Nicolau Saião: «A minha poesia é um pouco heterodoxa»

Poeta, escritor e artista plástico, Nicolau Saião cruzou-se com Cesariny e Cruzeiro Seixas e construiu uma obra multifacetada, entre a poesia, a prosa e a pintura. Há quem lhe chame o últimos dos surrealistas.

Júlia Serrão (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

«Não pode ser considerado um pintor, sob pena de falseamento grave da sua figura de criador, nem só um escritor, pela mesma razão. Temos de o considerar um artista para darmos conta da sua totalidade. Um artista multifacetado e militante cultural (…).»

As palavras de Maria Estela Guedes, no prefácio do livro de textos e prosas diversas de Nicolau Saião «As Vozes Ausentes», vão além da análise do conteúdo, para se tornarem abrangentes à obra total do autor e à sua genialidade na escrita e na pintura. «O artista exprime-se ora como pintor ora como escritor (…). Não só pinta com palavras e frases, ele pinta livros, os livros são tema da sua pintura, quer como textos manuscritos, quer como formas geométricas», acrescenta a dramaturga, poeta e ensaísta.

O homem por trás do nome Nicolau Saião, pseudónimo literário/artístico, é Francisco Ludovino Cleto Garção, nascido em Monforte no ano de 1946, que tem vivido praticamente a vida inteira em Portalegre. Foi buscar Saião a um ramo da família, «de uns primos que eram hortelões, pessoas excelentes e humildes, que tinham a chamada poesia campesina», diz. Também «significava pessoa um pouco rebelde», analogia que parece ter-lhe agradado. Já Nicolau «era o nome que Lúcifer tinha na Bretanha». Juntos, formavam «um nome eufónico»: Nicolau Saião. Começou a usá-lo ainda antes de publicar livros, quando escrevia textos para o Diário de Lisboa e para o República. «Uma vez, o Álvaro Guerra disse-me: “Estes gajos da censura embirram um bocadinho contigo, às vezes cortam-me as coisas que tu para cá mandas, pá!” Então, disse-lhe que a partir dali assinava Nicolau Saião, talvez assim os gajos não embirrassem tanto».

Três anos depois de nascer, a família mudou-se para Portalegre. Mas foi ainda em Monforte, um pouco antes da partida, que a poesia lhe brotou espontânea. A mãe memorizou «o poemazinho» feito pelo filho tão pequenino ainda, que ele agora recita: «A roseira do comboio deita rosas para a linha, e o comboio, quando passa, cheira e diz rosa minha».

Foi sempre uma pulsão natural, que sentiu sempre com ele. «Os versos apareciam-me, e, como deve ter reparado, a minha poesia é um pouco heterodoxa. Tinham a ver com o Alentejo, mas de uma maneira lata, que se pega aqui muito com Espanha». O facto de a mãe ter sido criada durante algum tempo no país vizinho fez com que o sentisse «uma espécie de ‘patria chica’ também». Como era muito novo, sem noção de fronteiras, «tudo formava uma entidade múltipla» para ele.

O amor pelo Alentejo permaneceu. «Estive muitas vezes no estrangeiro, à conta da poesia e das artes, e sempre, quando voltava, sentia um gosto especial por vir para a minha patria chica. Quando entrava no Alentejo, sentia sempre um élan especial. Nunca me senti sufocado na província, foi sempre para mim um gosto voltar a casa». Foi feliz ali, em todas as etapas da vida.

«Lembro-me bem da infância e da primeira adolescência. Tinha pais compreensivos, eram pessoas muito boas, excelentes. A minha família foi uma família funcional, que me compreendeu sempre».

Começou a publicar no Juvenil do Diário de Lisboa, «na altura orientado pelo Mário Castrim, que foi a pessoa que fez as primeiras análises àquilo que eu escrevia», observa. As artes plásticas aconteceram mais tarde, «por volta» dos 18 anos, ainda que sempre tivesse tido «uma grande visão para a disciplina de pintura». Certo dia, numa galeria de Portalegre, foi «imediatamente derrotado pelo preço» de uma obra que gostara particularmente. E achou «esta coisa da pintura tão interessante», que pensou dedicar-se a ela «Comprei canetas de feltro e uns guaches e comecei. A pouco e pouco é que fui descobrindo a coisa. A gente vai inventando e descobrindo».

Foi também por essa altura que viu «os primeiros quadros de pintores surrealistas», de Brauner e Dali, numa revista brasileira que encontrou na sala de espera de um consultório médico. «Então despertei para aquela nova poesia, para aquela nova pintura, que era uma pintura poética. E foi de certa maneira isso que me deu algumas pistas de pensamento. Não de influências, porque acho que não tive influências de ninguém. Foram coisas que fui descobrindo por mim mesmo e à minha maneira. Foi pela beleza que aquelas coisas continham». Foi fazendo experiências e evoluindo.

