Aos 27 anos foi o mais jovem vencedor do Prémio José Saramago e, agora, aos 51, recebe o Prémio Vergílio Ferreira. O que mais mudou em si nestes 24 anos de escrita e vida?
Mudou sobretudo a consciência do tempo. Aos 27 anos escrevia com mais pressa e com mais certezas; aos 51 escrevo como quem escuta. A urgência transformou-se em atenção. Continuo a ser movido por inquietações semelhantes, mas hoje aceito melhor as contradições e o silêncio, que também me parece muito necessário.
O júri destacou a sua capacidade para partir da experiência vital no Alentejo e tocar leitores em todo o mundo. Quanto mais particular, mais universal?
Acredito que sim. A referência aos detalhes de uma rua concreta, de uma voz específica, de um gesto íntimo é, com frequência, o que permite que alguém do outro lado do mundo se reconheça. Ao longo dos anos, em diversos livros e textos, tenho encontrado muitos exemplos disso. No que diz respeito à ruralidade, que muitas vezes se considera específica e única, já encontrei muitos leitores de outros continentes que estabelecem relações entre realidades que lhes são próximas e o Alentejo que descrevo em alguns livros meus. O universal raramente nasce da abstração, nasce do rigor do particular.
Numa das vezes em que o entrevistei, disse que era um homem de afetos e que “chorava muito enquanto escrevia”. Nunca mais me esqueci disso, porque continua a ser muitíssimo raro um homem assumir que chora. Isso ainda lhe acontece?
Sim. Talvez menos vezes, mas com igual intensidade. Escrever é aproximar-se de zonas frágeis. Não vejo nisso uma exceção masculina ou feminina, vejo uma forma de honestidade com aquilo que se sente, uma tentativa de me encontrar e de me conhecer a mim próprio.
Já afirmou que “toda a escrita é sobre pessoas”. Ao fim de tantos anos de escrita e reflexão, as pessoas continuam a interessá-lo?
Cada vez mais. As pessoas são inesgotáveis. Mudam, surpreendem, falham, reinventam-se. Toda a narrativa é, no fundo, uma tentativa de compreender o outro e, por reflexo, compreender-nos. É um facto que, com as minhas transformações pessoais, com a minha evolução, muda o olhar que dirijo aos outros e, dessa forma, mudam também os outros. A literatura é feita de uma matéria absolutamente humana e, por isso, as pessoas serão sempre o seu principal interesse.
Como é que os livros entraram na sua vida? Como é que um miúdo de Galveias se torna obcecado pelas palavras?
Os livros entraram na minha vida em dois momentos muito claros. Primeiro, em casa, através das minhas irmãs e dos livros que existiam nas estantes. Eram objetos um pouco misteriosos, muito respeitados, quase solenes e, talvez por isso, despertavam em mim tanta curiosidade. Havia neles qualquer coisa de interdito e, ao mesmo tempo, de convite silencioso. Mais tarde, o verdadeiro salto deu-se nas bibliotecas, sobretudo na biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. Aí fez toda a diferença poder começar a escolhê-los eu próprio. Esse gesto de escolha era uma forma de autonomia e de descoberta. Muitas vezes contava também com as sugestões do senhor Diniz, o carismático bibliotecário, cuja presença transformava aquele espaço num lugar de orientação e entusiasmo, não apenas de empréstimo de livros.
Começou por escrever poesia, inspirado por Florbela Espanca, outra alentejana. O que é que a poesia lhe traz?
A poesia traz concisão e vertigem. É o lugar onde a linguagem se torna mais densa e mais livre ao mesmo tempo. Mesmo quando escrevo prosa, procuro essa tensão poética. Em Portugal, além disso, temos uma enorme tradição poética que dificilmente deixa qualquer escritor indiferente. Herdamos essa sensibilidade quase naturalmente ao usarmos a nossa língua, como se cada frase trouxesse consigo ecos de toda essa literatura que nos antecedeu.
Tem duas irmãs mais velhas, é assumidamente um irmão mimado. Que importância tiveram, e têm, as mulheres da sua família no escritor que é?
Fundamental. Deram-me referências de força, de cuidado e de ironia. Muitas vezes são as primeiras leitoras invisíveis de tudo o que escrevo. A minha mãe é uma narradora com grande vocação, algo que se pode constatar no podcast “Menina Alzira”, que fazemos juntos, e as minhas irmãs, uma com maior inclinação para a ciência, a outra com mais queda para as letras, foram também influências determinantes, cada uma à sua maneira, no modo como aprendi a olhar o mundo e a linguagem.
