No rio de sons de Ana Santos cruzam-se memórias e sonoridades do mundo

A multi-instrumentista bejense Ana Santos lançou em outubro o seu primeiro álbum a solo, «Água e tudo o que ressoa», onde o Alentejo serve de ponto de partida para um universo folk atravessado por sonoridades de vários pontos do mundo. Viola campaniça, sons do Guadiana e a memória do avô ceramista compõem um trabalho feito «sem pressas».

João Spencer (texto) e Susa Monteiro (ilustração)

Depois de vários anos de experiências musicais partilhadas com nomes como Celina da Piedade, Tó Zé Bexiga ou Além Cabul, a multi-instrumentista bejense Ana Santos estreou-se a título individual através do álbum «Água e tudo o que ressoa». Neste trabalho, constrói o seu próprio universo folk de forma bastante fluída e inspirada por sonoridades de vários pontos do mundo, ao mesmo tempo que celebra as suas raízes alentejanas.

Os primeiros passos foram dados aos 16 anos, quando iniciou os estudos em violino no Conservatório Regional do Baixo Alentejo. Não se ficou por aqui — apesar de ter ingressado em Arqueologia após o ensino secundário, mudou de via para se licenciar em Ciências Musicais. «A música foi sempre inevitável na minha vida; e necessária», afirma Ana Santos.

O gosto pela música já lhe era nutrido no seio familiar: a mãe apresentou-lhe compositores eruditos como Mozart, Beethoven ou Dvořák, e o pai, que trabalhou numa estação de rádio local, expôs-lhe bandas de rock como Pink Floyd, Camel, Lynyrd Skynyrd ou ZZ Top.

«Eles sabiam escutar música, ensinaram-me isso e trouxeram-me até aqui.» Com efeito, esta variedade de influências não será de espantar quando nos deparamos com o percurso que Ana Santos tem desenhado até hoje: do seu currículo constam colaborações com revivalistas da música tradicional portuguesa como Tó Zé Bexiga e Celina da Piedade, mas também com a contadora de histórias Cristina Taquelim, o grupo de rock progressivo Conjunto!Evite, ou o projeto Além Cabul, que procura ligar as linguagens musicais do Alentejo e do Afeganistão.

Para Ana Santos, tais colaborações «são inspirações e também consequências do cruzamento de universos musicais» que tem tido nos últimos anos. Após este acumular de experiências, avançou com a sua primeira aventura a solo no álbum «Água e tudo o que ressoa». A produção do disco foi partilhada com dois dos seus parceiros criativos de longa data — Celina da Piedade e Sebastião Santos (Conjunto!Evite) — que também contribuíram como intérpretes em alguns dos temas. Mas a lista de convidados não fica por aqui: também podemos encontrar Cristina Taquelim, Miguel Rêgo, Luciana Costa (Trovadoras Itinerantes), Raimunda Soares, Ustad Fazel Sapand, Tiago Rêgo e Mili Vizcaíno.

O álbum junta diversas coordenadas da música folk e revela-nos a artista — habitualmente associada ao violino — a recorrer à viola campaniça (um dos instrumentos principais no seu trabalho atual), violino barítono, flautas de cana, pífaro de barro, percussões e ainda à captação de recolhas sonoras dentro da região, tanto de relatos orais como de sons da natureza.

«Tenho memorizado música de muitos pontos do mundo, e que me mora na pele, mas o Alentejo foi sem dúvida o ponto de partida para este trabalho de estreia a solo», admite. Como tal, entende que as recolhas sonoras que realizou não só servem uma finalidade musical como também permitem que exprima a relação que possui com o Alentejo, região da qual é natural e residente.

Uma parte substancial do repertório do disco surgiu a partir de ideias que já tinha utilizado para bandas-sonoras, podcasts ou bailados. No entanto, isso não a impediu de assumir uma estética bastante livre e fluída, algo que a artista acredita poder ser um reflexo da construção do álbum, uma vez que foi feito «sem pressas, improvisando livremente grande parte das melodias, desenhando as minhas próprias paisagens sonoras, como se de aguarelas musicais se tratassem».

Essa mesma fluidez parece fazer ainda mais sentido quando Ana Santos revela que olha para «Água e tudo o que ressoa» como se de um rio se tratasse, a transportar uma única história desde o primeiro ao último segundo da sua audição. E porquê a água? «Todos sabemos como é essencial», explica, ao mesmo tempo que alerta para o uso excessivo deste recurso nas culturas superintensivas na região e dos possíveis impactos negativos a nível ambiental.

