Nuno Mourinha: “O Pedro que ficou em cada um de nós”

Na morte de Pedro Nunes da Silva, presidente do Grupo Cidade, artigo de opinião de Nuno Mourinha, arqueólogo e diretor do jornal Brados do Alentejo.

Há pessoas que, ao partirem, nos deixam o coração em silêncio. Pessoas que nunca procuraram brilhar — e que, por isso mesmo, iluminavam tudo. O Pedro Nunes da Silva era assim. Um homem sereno, inteiro, profundamente decente, cuja ausência agora pesa como uma pedra no peito da cidade.

Foi o primeiros homem a entrar na educação de infância em Portugal. E é preciso dizer isto devagar, com o respeito que merece: o Pedro entrou num território onde quase ninguém o queria ver, num tempo em que um homem num jardim de infância era motivo de estranheza, de sorrisos tortos, de preconceitos que hoje já não lembram ao diabo. Ele podia ter desistido. Podia ter cedido ao desconforto. Podia ter-se escondido.

Mas o Pedro não era pessoa de recuos.
Não fez discursos, não exigiu palcos, não travou guerras. Fez o que sempre fez: trabalhou com verdade. E, trabalhando, abriu portas para todos os que vieram depois. Mudou sorrisos, mudou atitudes, mudou mentalidades — sem nunca cobrar isso a ninguém.

E Estremoz conheceu-o para além do ofício.
No Grupo Cidade, o Pedro era daqueles que não levantam a voz para serem ouvidos — e, no entanto, quando falava, obrigava todos a escutar. Tinha aquela inteligência calma, aquela lucidez com alma dentro, que faz falta em qualquer mesa onde se pense a cultura. Não procurava ter razão: procurava sentido. Não queria ser o mais brilhante: queria ser útil. E era — sempre.

Num concelho onde a cultura depende tantas vezes da generosidade dos que insistem em fazê-la crescer, o Pedro foi um dos mais fiéis e discretos guardiões desse esforço. Nunca se gabou disso. Talvez nem percebesse o quanto fazia falta.

Hoje, ao escrever estas linhas, não se escreve apenas sobre a perda de um cidadão exemplar. Escreve-se sobre a perda de um amigo — e sobre o estranho vazio que fica quando alguém tão fundamental parte sem alarido, tal como viveu.

Custa aceitar o silêncio que deixou.
É um silêncio pesado, desses que enchem a casa e a memória. Não é ausência: é presença que se torna dor. É lembrança que ainda não sabe ser consolo.

Mas há também o outro lado — aquele que só os grandes deixam.
O Pedro deixou-nos um legado que não cabe em placas nem em elogios. Deixou-nos a prova de que a coragem pode ser suave. De que servir a comunidade é um acto diário, não um gesto heróico. De que educar uma criança é tocar o futuro com as duas mãos. De que amar uma terra é participar nela, sem barulho e sem vaidades.

E, no fundo, deixou-nos isto: a certeza de que há vidas que não desaparecem.
Há vidas que ficam nos outros.
Que ficam na cidade.
Que ficam onde foram necessárias.

O Pedro era uma dessas vidas.

E nós — amigos, colegas, Estremoz inteira — sentimos por dentro aquilo que raramente se diz em público, mas que hoje merece ser dito sem medo: faz-nos falta, o Pedro. Muita. Mais do que imaginávamos. E muito mais do que sabemos dizer.

7 Responses

  1. Os meus netos frequentaram o maravilhoso infantário que o Pedro Nunes da Silva, fundou e exerceu.
    Era um sítio diferente dos outrem infantários.
    Tinham atividades diferentes, a que mais gostavam era ir para a casinha da lama!!!
    Calçavam as botas de borracha e saiam de lá todos sujos e muito felizes
    Obrigada professor!

  2. O professor Pedro partiu mas a obra permanecerá.
    No próximo sábado, dia 22 de novembro, o Grupo Cidade-Cidadãos Pela Defesa do Património de Estremoz, de que o Prof. Pedro foi o principal incrementador, levará a efeito uma conferência da historiadora Irene Flunser Pimentel, pelas 16 horas na Sociedade de Artistas Estremocense.
    Foi infelizmente a última iniciativa que teve em mão, juntamente com os seus colabiradores.
    A comparência dos seus amigos e de todos os os que ele privavam , nessa conferência, será uma singela homenagem ao Prof. Pedro.
    Obrigado Professor Pedro.
    Sentidos pêsames a toda a família.

  3. Obrigado professor Pedro por ter chegado à minha terra quando o meu filho mais velho frequentava o segundo ano do Jardim de infância dois anos mais tarde recebeu a minha filha que na sua inocência tinha muito medo de si por causa da sua barba andava sempre agarrada a dona balbina.
    Santo Amaro viu nascer e conheceu algumas pessoas com muita personalidade que ficam para sempre a história da minha aldeia mas na minha modesta opinião o professor Pedro será recordado como o grande dinimisador pela recuperação das tradições da nossa aldeia.
    O grande ser humano que o professor foi não morreu apenas se ausentou fisicamente ficará sempre na nossa memória.

  4. Há pessoas que marcam tanto a diferença pela positiva que até é um crime deixarmos de ter esperança. Mas muitos de nós só as conhecemos quando morrem, o que é triste. Muito obrigado ao Professor Pedro e a quem lhe faz justiça.

  5. Não conheci pessoalmente o Professor Pedro.
    Conheci-o por outros, e compreendi a elevada Pessoa que
    A minha profunda admiração e reverência, por tudo o que viveu e fez viver, inspirando-nos em uma profunda e autêntica Humanidade.

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