Já se habituou a responder quando o tratam por presidente ou ainda lhe causa alguma estranheza essa forma de cumprimento?
Espero que para os bejenses continue a ser o Nuno, ou o professor… é como quiserem. Serei sempre o Nuno. Julgo que também serei sempre professor. A presidência da Câmara é um estado transitório, na medida em que hoje sou o presidente, mas um dia deixarei de o ser, com toda a certeza. A forma de tratamento é algo que deixo ao critério de cada um, tudo me parece bem.
Perguntei-lhe é se já se habitou?
Continuo a sentir-me o Nuno que nasceu e cresceu em Beja, que saiu para ir estudar e que, quando casou, trouxe a mulher, pois sempre quis vir para Beja. E hoje estou casado com uma bejense absolutamente férrea e convicta, os meus filhos são bejenses. Serei sempre o Nuno.
E que estava longe de imaginar que o resultado fosse este, ou, de certa forma, era um cenário que começou a perspetivar ao longo da campanha?
As campanhas correm sempre muito bem. Felizmente, para a democracia, hoje em dia todos os candidatos são bem recebidos em campanha. Tive a mesma experiência há quatro anos. Se me perguntar qual era a sensibilidade que eu tinha, pelos cinco anos que o projeto Beja Consegue já leva, e pelos quatro anos de vereação, estávamos absolutamente convictos de que iríamos ter um resultado muito melhor do obtido há quatro anos. Não sabíamos se seria suficiente para ganhar, mas sabíamos que estávamos muito perto de ganhar. Portanto, o resultado não me surpreendeu, na medida em que ficámos dentro da margem de votação que perspetivava. Não me surpreendeu, repito, mas dá-me responsabilidade.
Na cidade teve uma vitória muito clara, só numa freguesia foram mais 767 votos que a candidatura do PS. Quais terão sido os fatores determinantes para esta diferença?
Não gostava de estar aqui a falar do anterior Executivo, pois tenho a certeza que em todos os momentos fizeram o melhor que puderam. A verdade é que nós trouxemos uma energia nova, uma forma diferente de pensar Beja e as pessoas sentiram a necessidade de mudar. No dia da votação, muito do voto dito silencioso acolheu o nosso projeto que, de facto, foi bem estruturado, foi bem pensado… bom, e agora queremos que seja bem executado. Temos essa responsabilidade, temos esse compromisso com os bejenses e vamos cumprir essa mudança.
Lá chegamos à pergunta clássica: em que áreas se começará a sentir essa mudança, quais as prioridades?
No imediato temos de “trabalhar a casa”, isto é, tomar conhecimento dos dossiers, olhar para os recursos humanos, ver como estão montados os dossiers técnicos e, a partir daí, começar a montar o puzzle de acordo com o nosso projeto para o concelho. Temos de ouvir muito, ouvir sempre, estar sempre perto das pessoas porque as pessoas são sempre o indicador de estamos no caminho certo ou no errado. A grande prioridade é ouvir as pessoas e, depois, executar toda aquela panóplia de medidas que temos, indo de encontro aos três eixos que definimos como fundamentais.
E que são?
Atração de investimento, melhorar da qualidade de vida e termos capacidade de começar a fixar jovens. Acredito que estas três ideias, quando juntas, vão proporcionar a construção de um concelho muito melhor, onde será muito mais agradável viver e esperemos que depois tenham o efeito dominó e que consigamos não só reter os que cá vivem, como atrair novos moradores. A prioridade será para os que cá estão, tratar quem aqui vive, dar-lhes condições para poderem continuar e, noutros casos, iniciar a sua vida.
Quando olha para Beja, que cidade vê hoje?
Vejo um concelho distante, um concelho isolado, longe dos grandes centros de decisão. Vejo um concelho com pouca massa crítica. E são todas estas tendências que temos também de conseguir inverter, e isso só se faz ouvindo. A nossa grande missão na Câmara Municipal é contrariar a lógica de que a Câmara é o centro de toda a movimentação em Beja e que, portanto, as pessoas, os munícipes, andam à volta das iniciativas da Câmara nas suas mais variadas áreas. Queremos inverter esta tendência, queremos apoiar as pessoas para se sentirem parte dos processos.