Uns advogam-lhe um estilo original que evoca a ‘pop art’, sendo que as colagens, também presentes no seu trabalho, são uma manifestação do movimento surrealista. Poeta-escritor-artista plástico, talvez original demais para se encaixar na opinião dos críticos.

As artes plásticas levaram-no muitas vezes além-fronteiras, à semelhança da literatura. Participou em mostras de arte postal (o movimento artístico criado na década de 50 que utiliza envelopes, selos, colagens e desenhos) em vários países da Europa, mas também no Canadá, Estados Unidos e Austrália, e participou em exposições individuais e coletivas noutros tantos países, como Espanha e Geórgia, além de Portugal.

Francisco Garção tem um currículo infinito. Foi também meteorologista, publicista, ator-declamador, jornalista — foi chefe de redação do semanário A Rabeca, tendo para o efeito realizado um estágio-especialização em Lisboa no velho República, sob orientação de Mário Mesquita e Álvaro Guerra. «Foram uns tempos encantadores. Era tudo gente com um enorme sentido de humor e com uma acutilância extraordinária. O que mais aprendi com eles foi o desenxovalhamento que eles tinham».

Criou, realizou e apresentou um programa rádio Portalegre, organizou, coordenou e encarregou-se do prefácio da antologia internacional «Poetas na Surrealidade em Estremoz», tem colaborado em espaços culturais de vários países — suplementos literários, a maior parte. Organizou e pôs em prática várias atividades com Mário Cesariny, como a exposição «O Fantástico e o Maravilhoso».

Durante 14 anos, até se aposentar em 2005, foi responsável pelo Centro de Estudos José Régio, sob a alçada da Câmara de Portalegre. «Foi uma vida maravilhosa aí, muito interessante. Escrevi muito sobre José Régio». O convite partiu do presidente do município, logo depois de Francisco, no caso Nicolau Saião, ter recebido o Prémio Nacional Revelação/Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. A obra galardoada é «Os Objetos Inquietantes», que em 1992 seria o seu primeiro livro publicado «a solo». A ideia de levar a obra a concurso partira dos dois filhos mais velhos — tem quatro —, que decidiram não dizer «nada» ao pai. Antes, havia participado com outros autores em «Palavras: Sete Poetas Portugueses Contemporâneos», e «João de Sousa, que prefaciava a obra, teve palavras desvanecedoras para mim», recorda. «Foi o primeiro poeta que virou os olhos para a minha poesia, e aquilo que disse calou-me fundo».

Às vezes mistura a escrita e o desenho num só título. O livro que mais ilustrações suas tem é a antologia de poesia e pintura «Olhares Perdidos», organizada por Floriano Martins e publicada no Brasil, sendo que também é autor de algumas capas.

Diz que os temas levados para o papel «são heterodoxos». Em «Flauta de Pan», detalha, existe uma parte que se chama «Caixa de Cores», que é sobre pintura e poesia. «Na poesia não tenho um fio condutor, é conforme me vai surgindo. Na prosa, é um acervo largo em que escrevo também sobre o que me ocorre. Escrevi sobre os índios americanos, sobre Cézanne — um dos meus pintores preferidos, faz parte daquilo que eu chamo a minha santíssima trindade, ao lado de Mashabane e Schubert — e sobre literatura policial. Sou um apreciador de literatura policial e tornei-me uma espécie de especialista disso. Carlos Martins deu a pista, e eu escrevi um acervo completo sobre o tema. Na prosa, os meus interesses são multifacetados».

A destacar ainda a sua ligação ao Bureau Surrealista Alentejano, projeto que funda e dinamiza, e que o vai pôr em contacto com Cesariny e Cruzeiro Seixas, com quem vai manter amizade e «diálogos criativos». Essas duas figuras do surrealismo português tiveram «pouquíssima influência» no seu trabalho. «Acho que a minha poesia, a minha arte e a prosa têm um certo grau de originalidade. O que eles me deram de melhor foi a sua maneira de ser, eram excelentes tipos. Formávamos uma irmandade», diz. «Acho que já nasci mais ou menos surrealista. Mas a verdade é que tive sempre uma relação com essa maneira de ver as coisas, porque me pareceu livre, imaginativa e muito interessante».

Os críticos parecem ser consensuais a este respeito, assim como os académicos. Luís Barreiro, doutorado em Psicologia Aplicada, que analisa a coletânea de textos «As Novas Vozes» de Nicolau Saião, descreve-o como «escritor de rara lucidez e densidade poética», que se inscreve «na genealogia mais legítima do surrealismo, quer enquanto movimento literário e artístico, quer como atitude ética de insurgência contra os automatismos ideológicos e as prisões de consciência normativa». E conclui: «Num tempo em que os automatismos do consumo e da ideologia diluem o sujeito na linguagem publicitária, Nicolau Saião insiste em manter acesa a faísca do desejo. O seu surrealismo não é apenas memória de um movimento, mas a emergência intempestiva de um pensamento do fora — do exílio, do anacrónico, da heterodoxia».

