Quais foram as tuas primeiras impressões aquando da chegada a Lisboa?
Na verdade, vim ainda bebé para Lisboa, Oeiras mais propriamente. O meu pai foi cumprir o serviço para Moçambique e eu fiquei com a minha mãe na Estalagem Portugal, propriedade da minha madrinha e onde a minha mãe ficou a trabalhar. Só comecei a ter percepção do que era o Alentejo anos mais tarde. No entanto, toda a minha educação foi alentejana.
E que diferenças encontras hoje entre o teu Alentejo e a tua Lisboa?
As diferenças são muitas. Monforte: rural, terra da família, sinónimo de férias grandes e festas de agosto, calor abrasador, noites quentes sentados ao fresco com a família toda viva. Grande parte dessas memórias estão hoje povoadas de mortos. Gostava muito da viagem de camioneta pela velha estrada com muitas paragens, uma via-sacra de alegria. Chegar a Estremoz era uma aventura. A primeira vez que fiz a viagem sozinho foi uma grande sensação de liberdade. Lisboa estava nas viagens de carro de Oeiras pela Marginal que fazia com a minha madrinha. Para mim, Lisboa era a Feira Popular, o que não deixa de ser engraçado e trágico: a minha primeira lembrança de Lisboa já não existe.
Rádio ou Televisão, qual dos dois amores te encanta mais?
A rádio está para televisão como a ginástica está para ballet. A rádio foi o primeiro amor, ainda pirata; fazia um programa que se chamava “Modus Vivendi – o direito de cada um viver à sua maneira”, com uma enfermeira do Hospital de S. José, um vendedor de automóveis e um dentista. Com um título daqueles disse logo ao que vinha. Nunca imaginei que a rádio pudesse ser um emprego; os meus pais diziam-me que bom era ser funcionário público. Felizmente a vida deu-me outro rumo, ou dei eu esse rumo à vida. Nunca planeei nada, deixei-me ir; passei pela Renascença, XFM, Comercial, e Antena 3. A entrada na televisão foi por via da rádio, como voz-off na SIC; depois tornei-me copywriter no departamento de autopromoção, e foi como copy que entrei na RTP onde apresentei também o Top+. A rádio é estruturante, dá-te espessura, capacidade de argumentação e de reação rápida. Na televisão é preciso convocar o corpo para a conversa, o que nem sempre foi fácil porque sempre pesei muito (risos). Tudo aconteceu por acaso, mas o acaso deu-me muito trabalho.
Como lidas com as saudades de “casa”?
A Teresa Salgueiro canta com a música do Pedro Jóia: “Voltarei à minha terra quando já estiver cansado do destino que me leva a andar de lado em lado”. A nossa grande sorte é que ser alentejano é também um estado de espírito. O “Alentejo da minh’alma tão longe me vais ficando” já é só uma metáfora. Não há longe, apenas distância, e essa pode-se vencer.
Como explicarias o Alentejo a quem não o conhece?
O Alentejo já teve tantas vidas que explicá-lo é reduzi-lo. À medida que fui crescendo apercebi-me de que o Alentejo é como o Fernando Pessoa, tem muitos heterónimos, é muitas coisas diferentes e muitas vezes opostas. O meu Alentejo é seco e seca, é o do vento Suão que resseca a cara e envelhece as mãos. É curioso, mas cada vez acredito mais que o meu Alentejo é aquele que construí com as memórias da minha mãe e do meu pai, da minha família. O meu Alentejo não é uma planície árida, é o Alentejo do montado. Não é Baixo, é Alto, não é Sul, é Norte, não é litoral. É um Alentejo interior a mim próprio.
As deficiências no progresso e no desenvolvimento da região continuam a ser assunto. A que achas que se deve o fenómeno?
Foram muitos anos de latifúndio e de miséria, muitos anos de repressão, de feudalismo. Durante o século passado fomos uma espécie de “subalimentados do sonho”. Já em democracia foi o descalabro: tanta terra e tão pouca produção. A questão das cotas europeias foi a grande catanada, o desinvestimento do poder central fez o resto. O ressentimento e a ganância dos “senhores” de outrora deu lugar aos novos “lavradores”. O Alentejo foi uma região deixada entregue a si mesma, com pouca instrução e menos recursos do que outras regiões do país. Por isso o cante, mesmo alegre, é triste.
Como encaras a possibilidade de os municípios do interior deixarem de ter imprensa escrita nas bancas?
Infelizmente o mundo vai nessa direção, e os responsáveis são políticos e governantes que têm responsabilidades globais, planetárias. É gente que não são bem pessoas, mas acredito que isso não vai acontecer, há sempre alguém que resiste.

Se fosses político, o que farias para ajudar o Alentejo?
Eu só sou gestor da minha própria vida. Não tenho capacidade para mais e tenho consciência disso. É para isso que serve o voto, no fundo é uma procuração que passamos para que outros nos possam representar na tarefa dificílima que é governar. Até hoje, apesar de acreditar que estou do lado certo da história, não tem sido possível ver esse Alentejo construído, ou melhor, reconstruído. Como se dizia a propósito do Alqueva: “Construam-me, porra!”
Define-nos a tua terra natal.
Foi definida por António Sardinha, natural de Monforte. Nisto, não posso estar mais de acordo:
“Saudades vivas da Terra,
– vivas saudades do Mar…
Oh, o desejo impossível
de se partir e ficar!”
Ao fim de todos estes anos, como avalias o teu percurso profissional?
Se tivesse feito outra carreira é porque não tinha sido eu próprio. Nunca fui pessoa de fazer grandes planos e ser muito ambicioso. Nisso sou parecido com o meu pai, também nunca tive cunhas. Estou muito contente com o que me foi acontecendo. Só tenho pena de não saber cantar. Tenho boa voz, mas é para escrever à máquina.
“Rebobinar” é a nova aventura televisiva na RTP. Que programa é este?
É uma viagem ao mundo da televisão. O arquivo da RTP é valiosíssimo porque retrata a sociedade portuguesa desde que existe televisão em Portugal. O que nós fazemos é retirar um pouco dessa nata e voltar a colocá-la no Canal 1. Não pretende ser uma série documental nem ter a profundidade que lhe dá a RTP Memória. Tem uma imagem vintage, um tipo de mensagem adequada ao tempo que vivemos, rápido, intenso, a piscar o olho às redes sociais aonde já conquistou uma presença significativa em pouco tempo. É good tv, como agora se diz!
Que relação especial é essa que manténs, ao fim destes anos, com o povo português?
“É preciso subir ao povo” dizia, com muita sabedoria, Pedro Homem de Mello. Sou um tipo natural e sempre muito agradecido pelo facto de reconhecerem o meu trabalho e o expressarem calorosamente. Eu sou uma pessoa de confiança, as pessoas sabem disso!
Imaginas uma velhice a Sul?
Estaria a mentir se dissesse que sim. Já tive essa pretensão, mas a realidade contrariou o meu sonho antigo por vários motivos, mas os que importam estão relacionados com a saúde. O meu pai teve um enfarte lá no monte e foi complicado. Eu próprio também já tive o meu. A saúde em Portugal está muito difícil para todos, e no interior ainda mais. Voltarei sempre que quiser ou me quiserem, mas prefiro viver onde existem mais recursos (talvez seja um pouco hipocondríaco). E há a dimensão poética: eu preciso muito do mar.
Quais são os prazeres alentejanos que não dispensas?
Os da gastronomia resumidos na frescura, ternura e simplicidade de uma açorda.