Em que sentido?
No sentido de retirar a Câmara para uma perspetiva de apoio. O ideal seria termos os cidadãos a construir a nossa cidade, o nosso concelho, e a Câmara a apoiar todas as iniciativas; não o contrário. Será desvalorizar as iniciativas que partem só da Câmara, mas valorizar as que partem dos cidadãos ou de grupos de cidadãos, porque só assim se consegue construir uma cidade dinâmica, fluida e em verdadeira comunhão.
As questões da segurança foram um dos focos da sua campanha. Pergunto-lhe se a videovigilância irá mesmo avançar?
Sim, sim. A insegurança é algo que não se mede apenas com dados estatísticos. Os dados estatísticos até dizem que o concelho de Beja teve menos criminalidade do que no ano passado, ou há dois anos. A insegurança está muito na forma como nos sentimos e aí há que fazer um trabalho de pacificação, das pessoas se habituarem a estar novamente tranquilas. Houve durante estes últimos dois anos muita intranquilidade e essa intranquilidade é que se traduz na sensação de falta de segurança. Portanto, sim, teremos câmaras de videovigilância nas artérias principais, onde há mais movimento, e isso tem de ser feito, pois contribui para as pessoas se sentirem mais seguras.
Que é também uma missão das forças de segurança.
Temos em Beja 22 mil habitantes, mais 11 mil nas freguesias rurais, temos PSP e GNR, que têm autonomia e uma missão própria a desempenhar, temos é de estabelecer uma articulação entre todos e atender às necessidades das forças de segurança, dar-lhes um apoio efetivo, pois só juntos e articulados podemos continuar a ver Beja como sempre a vimos, como uma cidade segura.
Presumo que não preveja surpresas a nível financeiro.
Não espero surpresas, temos acompanhado ao longo dos anos. Em termos de tesouraria as contas da Câmara de Beja estão mais que bem, o que peca é a falta de investimento. Sendo, aqui, também temos prioridades bem definidas: habitação e limpeza urbana. Olhe, a limpeza urbana também é importante para que o cidadão se sinta em segurança. É para aí que termos igualmente de caminhar.
Já a habitação é uma necessidade em praticamente todos os concelhos, mas em Beja o processo tem estado parado…
… porque os fundos a que podemos ter acesso no âmbito da Estratégia Local de Habitação não foram executados. E temos de os executar no máximo que nos for possível. Nestes casos levantam-se sempre questões associadas ao risco que envolve o investimento, à possibilidade do poder central, por algum motivo, obrigar os municípios a abdicar de algumas verbas, enfim, há sempre risco associado a questões técnicas. Se a Câmara tiver de fazer algum endividamento para resolver este problema irá fazê-lo. É um problema que tem de ser resolvido e que é absolutamente prioritário. Se não tivermos oferta de habitação condigna como é que vamos reter os jovens? Para isso é imprescindível a habitação, saúde, educação e criar condições de atratividade.

Sendo que a habitação é um problema grave aqui em Beja?
É muito grave. A que temos é cara. Perante os ordenados que se praticam, os jovens têm muita dificuldade em ter condições para iniciar a sua vida. A habitação consome grande parte dos orçamentos familiares. Em termos políticos, cumpre-nos criar soluções para que esse peso seja menor, para que os jovens de hoje possam ter as possibilidades que eu tive quando iniciei a minha vida familiar, no início da minha carreira como professor.
Ou seja, oferta de habitação não pensada exclusivamente para as famílias mais carenciadas?
Pensada para todos os segmentos, para todos. Vou dar-lhe um número: o parque municipal de habitação tem à volta de 360 casas, proprieda- de da Câmara. Não podemos aceitar que pessoas que trabalham todos os dias, com ordenados relativamente baixos, tenham dificuldade em encontrar um teto para si e para a sua família. Temos de facilitar. A habitação tem de ser pensada para todos os segmentos, para os jovens, também para os seniores e para pessoas com rendimentos mais baixos. Agora, não concordamos com as políticas de habitação que se fizeram no passado.
Quais?
