, ao mesmo tempo que o trabalho com as atrizes e atores não profissionais se foi aprofundando».
Além de responsável pelo argumento e realização, Marta Mateus partilha a direção de fotografia com Vítor Carvalho e a montagem de imagem com Claire Atherton. «Fogo do Vento» resulta de uma produção da Clarão Companhia, fundada por Marta Mateus e pelo cineasta Pedro Costa, em coprodução com a Casa Azul Films e Les Films d’Ici.
A cineasta que escuta o Alentejo
Marta Mateus nasceu em Estremoz, em 1984, e é cineasta e produtora de formação plural: estudou Filosofia, Desenho e Fotografia, Música e Teatro. É autora de dois filmes. «Farpões Baldios» (2017) estreou-se na Quinzaine des Cinéastes do Festival de Cannes; «Fogo do Vento» (2024) foi apresentado na Competição Internacional do Festival de Locarno.
As obras percorreram festivais internacionais, recolheram prémios relevantes e têm sido exibidas em salas de cinema, cinematecas, museus e galerias de arte em várias partes do mundo, a par das suas instalações vídeo e sonoras. Em 2018, foi artista-residente na Casa de Velázquez — Académie de France, em Madrid.
Nesse mesmo ano fundou a produtora Clarão Companhia, através da qual produziu, além dos seus próprios projetos, «As Filhas do Fogo» (2023), de Pedro Costa, estreado na Seleção Oficial do Festival de Cannes. A produtora tem atualmente em curso filmes de outras autoras e autores.













3 Responses
Enorme curiosidade e orgulho pela obra de uma artista conterranea!
Muitos parabéns! Venham muito mais obras que dão a conhecer as gentes da nossa terra, a sua luta, o seu doloroso percurso.
Parabéns Marta pelo percurso e que tenhas o sucesso que bem mereces, beijos………..
Que maravilha!
Gosto muito de cinema. Vivi em Estremoz até aos meus 17 anos, altura em que vim para Lisboa continuar os meus estudos, continuando a minha casa sendo a casa dos meus Pais.
Em Estremoz convivia muito com Aníbal, Carmelo, Jacinto, Vermelho, M.el Falcato, que estimularam o meu prazer pela cultura.
Em Estremoz formou se o Cine Clube, que atingiu uma forte dimensão no movimento Cineclubista que se estendeu pelo País e levou o fascismo com a Pide a estingui lo.
Parabéns pelo seu trabalho a que desejo continuidade e felicidade.