Para além disso, quis ainda «mostrar como um elemento tão essencial à vida pode ser matéria poética em várias vertentes: música, poesia, prosa, pintura». Refere como exemplo os trabalhos de aguarela desenvolvidos pelo seu tio, Manuel Passinhas, nos quais se inspirou para este trabalho. As próprias possibilidades sonoras permitidas pela água também lhe interessam como artista, dando como exemplo o tema «Nahr» (que significa «rio» em árabe), onde usou uma gravação de sons submersos do rio Guadiana feita pela investigadora Maria Ilhéu.

A identidade visual deste trabalho também contou com nomes de extrema importância para a multi-instrumentista de Beja, a começar pela capa do álbum, que resultou da união de esforços entre a fotógrafa Eva Barrocas (autora do retrato de perfil) e a ilustradora Susa Monteiro.

A presença de Susa neste trabalho já tinha sido pensada como uma necessidade ainda antes de ser gravado: «É uma das ilustradoras que mais admiro e cujo imaginário do sul é o mais próximo do meu», confessa. «Penso que foi um encontro muito feliz dos nossos universos.» Esta colaboração em particular ocorreu nas ilustrações da artwork do disco, no videoclip do single de avanço, «Almocreve», e ainda na cenografia para apresentações ao vivo.

Outra presença fundamental na componente visual deste álbum é a do seu avô, o mestre Isaclino Palma, que sempre a inspirou e cuja presença nesta estreia a solo era inquestionável: «O seu trabalho no barro moldou a minha ideia do Alentejo rural e o seu amor pela arte sempre me contagiou.» Teve a oportunidade de captar Isaclino em áudio e em vídeo para «Almocreve». Deste modo, Ana sente que o seu avô ficou eternizado no álbum de uma maneira que lhe é bastante especial.

Ainda antes do virar do ano, o álbum foi apresentado no Cine-Teatro Marques Duque, em Mértola. Para além da banda de apoio, com Sebastião Santos nas percussões e sintetizadores, e João Mota na viola amarantina, berimbau e voz, a artista contou com a participação de muitos dos convidados presentes no álbum, e com outro elemento familiar: a sua irmã, Margarida Santos, nas percussões. Diz que o processo de apresentação foi árduo, mas também gratificante: «Felizmente contei com o apoio do Município de Mértola, que tornou possível esta estreia, com um palco cheio de músicos e muitos convidados especiais.»

O resultado final do disco e o respetivo feedback deixaram-na bastante satisfeita. «Não sendo um disco mainstream, tem despertado muita curiosidade a quem já me conhecia de outros meios e também a novos ouvintes», diz.

Para planos futuros, adianta que se encontra a trabalhar num próximo registo discográfico — será um EP, resultado de uma banda sonora para um bailado que compôs em 2025, intitulado «Entre Sombras», com o bailarino Wilmer Minyety. «Espero dentro de poucos meses poder lançá-lo, em edição digital.»

Esteve também dedicada à conclusão da plataforma online Aldeagar, que consiste num roteiro audiovisual das 15 aldeias localizadas no concelho de Beja — incluindo a vila de Beringel, onde reside atualmente. Esta plataforma foi lançada pela Câmara de Beja e desenvolvida pela Chão Nosso, uma cooperativa sediada em Beringel, que Ana Santos gere com Celina da Piedade e Cristina Taquelim.

Porém, todas estas atividades não a fazem deixar de lado a sua recente investida a solo. Revela que tem mais datas marcadas, para divulgação próxima, e acrescenta: «Tenho muita vontade de levar este concerto estrada fora.»

Uma resposta

  1. o meu nome é Artur Sanina nasci em Beja e na minha juventude e nos meus primeiros trabalhos na Casa da Cultura de Beja, Cercibeja e Birro do Pelame conheci o seu avô Isaclino um grande amigo e o seu trabalho em barro tendo adquirido algumas peças. Agora acompanho o trabalho da Ana Santos assim como da Celina da Piedade e louvo o mesmo na defesa da Cultura, dos Costumes, Tradições e do Cante Alentejano. Por viver em Tavira criei uma Associação Amigos do Alentejo de Tavira onde ao longo de 2025 trouxe uma serie de Grupos do Cante pois o meu Alentejo continua no meu coração e tenho o gosto e um desejo enorme de trazer o vosso trabalho a Tavira. O que tenho que conseguir para tornar este sonho realidade. Outra realidade que também criei foi o Núcleo da AJA de Tavira onde as canções do Zeca Afonso foram ouvidas e cantadas por Vitorino, João Afonso, Janta Salomé. Digam-me que o meu sonho pode tornar realidade Email – saninaartur@gmail-com tm 960382057

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