Atribuir casas às pessoas, que depois vão para lá e não há responsabilidade nenhuma. Tem de haver sempre uma parte do seu orçamento familiar para pagamento de uma renda ainda que simbólica. Até admitimos que existam pessoas que não possam sequer pagar essa renda, mas tem de existir um compromisso de todos para que o parque habitacional possa ser gerido e mantido em condições.
Certo, mas sem os privados não me parece que o problema se resolva. O que me parece é que a Estratégia Local de Habitação é curta em termos de ambição.
Mas dá um grande incremento, vai ajudar a resolver muitos problemas. Mas, insisto, a gestão municipal tem de ser verdadeiramente bem-feita, temos de criar uma espécie de condomínio, no qual as pessoas têm direitos, mas também obrigações e para que as cumpram.
Acho absolutamente inacreditável a situação em que se encontra o Fórum Romano, que continua entaipado. Qual a sua perspetiva?
A minha perspetiva é reunir o mais rapidamente possível com todos os intervenientes. Enquanto presidente da Câmara quero criar dinâmicas de articulação para resolver isto de vez e pôr o património ao serviço de toda a cidade. Vamos ter de fazer algumas cedências, abandonar provavelmente algumas ideias com as quais a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo não concorda, e das quais o próprio autor da propriedade intelectual também discorda. Vamos ter de criar sinergias e chegar a um acordo. Acho que é consensual e unânime que, assim como está, não pode continuar. Da minha parte, da parte do Município de Beja, estamos dispostos a criar condições, implicando isso fazer algumas cedências, para que o Fórum Romano seja colocado ao serviço da população e para que seja, também, um dos pontos de atractividade de Beja.
Quando uma autarquia é da mesma cor política do governo, os presidentes tendem a perder a voz. A pergunta é: vai fazer ouvir-se nas questões que se arrastam há anos, designadamente as acessibilidades à cidade?
Como cantam os Xutos & Pontapés, “o passado foi lá atrás”. Temos de olhar para a frente. A nossa intervenção será sempre por Beja. Um dos problemas a que assisto enquanto cidadão é termos uma voz fraca, porque somos poucos e porque quando chegamos às estruturas de decisão reclamamos 10 coisas em simultâneo. É esse o primeiro passo para se pôr qualquer assunto debaixo da secretária. Ninguém acede a 10 pedidos ao mesmo tempo. Mas afinal de contas qual é o mais importante? Para nós, é absolutamente claro que a autoestrada e a eletrificação da linha ferroviária são as duas prioridades para os próximos anos. São duas obras que têm de ser feitas, independentemente da cor do Governo ser a minha, que neste caso até é, ou qualquer outra. O discurso não pode ser diferente. Eu não estou cá para defender o PSD, estou cá para defender a minha terra, o meu concelho, foi para isso que as pessoas votaram em mim. E vou fazê-lo, seja contra quem for, contra quem se torne um obstáculo para levarmos os nossos intentos a bom porto. Posso não conseguir? Posso. Mas vou tentar e, se tiver de reclamar, fá-lo-ei até onde for preciso, pois o nosso foco, a nossa prioridade é o concelho de Beja, é a capital de distrito.
A propósito da futura autoestrada A26…
O caso da A26 é inadmissível. E é inacreditável que a autoestrada de ligação a Beja ainda não tenha sido feita, independentemente de ter sido interrompida por um Governo do PSD, liderado por Pedro Passos Coelho. Já sei que o iria referir, mas não quero saber disso, isso não é relevante. Já passaram mais de 10 anos. A autoestrada tem se fazer, não há desculpas para este atraso. Em termos de contributo para o PIB nacional e para as exportações, não somos uns coitadinhos, a região é das melhores do país. Onde está o retorno? No caso da autoestrada trata-se de uma decisão política, não de orçamento, pois com tudo o que já está feito estimamos que se trate de um custo na ordem dos 90 milhões de euros. Sejamos claros: é uma decisão política. Então nós, com este contributo para o PIB, não temos direito a um investimento de 90 milhões de euros? Não brinquemos! Não é aceitável, independentemente do Governo que lá esteja.