Francisco Garção desvenda o processo criativo de Nicolau Saião: da escrita, a poesia e a prosa, e das artes plásticas. «Digamos que são as duas mãos do pianista, trabalha-se uma coisa e outra. Umas vezes está-se uma data de tempo sem pegar em materiais para pintar, vai-se fazendo poemas, vai-se pensando principalmente e, então, começa-se a pintar. Havia dias em que eu fazia três e quatro quadros. Portanto, era uma febre autêntica. Depois passava a febre, estava uma série de tempo sem fazer nada. Escrevia apenas poesia ou coisas em prosa. Agora, escrevo mais prosa, textos, do que poesia. Já disse muita coisa, e essas coisas que disse de certa maneira chegaram para agora estar um bocadinho mais sossegado».

O sossego do seu Alentejo, e particularmente do lugar onde vive, deu-lhe sempre bastante tempo para meditar e criar. «Portalegre» – refere – «é uma cidade mansa, permitia-me fazer os meus passeios longos por estes sítios, pelo campo e pela cidade. De certa maneira, o que ela me deu foi uma certa tranquilidade interior para dominar os meus ritmos e fazê-los».

Hoje, os dias de Francisco Garção têm outro compasso. «A febre da poesia e a febre da pintura já estão um bocadinho mais desvanecidas. Viro as minhas atenções para ir vivendo, ir lendo, estar aqui com a minha gente, inclusivamente com as minhas gatinhas. A poesia e a pintura agora são feitas por dentro. O que tenho escrito mais tem sido a nível de prosa», conta. Colabora ainda com uma publicação de artes e letras, a «Filamentos», órgão da diáspora açoriana na cidade de Fresno, na Califórnia. «De certa maneira, isto liga-me a uma coisa muito importante, que é a gente estar sempre a traçar armas a ver se o mundo fica um bocadinho melhor. É a minha forma de tentar melhorar o mundo».

Também faz parte do Movimento Internacional Lusófono, que defende a consolidação dos laços entre os países e regiões do espaço lusófono, a níveis cultural, social, económico e político, conforme o filósofo Agostinho da Silva o concebeu. Em 1992, o Município de Monforte, sua terra natal, atribuiu-lhe a distinção de cidadão honorário e, em 2001, a cidade de Portalegre comemorou os seus 30 anos de atividade cívica e cultural, concedendo-lhe a medalha de prata de Mérito Municipal.

2 Responses

  1. Grande poeta, um enorme ser humano que tive a honra de conhecer a propósito do trabalho de investigação sobre outro poeta portalegrense, Orlando Neves (1935-2005), cuja biografia será lançada muito em breve.
    Rui Bondoso

    1. Navegando pelas ruas da Net à cata de livralhada afável nos espaços de alfarrabistas, entro no corpo da “Alentejo Ilustrado” pois me haviam anteriormente informado que, lá, havia coisas para além do que se pode ver na revista em espécie. E, com alguma surpresa, verifico que ali está dado o bloco constituído pela entrevista, competente e bem estruturada, que me foi feita por Júlia Serrão. Complementada, se assim o digo, por um comentário do meu novel amigo – e confrade de muita qualidade – Rui Bondoso, que num arroubo fraternal me dedica palavras assaz cordiais que agradeço firmemente.
      Faço questão, se me permitem, em dizer que Bondoso, além de publicista integérrimo enquanto personalidade ligada ao jornal de Moimenta da Beira, é o autor do recentemente dado a lume pelas ‘Edições Esgotadas’ “Eduardo Salgueiro – o editor esquecido”, tomo notável de mais de 400 páginas no qual é arrolado o percurso completo do criador e proprietário das “Edições Inquérito”, uma das mais importantes editoras já havidas em Portugal e que se salientou não só pela qualidade do largo acervo dos livros dados a lume mas, também, pela beleza dos espécimes produzidos, fruto da arte de capear de artistas como Fred Kradolfer, Figueiredo Sobral, Infante do Carmo, Ribeiro de Pavia e muitos outros cujo alto mérito ficou na História da edição em Português.
      Por último, refiro que no dia 26 do corrente – data acordada após ligeiro adiamento – Rui Bondoso estará em Portalegre para o lançamento do ensaio biográfico que terá como protagonista Orlando Neves – editor, ensaísta, radialista, crítico e poeta de excepção, que deixou o seu rasto como uma das figuras fundamentais de Portalegre e deste nosso Alentejo culto e interventivo com relevo nacional. Na ocasião será também descerrada uma placa com o seu nome, gesto a que o município local se associa, aposta na fachada da Casa do seu nascimento.

      Nicolau Saião

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