Como era o Alentejo da sua infância? E como o vê agora?
O da infância era mais povoado, mais vivo no quotidiano, com mais gente nas ruas e mais vozes a atravessar os dias. O de agora é, em muitos lugares, mais silencioso. Ainda assim, continua a ter uma relação muito particular com o tempo e com o horizonte, uma amplitude que molda a forma como se pensa e se sente. Nem tudo era melhor ou pior antes; as coisas não são assim tão simples. Há aspetos de que sinto saudades, sobretudo essa sensação de comunidade e de presença humana constante, e há outros que me deixam satisfeito por terem evoluído. Em qualquer dos casos, não espero que o passado regresse. A memória serve-nos para compreender, não para regressar. É a partir do Alentejo que temos hoje, com as suas fragilidades e as suas forças, que precisamos de construir o futuro.
Há um “ser-se alentejano” ou isso é mito?
Talvez haja uma forma particular de lidar com o espaço e com a espera. Não é superior nem exclusiva, é apenas uma tonalidade diferente dentro do que significa ser-se português. Embora o Alentejo tenha uma cultura tão própria, que se manifesta em tantos aspetos, sinto que Portugal tem uma identidade nacional bastante coesa. Esta visão talvez nasça do facto de viajar bastante. Sei que, quando estou longe, se encontro um português, mesmo que de outra região, partilhamos imediatamente um mundo de referências.
Porque é que o Alentejo continua tão inspirador?
Talvez porque seja um território de contrastes: vastidão e detalhe, dureza e delicadeza. Essa tensão é fértil para enriquecer a forma como olhamos o mundo. No Alentejo, o horizonte é sempre maior do que nós próprios, e isso cria uma consciência muito particular da escala humana, humilde, mas também desafiadora. A paisagem é ampla, mas dentro dessa amplitude existem minúcias: uma árvore isolada, uma parede caiada, uma sombra que muda ao longo do dia. Essa convivência entre o detalhe e o transcendente ensina-nos a olhar com atenção. Além disso, há também uma relação muito forte com o tempo, com a respiração. O ritmo das estações, o inverno duro, o calor abrasador do verão, o silêncio, tudo convida à contemplação e à escuta interior. Não é apenas um espaço físico, é um espaço que existe dentro de nós. O Alentejo oferece distância, essencial para imaginar, para recordar, para transformar em narrativa o que aconteceu. É igualmente um lugar que concentra a sofrida história do povo, marcado pelo trabalho, pela resistência, pela pertença, pela comunidade.
Teve uma banda punk em adolescente, gosta de música “pesada”, tem tatuagens e piercings, é vegetariano e contra as touradas. Como é que uma pessoa assim sobrevivia no Alentejo? E que traços guarda ainda do adolescente que foi?
Com humor e alguma teimosia. Guardo ainda a irreverência, a desconfiança saudável e a vontade de não aceitar o mundo tal como me é apresentado. Também essa foi uma escola que me continua a ser muito útil. O entusiasmo da adolescência, a crença ingénua, são qualidades muito úteis em todas as idades.
Nasceu no mesmo ano do 25 de Abril. O que faz de si uma pessoa de esquerda?
A ideia de justiça e de dignidade humana. A convicção de que a cultura e a educação devem ser acessíveis e de que ninguém é descartável. Identifico-me com os valores essenciais da esquerda, valorizo o papel do povo, mas considero-me independente: tento respeitar todas as opiniões e esforço-me por pensar em absoluta liberdade.
A perda do seu pai marcou-o para sempre…
É uma fratura que nunca se fecha totalmente. Mas também é um motor: a consciência precoce da finitude torna tudo mais urgente e mais precioso. Desde o primeiro livro, “Morreste-me”, até ao mais recente, “A Montanha”, esse tem sido um tema recorrente. Essa insistência deve-se justamente ao impacto que essa perda teve na minha vida e, depois, com a maturidade, à perceção do que é ter um pai e também do que é ser pai, uma experiência que tenho na minha vida há quase 30 anos.
E que tipo de pai é?
Espero ser um pai compreensivo, um pai que ouve e que procura estar disponível. Mas, acima de tudo, espero ser um pai que deixa claro aos filhos o amor que tem por eles. Essa é, para mim, a característica mais fundamental que um pai deve ter: que os filhos nunca duvidem desse amor, que o sintam de forma evidente, quotidiana, quase natural, como uma base segura a partir da qual possam construir quem são.
Tem Yoknapatawpha tatuado num braço. O que é que deve a William Faulkner? E o que é que deve a outros escritores?
A Faulkner devo a noção de território imaginário e de profundidade temporal. Aos outros devo mapas, atalhos, advertências e coragem para tentar caminhos próprios. São muitos os autores para com quem tenho dívidas. Ao longo dos anos, foram professores que me acompanharam através de inúmeras leituras. Quem leva a leitura consigo sabe que essa é uma vida que temos, às vezes tão real como esta que nos rodeia.

Já viajou por todo o mundo, principalmente pela Tailândia. Porquê esse fascínio pelo Oriente?
Não é fácil responder a essa pergunta. A resposta é tão ampla que não pode ser resumida. Talvez precise de vários livros, que tentarei escrever no futuro, para sentir que comecei a dar essa resposta. Digo “comecei” porque não creio que essa resposta tenha fim. Ainda assim, penso que posso afirmar que as viagens trazem vida, são a ambição de viver, de não desperdiçar o tempo que passo aqui.
Ficou famosa a sua viagem à Coreia do Norte (entretanto já fez outras), que deu origem ao livro “Dentro do Segredo”. Que mais o marcou num mundo tão claustrofóbico?
A Coreia do Norte é um país muitíssimo diferente do nosso a bastantes níveis. Não se trata apenas do regime, que é bastante extremo e diferente, mas também da grande distância civilizacional. Ao falarmos da Coreia do Norte, estamos a tratar de uma cultura que tem uma história extraordinariamente diversa da nossa e, por isso, com uma perspetiva e mesmo com valores muito diversos dos nossos. Quem tiver curiosidade poderá ler o meu livro “Dentro do Segredo”, que descreve a forma como reagi a inúmeras experiências que tive por lá. Penso que ficará com uma boa ideia da visão que tenho em relação àquela realidade tão dura.
Se se sentasse hoje para reler um livro seu, qual seria?
O único livro que já reli integralmente foi “Morreste-me”. Por um lado, trata-se de um livro curto; por outro, trata-se de um texto fundamental ao qual, por diversos motivos, regresso com frequência. Quando releio esse livro, experimento uma sensação curiosa: reconheço-o, mas também me surpreendo com muito do que encontro por lá, detalhes que já não recordo com muita nitidez. No que diz respeito a outros livros, também me acontece reler passagens e tenho essa mesma sensação. É muito curioso ter uma parte do passado fixa em livros, mexe um pouco com a forma como se lida com a memória.
Como é que nasce um livro? Qual é o gatilho?
O primeiro momento do nascimento de um livro é uma forte epifania: algo que, de repente, faz sentido de um modo novo e impressionante. Esse elemento pode ter muitas formas, mas, depois, para ganhar corpo, precisa de ser acompanhado por muitos outros elementos, todos os que constituem um texto e, posteriormente, um livro.
Há uma frase muito bonita e muito repetida em “Nenhum Olhar”, onde escreve que “talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram”. A tarefa do escritor é tentar ordenar esse caos ou é outra qualquer?
De certa forma, concordo com essa afirmação, uma vez que a construção de um texto requer sempre alguma organização. Temos sempre de saber onde começamos, como continuamos, onde decidimos terminar. Temos de definir as quantidades que utilizamos de cada elemento, as proporções. Ainda assim, mais do que ordenar, trata-se de iluminar. Escrever é nomear, olhar e identificar. Nem sempre o caos se resolve, às vezes apenas se torna legível.
Também nesse livro há um homem que está num quarto sem janelas a escrever. É esse homem?
Com frequência, sim. Passo muito tempo a escrever, a introspeção é uma característica intrínseca e indissociável da escrita, embora seja pouco visível, naturalmente. Essa personagem do romance “Nenhum Olhar” é uma metáfora de qualquer escritor. Escrevemos sempre entre paredes, tangíveis ou intangíveis.
Porque a memória é como uma maldição?
A memória não é uma maldição, essa é apenas uma frase dita por um narrador num determinado momento de um texto específico. A memória é uma bênção.
É um dos escritores mais lidos em Portugal, o que, numa altura em que se lê cada vez menos, não é dizer pouco. Conte-me alguma frase que um leitor lhe tenha dito e que o tenha marcado.
Felizmente, tenho muitas frases que me foram comunicadas por leitores e que me marcaram. As que mais me deixam realizado são as que me mostram que aquela pessoa se identificou com o que leu, que se apropriou daquelas ideias ou daqueles sentimentos. É essa a alquimia que interessa à escrita. Quando corre bem, quando funciona, o texto é um encontro.
Qual é a sua palavra preferida?
É uma palavra humana, todos a conhecemos, mas não posso dizê-la aqui.










